Mapear o fundo dos oceanos é uma questão de soberania, especialmente para o Brasil

O Brasil está em processo de requerer a extensão de sua Zona Econômica Exclusiva, a Amazônia Azul, de 3,6 milhões para 5,7 milhões de km². Sendo que 80% dessa área possui profundidades superiores a 200 metros. Para isso, é necessário conhecer o que há no fundo, e entender melhor seu potencial de exploração econômica e científica. Imagem: Data is Beautiful Visual Map, CC BY Alex Cardoso Bastos, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Quando os navegadores europeus partiram em direção ao desconhecido nos séculos XV e XVI, um dos maiores desafios era cartografar o que havia abaixo do mar. Não era por curiosidade científica, mas para sobreviver. Recifes, bancos de areia e rochas podiam destruir uma embarcação inteira. Hoje, séculos depois, o fundo dos oceanos ainda guarda mais mistérios do que a superfície de outros planetas. Temos mapas de Marte e da Lua com resolução de poucos metros. Apenas 28% dos nossos oceanos têm suas profundidades medidas com precisão acústica. Os outros 72% são estimativas baseadas em dados de satélite, insuficientes para entender o que realmente acontece no fundo do mar. De um fio de prumo ao sonar: uma longa jornada As primeiras tentativas de medir a profundidade dos oceanos eram exatamente o que parecem: um peso preso a uma corda longa, jogado ao mar. O processo era lento e impreciso. Em 1855, o oficial americano Matthew Fontaine Maury publicou um dos primeiros mapas do Atlântico e especulou sobre uma grande elevação central. Ele identificou o que conhecemos hoje como a atual Cordilheira Meso-Atlântica, cadeia de montanhas submarinas de mais de 14 mil quilômetros. O salto decisivo veio com a Expedição Challenger (1872–1876): 70 mil milhas náuticas, mais de 500 medições de profundidade ao redor do mundo, e o nascimento da oceanografia moderna. A Segunda Guerra Mundial acelerou o mapeamento ao impulsionar os sonares. Avanço tecnológico para fins militares que passou a revelar o relevo do fundo oceânico com precisão inédita e mais rapidez. Na década de 1970, Marie Tharp, Bruce Heezen e Maurice Ewing, da Universidade de Columbia (EUA), produziram o primeiro mapa detalhado da fisiografia dos oceanos. O trabalho de Tharp — que enfrentou décadas de resistência por ser mulher num campo dominado por homens — revelou cordilheiras, fossas e zonas de fratura, sendo peça fundamental para a consolidação da Teoria da Tectônica de Placas, uma revolução científica. Menos de um terço mapeado: por que isso importa? Em 2017, quando o projeto Seabed 2030 foi lançado por iniciativa da Fundação Nippon em parceria com o General Bathymetric Chart of the Oceans (GEBCO/UNESCO), apenas 5% do fundo oceânico havia sido mapeado com precisão acústica. Hoje, esse número chegou a 28%. A meta é atingir 100% até o final desta década. Parece uma questão técnica distante do cotidiano, mas não é. Dentro do contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, o conhecimento sobre o fundo dos oceanos tem um papel fundamental para várias questões inerentes e de interesse da sociedade: segurança à navegação, soberania, modelos climáticos e de risco geológico, biodiversidade, recursos pesqueiros e recursos minerais e energéticos. Portos, cabos submarinos de internet, rotas comerciais e plataformas de petróleo dependem de cartas náuticas precisas. Sedimentos marinhos regulam o clima ao acumular carbono por milênios. Corais de água profunda, fontes hidrotermais e montes submarinos abrigam ecossistemas únicos, muitos ainda desconhecidos. E o mapeamento detalhado do relevo submarino é ferramenta essencial para antecipar riscos de desastres, modelar a propagação de tsunamis e orientar a instalação de cabos e estruturas offshore. Mapear não é só medir profundidade Durante muito tempo, mapeamento oceânico significava uma coisa: medir a profundidade. Hoje, o conceito é muito mais amplo. Os ecobatímetros multifeixe modernos adquirem também o backscatter (a intensidade do sinal acústico refletido no fundo), que indica se o substrato é rochoso ou inconsolidado (lama e areia), compactado, coberto de algas ou se é um recife. A combinação dessas informações com o relevo do fundo permite criar mapas que revelam a geodiversidade marinha — a variedade de substratos, estruturas e relevos que existem no fundo oceânico. A geodiversidade acaba tendo uma relação forte com a distribuição da biodiversidade. Fundos mais complexos e variados tendem a abrigar uma maior diversidade de espécies. Determinados recursos pesqueiros, habitam áreas específicas. Isso significa que o mapeamento da geodiversidade marinha pode servir como um guia para prever e modelar a distribuição da biodiversidade e de recursos pesqueiros. Hoje, algoritmos de inteligência artificial são treinados para identificar padrões nesses dados e classificar automaticamente tipos de fundo marinho. Isso contribui para prever a distribuição de espécies bentônicas, áreas de pesca sustentável e recursos minerais. É uma área em rápida expansão tecnológica, e pesquisadores brasileiros precisam estar na fronteira desse desenvolvimento. O Brasil e a Amazônia Azul: uma oportunidade que não pode ser desperdiçada Nos últimos quinze anos, pesquisadores brasileiros — quase sempre em redes colaborativas com recursos escassos — acumularam descobertas relevantes. Descrevemos mosaicos de recifes submersos na Plataforma de Abrolhos, paleovales (rios submersos) afogados no Espírito Santo, estruturas recifais na Foz do Amazonas, depressões que indicam diferentes processos geoquímicos e biológicos, e exploraram amplamente o uso do backscatter na definição do substrato de fundo. Os resultados mostram que há muito a descobrir e que a capacidade científica existe no país. Mas faltam investimento e embarcações com tecnologia de ponta. Os anos de 2026 e 2027 representam uma janela histórica. O Instituto Schmidt Ocean trouxe seu navio Falkor (too) para o Atlântico Sul Ocidental, onde realizará expedições em parceria com pesquisadores brasileiros e internacionais sem custo direto para as equipes selecionadas. O navio está equipado com um veículo autônomo para mapeamento de alta resolução junto ao fundo (em profundidades de até 6 mil metros) e um veículo operado remotamente capaz de mergulhar até 4 mil 500 metros, filmar o fundo e coletar amostras. É uma oportunidade rara de acesso à tecnologia de ponta. Aproveitá-la, porém, exige que o Estado brasileiro trate os oceanos como prioridade estratégica — o que ainda está aquém do papel que o país pode assumir no
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Publicação foi financiada pela European Geosciences Union e editada pela University College Cork
Mudanças climáticas estão tornando regime de chuvas na Amazônia mais sensível ao desmatamento

Chuvas na Amazônia: estudo om participação de pesquisadores de cinco países investigou como as mudanças climáticas globais e os padrões regionais de uso da terra interagem para influenciar os padrões de precipitação na região sul do bioma até o ano de 2050. Foto: Fapesp Pesquisa / Rogerio Assis, CC BY Britaldo Soares Filho, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) A comunidade científica investiga, há um tempo considerável, as ameaças da ação humana para a Floresta Amazônica e seus impactos no clima regional e local. Uma das grandes preocupações entre os cientistas é o quanto de desmatamento a floresta suporta até que seu sistema de regulação de chuvas entre em colapso. Estudos prévios mostram que o volume de precipitações cai drasticamente quando o desmatamento ultrapassa cerca de 30% a 40% regionalmente. Nos últimos 50 anos, estima-se que a Amazônia tenha perdido cerca de 20% de sua cobertura vegetal para lavouras e pastagens, e a expectativa é que o dano total atinja 44,9% até 2050. Essa perda, entretanto, não recai sobre o clima uniformemente, de modo que os impactos dependem da escala geográfica e do uso que se faz das áreas afetadas. E não é apenas o desmatamento que impacta o sensível equilíbrio local. De acordo com o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, a região sul da Amazônia deve sofrer com secas prolongadas e redução de chuvas em geral em decorrência das alterações climáticas globais. As consequências conjuntas de mudanças no clima e perda de cobertura vegetal nativa para ultrapassar o limiar de colapso amazônico, entretanto, ainda não haviam sido investigadas. Padrões regionais de uso da terra Diante dessa incógnita, o principal objetivo do nosso estudo, Climate Change Amplifies Rainfall Sensitivity to Deforestation in the Southern Amazon, publicado na Geophysical Research Letters, com participação de pesquisadores da China, Austrália, Coreia do Sul, Finlândia e do Brasil, foi investigar como as mudanças climáticas globais e os padrões regionais de uso da terra irão, em interação, influenciar os padrões de precipitação na região sul do bioma amazônico até o ano de 2050. Nossos principais questionamentos eram como os efeitos combinados das alterações no clima e do desmatamento modificariam padrões regionais de precipitação futuros e sua sensibilidade à perda progressiva da floresta, e se as mudanças climáticas alterariam o limiar de desmatamento necessário para causar reduções mensuráveis e persistentes das chuvas. Nas análises, foram combinados cenários de mudanças climáticas globais e mudanças no uso da terra regionais. Para o clima, foram usados contextos contrastantes, em que um representava um caminho de desenvolvimento sustentável, com baixas emissões de gases do efeito estufa, e outro, um caminho de desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis, com altas emissões. Para o uso da terra, foi utilizado o cenário “business‐as‐usual” (BAU) do modelo SimAmazonia, que considera as tendências de expansão agropecuária e infraestrutura sem grandes melhoramentos na legislação e sua implementação através da fiscalização ambiental. O sul da Amazônia é uma região sob forte pressão da fronteira agrícola, e o modelo usado no estudo projeta que a cobertura florestal na área deve diminuir de 49%, em 2020, para 39% até 2050. Ao mesmo tempo, a área cultivada deve crescer em 5% e as pastagens devem se expandir de 30%, em 2020, para 36% até 2050. Queda significativa na precipitação média até 20250 Em relação às chuvas, ao considerar apenas as mudanças no uso da terra de 2020 para 2050, a precipitação média por ano na região reduziria em 1,7%, variando 42,1 mm. Quando apenas as mudanças climáticas são consideradas, a precipitação média anual diminui em 12,3% ou 295,4 mm, no cenário de baixas emissões, e 9,4% ou 225,1 mm sob o contexto de altas emissões. Quando analisadas em conjunto, mudanças no uso da terra e climáticas provocam redução de 13,9%, ou 337.5 mm, no cenário de baixas emissões e 10,9%, ou 267.2 mm, no de altas. A menor taxa de redução no segundo cenário pode dar a falsa ideia de que esse contexto seria, então, melhor que o de baixas emissões. Porém, o estudo também mostra que a distribuição e intensidade das chuvas é afetada. Sob as condições do segundo cenário, altas emissões, o volume de precipitações é maior apenas em um ponto específico, enquanto é menor nas demais áreas, revelando um maior desequilíbrio regional. De modo geral, as análises revelam que as alterações no clima deixam o equilíbrio pluviométrico ainda mais vulnerável às mudanças no uso do solo. Isso significa que o desmatamento, diante das mudanças climáticas, se torna ainda mais prejudicial ao regime de chuvas, e impacta severamente o agronegócio na região. Os resultados desse estudo são, enfim, mais uma prova de que barrar o desmatamento é essencial e a melhor decisão quando se pensa no futuro, sobretudo do Brasil. Apenas desse modo será possível salvaguardar tanto os recursos hídricos, quanto a produtividade e competitividade da agricultura regional e nacional. Britaldo Soares Filho, Fundador e pesquisador do Centro de Sensoriamento Remoto, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Veja o resultado de simulações de computador para prever a seleção ganhadora da Copa do Mundo

O polvo Paul apostou na Espanha contra a Holanda em 2010, mas será que simulações baseadas em ciência de dados e aprendizado de máquina vão se sair melhor este ano? Roland Weihrauch/DPA/AFP via Getty Images Achim Zeileis, University of Innsbruck Antigamente, quando queríamos saber qual seleção venceria a Copa do Mundo, precisávamos recorrer a videntes com bolas de cristal, adivinhação com folhas de chá ou torcer para que Paul, o Polvo nos indicasse o que iria acontecer. Mas a ciência de dados moderna pode oferecer uma alternativa melhor. Como parte de uma equipe de estatísticos, ajudei a treinar um algoritmo de aprendizado de máquina para prever o desfecho mais provável do torneio. Previsões probabilísticas e dados viciados O algoritmo que criamos funciona em duas etapas. Na primeira, modelos estatísticos sofisticados e insights de especialistas em apostas e no mercado de transferências são combinados para determinar os pontos fortes de todas as seleções e de seus jogadores. Na segunda etapa, um algoritmo de aprendizado de máquina decide a melhor forma de combinar as estimativas de força com outras informações sobre as seleções. Isso gerou uma previsão probabilística para cada partida possível do torneio. Isso pode ser comparado a um par de dados viciados: em vez de terem os números de 1 a 6 com probabilidades iguais, esses dados viciados têm probabilidades diferentes para o número de gols de cada time. Por exemplo, de acordo com nossa previsão, o México tem uma média de 1,9 gols na partida de estreia, enquanto a África do Sul, seu adversário, tem uma média de apenas 0,7. Mas isso não significa que o México certamente vencerá. Em vez disso, uma vitória do México é o resultado mais provável, com 65% de probabilidade. Um empate é menos provável (21%), e uma vitória da África do Sul é o resultado menos provável (14%). ‘Vuelve a casa, el fútbol vuelve a casa!’ Usando diferentes pares de dados viciados, o resultado de cada partida da Copa do Mundo pode ser simulado. Levamos em consideração o sorteio oficial do torneio e todas as regras da Fifa, incluindo a possibilidade de prorrogação e pênaltis. Executamos a simulação 100.000 vezes para determinar o roteiro mais provável do torneio. Os resultados mostram que a Espanha é a favorita ao título, com uma probabilidade de vitória de 14,5%, seguida de perto pela Inglaterra e pela França, ambas com 12,4%, e pela Alemanha, com 11,2%. Devido à ampliação do torneio – esta Copa do Mundo conta com 48 seleções e cinco rodadas na fase eliminatória –, este grupo de favoritas está bastante disputado. Portugal e a Argentina também têm boas chances de conquistar o título, com 8,9% e 8,2%, respectivamente. Já o Brasil vem na sétima posição, com 4,7% Os Estados Unidos, por sua vez, têm boas chances de chegar às oitavas de final: 78%. Essa é a maior probabilidade do grupo, que conta com outras três seleções. Na fase eliminatória, no entanto, quando cada partida é decisiva, as chances da seleção americana “sobreviver” caem relativamente rápido. A probabilidade de uma vitória da seleção anfitriã na final no MetLife Stadium, em Nova Jersey, em 19 de julho, é de apenas 1%. Um olhar mais profundo na sala de máquinas Nosso algoritmo de aprendizado de máquina e as simulações subsequentes são alimentados por dados, conhecimento especializado e modelos estatísticos. Primeiro, todas as partidas internacionais dos últimos oito anos servem de base para uma estimativa “retrospectiva” da força das seleções. Em segundo lugar, uma estimativa “prospectiva” da força é obtida a partir das cotações de várias casas de apostas internacionais, refletindo suas opiniões especializadas sobre o torneio que se aproxima. Em terceiro lugar, as avaliações dos jogadores individuais são produzidas com base em suas contribuições para os gols nos níveis de clube e nacional. E, finalmente, a qualidade atual e o potencial futuro dos jogadores se refletem em seus esperados valores de mercado. Essas informações estão disponíveis no site Transfermarkt, que utiliza uma abordagem de sabedoria coletiva para estimar os valores reais de mercado ainda desconhecidos. Essas quatro variáveis são combinadas com uma ampla gama de outros dados relevantes que refletem a situação atual das diferentes seleções e dos países de origem dos jogadores. Isso inclui detalhes específicos das equipes, como sua classificação na Fifa e o número de jogadores nas semifinais da Liga dos Campeões deste ano. Também levamos em conta fatores socioeconômicos específicos de cada país, como o PIB per capita. Para determinar se e como essas características são relevantes para os resultados reais em uma Copa do Mundo, foi utilizado um algoritmo de aprendizado de máquina. Aqui, uma chamada floresta aleatória é treinada, consistindo em muitas árvores de decisão que capturam subconjuntos ligeiramente diferentes dos dados. O algoritmo foi treinado com todos os jogos disputados nos principais torneios de futebol desde a Copa do Mundo de 2006. Assim, ele relaciona a força de uma equipe, seu valor de mercado e outros fatores ao número de gols marcados nas partidas da Copa do Mundo. Essas são as informações que definem o resultado de nossas simulações. Saiba mais Esta não é a primeira vez que nossa equipe, composta por Andreas Groll e Rouven Michels e colegas da Universidade Técnica de Dortmund, na Alemanha, Lars Magnus Hvattum da Faculdade Universitária de Molde, na Noruega, Gunther Schauberger da Universidade Técnica de Munique e eu colaboramos para fazer uma previsão da Copa do Mundo. Na Copa do Mundo Feminina de 2019, previmos corretamente que os EUA seriam os vencedores. Na Copa do Mundo Feminina de 2023 e na Copa do Mundo Masculina de 2022, os vencedores – Espanha e Argentina, respectivamente – não eram nossos favoritos, embora tenhamos previsto que fossem sérios candidatos. O ponto principal é que previsões tratam de probabilidades. Nosso programa não vai prever o vencedor com 100% de certeza – mas pode se sair melhor do que um molusco de oito braços. Achim Zeileis, Professor of Statistics, University of Innsbruck This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original
Novo estudo sugere que uma bactéria intestinal pode ajudar a prevenir o reganho do peso após dieta

Uma pesquisa descobriu que uma determinada bactéria intestinal pode ajudar a evitar o reganho do peso perdido. Prostock-studio/ Shutterstock Rachel Woods, University of Nottingham; University of Lincoln Perder peso é difícil. Manter o peso alcançado costuma ser ainda mais difícil. Pesquisas mostram que a maioria das pessoas que perde peso intencionalmente recupera pelo menos parte dele em poucos anos. Isso é frequentemente atribuído à falta de “força de vontade”, mas as evidências mostram, na verdade, que depois que perdemos peso, o corpo passa por uma série de mudanças biológicas que favorecem o reganho de peso. Isso inclui aumento da fome, alterações no metabolismo e mudanças nos hormônios envolvidos na regulação do apetite. Mesmo as pessoas que perdem peso com um medicamento à base de GLP-1 têm dificuldade em manter a perda de peso assim que o tratamento é interrompido. Por esse motivo, encontrar maneiras de ajudar as pessoas a manter a perda de peso é uma área importante de pesquisa. Um novo estudo publicado na Nature Medicine sugere que uma determinada bactéria intestinal pode ajudar a prevenir o reganho de peso. A bactéria, chamada Akkermansia muciniphila, é uma espécie abundante no microbioma intestinal humano. Ela vive na camada de muco que reveste o intestino. Ela é capaz de se alimentar de mucina (as proteínas e açúcares que compõem esse muco) e acredita-se que desempenhe um papel na manutenção da barreira protetora do intestino e também pode influenciar o metabolismo. A Akkermansia muciniphila tem chamado a atenção nas pesquisas sobre o microbioma nos últimos anos devido à sua associação com a melhora na saúde de pacientes com diversas doenças. Estudos em humanos demonstraram que níveis mais elevados de Akkermansia muciniphila estão associados a uma melhor saúde metabólica, incluindo melhor controle do açúcar no sangue, o que reduz o risco de desenvolver problemas de saúde como o diabetes tipo 2. Por outro lado, níveis mais baixos de Akkermansia muciniphila são observados em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2. Este estudo recente investigou se a suplementação de pessoas com Akkermansia muciniphila após a perda de peso poderia ajudar a limitar o subsequente ganho de peso. O estudo envolveu 90 adultos com sobrepeso ou obesidade. Os participantes seguiram uma dieta de baixo valor calórico durante oito semanas. Essa dieta consistia em sopas e caldos substitutos de refeições, totalizando 800 a 900 calorias por dia. Após essa fase, os participantes que perderam pelo menos 8% do peso corporal foram então aleatoriamente designados para receber um placebo ou suplementos diários contendo Akkermansia muciniphila pasteurizada por 24 semanas. Eles também foram orientados a seguir uma dieta saudável alinhada com as diretrizes alimentares holandesas, mas foram informados de que poderiam comer tanto quanto quisessem. Este estudo não utilizou bactérias Akkermansia muciniphila vivas. Em vez disso, utilizou-se uma versão pasteurizada (o que significa que as bactérias foram submetidas a tratamento térmico e já não estavam vivas). Isso pode parecer contraintuitivo, mas pesquisas anteriores sugerem que alguns dos efeitos benéficos dos probióticos, incluindo a A. muciniphila, podem vir de componentes da célula bacteriana, e não de micróbios vivos. A pasteurização pode até mesmo potencializar os efeitos do micróbio. Os participantes que tomaram o suplemento recuperaram menos peso. panadda design/ Shutterstock Ao final do estudo, o grupo que recebeu Akkermansia muciniphila havia recuperado significativamente menos peso do que o grupo que recebeu placebo. Em média, aqueles que tomaram o suplemento recuperaram cerca de 1,2 kg, em comparação com 3,2 kg no grupo do placebo. Isso sugere que a suplementação retardou, mas não impediu totalmente, a recuperação de peso após a perda inicial. Os pesquisadores também observaram algumas melhorias em alguns marcadores cardiometabólicos, incluindo maior sensibilidade à insulina (o que significa que o corpo está respondendo à insulina de forma mais eficaz) no grupo que recebeu o suplemento. O microbioma intestinal e o peso corporal O microbioma é altamente complexo. Ele é influenciado pela alimentação, atividade física, sono, medicamentos e muitos outros fatores. Por isso, é improvável que as terapias baseadas no microbioma sejam soluções simples e válidas para todos. Embora os resultados sejam animadores, o estudo foi relativamente pequeno e durou apenas seis meses após a fase inicial de perda de peso. Ainda não sabemos se os efeitos continuariam por períodos mais longos. Há também dúvidas sobre quem tem mais chances de se beneficiar, já que os participantes com níveis intestinais basais mais baixos de Akkermansia pareciam apresentar maiores melhorias cardiometabólicas. Isso destaca um desafio mais amplo na ciência do microbioma: os microbiomas intestinais das pessoas variam enormemente, e tratamentos que funcionam bem para uma pessoa podem ter pouco efeito em outra. O estudo também envolveu uma intervenção alimentar substancial e apoio, incluindo a oferta de um plano de substituição de refeições para a perda de peso inicial e o acompanhamento de nutricionistas durante todo o período do estudo. Portanto, o microrganismo não foi testado isoladamente das mudanças no estilo de vida, nem deve ser visto como um substituto para elas. Também vale a pena notar que vários autores declararam vínculos com a empresa produtora do suplemento utilizado no ensaio. Embora tais colaborações sejam comuns na pesquisa translacional (estudos que testam descobertas de laboratório em pessoas reais para compreender os benefícios à saúde), estudos independentes serão importantes para confirmar e aprofundar essas descobertas. Dito isso, o microbioma continua sendo uma área de pesquisa fascinante e cada vez mais importante, com ligações claras a muitos aspectos da saúde humana. Nosso entendimento sobre ele ainda está em desenvolvimento. No entanto, as pesquisas até o momento mostram que o microbioma desempenha papéis fundamentais no metabolismo e na imunidade, o que significa que ele pode influenciar tanto a saúde quanto o desenvolvimento de doenças. Muitos suplementos probióticos atualmente comercializados para os consumidores têm evidências limitadas que os sustentam. Embora estudos como este sugiram que terapias direcionadas ao microbioma possam ter potencial para, eventualmente, serem utilizadas como parte de estratégias de manutenção de peso, são necessárias muito mais pesquisas. Pode até ser possível apoiar e aumentar a Akkermansia muciniphila sem suplementação. A alimentação desempenha
Fechamento do manicômio de Barbacena reposiciona o Brasil no cenário humanitário mas não encerra obrigações do Estado

Internos de Barbacena posam nas grades das janelas, para as lentes do fotógrafo Luiz Alfredo, no ensaio fotográfico que revelou ao mundo os horrores do manicômio, em 1961. Apesar do importante simbolismo do fechamento definitivo do lugar onde morreram mais de 60 mil pessoas, ainda há centenas de instituições manicomiais com dinâmicas parecidas em funcionamento no Brasil. Foto: Luiz Alfredo / Arquivo do Instituto Moreira Salles Armando Alvares Garcia Júnior, UNIR – Universidad Internacional de La Rioja O ato simbólico de fechamento definitivo do Hospital-Colônia de Barbacena, ocorrido em maio de 2026, encerra formalmente o capítulo mais sombrio da psiquiatria brasileira. Ao longo do século XX, a instituição funcionou como um “depósito humano”, cenário que teria resultado na morte de cerca de 60 mil pessoas até sua desestruturação progressiva na década de 1980. O traslado dos quatorze sobreviventes remanescentes para uma residência terapêutica conclui um longo processo de desinstitucionalização e desospitalização. Sob a perspectiva do Direito Internacional dos Direitos Humanos, esse desfecho transcende a crônica local e ganha contornos de reparação jurídica global. O perfil das vítimas revela um nítido recorte social e racial A reclusão em massa ocorrida na Colônia nas décadas passadas violou sistematicamente os pilares da dignidade humana. Alguns textos jornalísticos apontam que 70% dos internos careciam de diagnóstico de transtorno mental — dado corroborado por investigação acadêmica sobre o perfil das internações entre 1930 e 1980. O perfil das vítimas revela um nítido recorte social e racial: a maioria absoluta consistia em pessoas negras, além de mães solteiras, homossexuais, alcoólatras e cidadãos marginalizados pela sociedade. A privação extrema de alimentos, a ausência de água potável e a comercialização de cadáveres para faculdades de medicina — com pelo menos 1.857 corpos vendidos a 17 instituições de ensino entre 1969 e 1981 — configuram práticas condenáveis. De fato, como mínimo, contrariam diretamente os compromissos estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo artigo 5.º proíbe de forma absoluta qualquer forma de tortura ou tratamento cruel, desumano ou degradante. Essa transição estrutural encontra amparo normativo na Convenção sobre os Dirietos das pessoas com deficiência de 2007, tratado internacional incorporado à legislação brasileira com equivalência constitucional pelo Decreto n.º 6.949, de 25 de agosto de 2009. O artigo 19 desse documento estabelece o direito fundamental de viver em comunidade, rejeitando a segregação baseada em condições intelectuais ou psicossociais — disposição que a literatura especializada reconhece como o pilar central do processo global de desinstitucionalização. Estado cumpre determinação da ONU Ao extinguir os últimos resquícios habitacionais do antigo complexo, o Estado brasileiro cumpre essa determinação internacional, substituindo o isolamento compulsório por moradias assistidas focadas na reinserção social, em conformidade com as Diretrizes da ONU sobre Desinstitucionalização adotadas pelo Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência em 2022. O desmantelamento final do aparato manicomial e o suporte de longo prazo conferido aos últimos sobreviventes colocam em movimento um processo que o direito internacional conhece como justiça de transição — o conjunto de medidas concretas que os Estados devem adotar para reparar, reconhecer e não repetir abusos massivos cometidos por suas próprias instituições no passado. Universidades se desculpam por usar cadáveres de pacientes Parte central desse processo são os pedidos públicos de desculpas: em abril de 2026, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) admitiu ter recebido cadáveres de pacientes do Colônia para aulas de anatomia; em maio, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) estimou o recebimento de 169 corpos entre 1962 e 1971. Ao assumirem publicamente sua responsabilidade, as duas universidades devolvem às vítimas e à sociedade o reconhecimento oficial de que uma injustiça foi cometida — o que o Centro Internacional para a Justiça de Transição(ICTJ) e os Princípios da ONU sobre Reparação consideram insubstituível, mas que constitui apenas o início, e não o encerramento, de um processo reparatório ainda em construção. A preservação da memória histórica atua como outra exigência normativa internacional para evitar a repetição de atrocidades — dever consagrado nos Princípios das Nações Unidas sobre o Direito à Verdade, à Justiça, à Reparação e às Garantias de Não Repetição (OHCHR) e nos documentos fundadores do ICTJ. A transformação de antigas alas do hospital no Museu da Loucura atende a esse dever. Espaços pedagógicos cumprem a função de educar as novas gerações sobre os perigos da exclusão social extrema. O registro detalhado das violações busca garantir que o sofrimento das dezenas de milhares de vítimas permaneça visível, servindo como advertência permanente contra o retrocesso em políticas de direitos fundamentais. A consolidação da desinstitucionalização em Barbacena sintoniza as ações do Brasil com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS). A agência preconiza o fim definitivo do modelo de confinamento prolongado e defende serviços de saúde mental integrados ao ecossistema comunitário — diretriz que o Brasil adotou formalmente a partir da Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei n.º 10.216, de 6 de abril de 2001). A substituição definitiva de alas asilares por residências terapêuticas em áreas rurais e urbanas segue o padrão recomendado internacionalmente e representa um avanço inegável. A reforma psiquiátrica brasileira adquire, assim, validação técnica e jurídica perante os organismos internacionais de supervisão médica — em especial a Organização Mundial da Saúde, o Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. O esvaziamento do Hospital Colônia reposiciona o Brasil no cenário humanitário global — mas o simbolismo do cadeado colocado no portão principal da antiga Colônia não pode encerrar, por si só, as obrigações do Estado. O risco de reduzir esse desfecho a um gesto cerimonial é real e documentado: centenas de instituições com dinâmicas similares persistem em funcionamento no Brasil e em diversas partes do mundo, sob denominações renovadas que dissimulam práticas estruturalmente análogas às do passado. A vigilância permanente da sociedade civil, dos organismos internacionais e dos mecanismos nacionais de prevenção à tortura — previstos no Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura (OPCAT) — é, portanto, condição indispensável para que o fechamento de Barbacena não se converta em exceção
Da medicina milenar chinesa à inovação global, setor farmacêutico do Brasil tem lições a aprender

João Batista Calixto, CIEnP (Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos); Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Nas últimas duas décadas, a China protagonizou uma das mais notáveis transformações científicas da biomedicina contemporânea. Em intervalo curto, o país deixou posição periférica na pesquisa biotecnológica para tornar-se uma potência global. E com isso, transformou áreas como a farmacologia molecular, genômica, inteligência artificial aplicada à saúde. Além de outras como terapia gênica, medicina regenerativa e o desenvolvimento de outras classes de medicamentos inovadores. Parte significativa dessa revolução ocorreu pela integração entre conhecimentos milenares da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e modernas ferramentas de genômica. A estratégia chinesa demonstra como conhecimentos tradicionais podem ser convertidos em inovação biomédica de ponta. Eles conseguiram isso ao associar investimentos robustos, planejamento de longo prazo e formação de recursos humanos qualificados. Fortalecimento da inovação biomédica A partir da década de 2010, a China implementou políticas de Estado voltadas ao fortalecimento da ciência, tecnologia e inovação. Centenas de milhares de estudantes chineses foram treinados em universidades de excelência nos Estados Unidos e na Europa. Posteriormente, foram atraídos de volta ao país por programas de repatriação científica, como o Thousand Talents Program. Esses programas ofereceram financiamento robusto, infraestrutura moderna, salários competitivos e liberdade para criação de novos grupos de pesquisa. Essa estratégia permitiu rápida formação de uma massa crítica de cientistas altamente qualificados capazes de competir internacionalmente em muitas áreas biomédicas. Vale destacar que isso ocorreu desde a pesquisa básica translacional, incluindo as etapas clínicas até a provação regulatória. Paralelamente, iniciativas estratégicas como Made in China 2025 e Healthy China 2030 direcionaram bilhões de dólares para à saúde e inovação tecnológica incluindo a área farmacêutica. A China passou então a ocupar posição de destaque mundial em publicações científicas em revistas de elevado impacto e prestígio mundial, depósitos de patentes e criação de startups biotecnológicas. Cidades como Pequim, Shenzhen e Xangai transformaram-se em grandes polos globais de inovação biomédica. Atualmente, esses polos integram universidades, hospitais, centros de pesquisa, incubadoras e empresas privadas. Ao mesmo tempo, a modernização da agência regulatória chinesa, a National Medical Products Administration, aproximou o sistema regulatório do país dos padrões internacionais. Com essa ação, conseguiram acelerar a aprovação de medicamentos inovadores e fortalecer toda cadeia de desenvolvimento de novas terapias. E com isso, aumentaram a competitividade da indústria farmacêutica chinesa. Plantas medicinais na origem de medicamentos modernos As plantas medicinais desempenharam papel central no desenvolvimento da medicina moderna. Diversos medicamentos clássicos tiveram origem em produtos naturais utilizados por diferentes civilizações. Entre os exemplos mais conhecidos estão a morfina, derivada de Papaver somniferum e a quinina, obtida de espécies de Cinchona e utilizada para tratamento de angina e taquicardia. Além dessas, a digoxina, derivada de Digitalis purpurea usada para insuficiência cardíaca; e o paclitaxel, isolado de Taxus brevifolia e amplamente usado no tratamento do câncer de mama. O exemplo mais emblemático dessa integração entre medicina tradicional e farmacologia moderna é a artemisinina. Descoberta pela pesquisadora chinesa Tu Youyou a partir da planta Artemisia annua, o composto revolucionou o tratamento da malária. E mais: salvou milhões de vidas em todo o mundo e demonstrou que conhecimentos tradicionais podem gerar descobertas científicas de enorme impacto global. A descoberta rendeu à pesquisadora o Prêmio Nobel de Medicina em 2015. O feito consolidou internacionalmente a relevância científica da Medicina Tradicional Chinesa. Avanços moleculares e genômicos Nas últimas décadas, os chineses passaram a utilizar tecnologias modernas de biologia molecular e inteligência artificial para investigar formulações tradicionais utilizadas há séculos por sua população. Essas abordagens vêm permitindo identificar compostos bioativos, compreender mecanismos de ação moleculares multialvos e explorar novas possibilidades terapêuticas para doenças complexas. Uma ampla revisão científica sobre compostos naturais com potencial antienvelhecimento destacou dezenas de moléculas bioativas derivadas de plantas medicinais da Medicina Tradicional Chinesa. Dois exemplos são o resveratrol – um potente antioxidante extraído das uvas escuras – e a curcumina, derivada da cúrcuma, também conhecida como açafrão-da-terra ou açafrão-da-índia. Segundo os autores, essas moléculas atuam em vias biológicas centrais relacionadas à longevidade, incluindo modulação gênica, proteção contra danos oxidativos ao DNA, entre outras funções. Outro estudo aplicou conceitos de ciência de redes para analisar mais de 59 mil fórmulas da Medicina Tradicional Chinesa registradas ao longo de dois mil anos. Os autores demonstraram que a evolução dessas formulações ocorreu por meio da recombinação de componentes vegetais organizados em redes complexas. O trabalho revelou que combinações simples e frequentemente utilizadas funcionam como “blocos de construção”. Segundo os autores, são fórmulas mais elaboradas e evidenciam notável estabilidade de componentes terapêuticos da Medicina Tradicional Chinesa. Entre as principais áreas terapêuticas investigadas a partir dessa Medicina Tradicional Chinesa destacam-se fibrose hepática, doenças cardiovasculares, lesão pulmonar associada à sepse, processos inflamatórios crônicos, doenças neuropsiquiátricas e vários tipos de câncer. Muitos estudos mostram que compostos naturais presentes nas plantas medicinais chinesas atuam simultaneamente sobre múltiplos alvos biológicos, importantes para doenças multifatoriais e crônicas. A planta Angelica sinensis, tradicionalmente utilizada em doenças ginecológicas e inflamatórias, revelou potencial terapêutico em estudos recentes. Pesquisadores demonstraram que, um de seus principais componentes, apresenta potente efeito antifibrótico hepático. Com isso, reduz processos inflamatórios e mecanismos celulares associados à fibrose do fígado. Outro exemplo envolve Eucommia ulmoides, planta utilizada tradicionalmente em doenças inflamatórias e cardiovasculares. Os chineses desenvolveram nanoformulações do extrato vegetal que foram capazes de reduzir lesão pulmonar aguda associada à sepse. Formulações compostas por associações de várias plantas também são estudadas em doenças cardiovasculares. A formulação Jiedu Yangxin Decoction demonstrou capacidade de reduzir fibrose cardíaca após infarto do miocárdio e modular processos inflamatórios envolvidos no remodelamento cardíaco. Na área neuropsiquiátrica, estudos recentes destacaram o potencial antidepressivo da tradicional fórmula Yueju Pill, utilizada há séculos na Medicina Tradicional Chinesa. A formulação combina cinco plantas medicinais e demonstrou ação multifatorial sobre neurotransmissores cerebrais, neuroplasticidade, neuroinflamação, estresse oxidativo e função mitocondrial. Outra revisão científica destacou o potencial de alcaloides como estratégia complementar no tratamento do câncer colorretal. Esses compostos atuam por múltiplos mecanismos. Entre os quais, estão envolvidos na indução da morte de células tumorais, na inibição da metástase e na modulação da
A culpa não é dos pais: pesquisa aponta cinco fatores que definem o que vai no prato das crianças

Claudia Cheron König, Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS); Bruna Liria Avelhan, Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS); Bruno Valim Magalhães, Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS) e Renan Rosolem Machado, Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS) Quando uma criança pede biscoito no supermercado ou insiste nos doces e rejeita o legume no prato, a cena costuma ser alvo de julgamentos precipitados, que culpam as famílias e, em especial, as mães. Essa é uma leitura comum, porém incompleta e equivocada, como mostra um estudo recém-concluído conduzido pelo Instituto Pensi. A partir dos relatos de 142 pessoas ouvidas em cinco grandes centros urbanos do país, a pesquisa Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável mostra que a alimentação infantil não se define apenas dentro de casa. Ela é resultado de um conjunto de fatores que antecedem a refeição: o preço dos alimentos, a jornada de trabalho dos responsáveis, o ambiente alimentar disponível, o tempo de exposição a telas e a pressão constante da publicidade dirigida às crianças. Os depoimentos revelam como esses fatores se entrelaçam nas escolhas cotidianas de famílias. Sem a pretensão de representar o país em termos estatísticos, o estudo ajuda a compreender como os pais e responsáveis negociam, na prática, o que gostariam de oferecer e o que de fato conseguem colocar no prato. As famílias sabem o que é comer bem e o problema não está na informação, mas nas condições que moldam as escolhas. Idealizada pelo Pacto Contra a Fome, com apoio da Food and Land Use Coalition(FOLU) e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal(FJLS), a pesquisa trabalhou com grupos focais online. Os encontros foram realizados entre setembro e outubro de 2025 em São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Goiânia com famílias das classes AB, C e DE. Entre os domicílios participantes, 57% conviviam com uma ou duas crianças, enquanto 4% tinham três ou mais. Em todos os grupos, a alimentação saudável foi associada à comida caseira: arroz, feijão, frutas, legumes e alimentos frescos. Já refrigerantes, biscoitos, salgadinhos, macarrão instantâneo e fast food foram reconhecidos como menos saudáveis. O problema está na distância entre saber e conseguir fazer: é aí que entram cansaço, preço, tempo, aceitação da criança, praticidade e publicidade. A influência da criança As narrativas indicam que as crianças são uma importante força organizadora do carrinho de compras. Pais e mães tentam garantir refeições com arroz, feijão, proteína, frutas e legumes, mas relatam dificuldade diante de pedidos por marcas específicas, embalagens coloridas, alimentos vistos em vídeos na internet ou associados a momentos de lazer. Essa influência não é trivial. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Pediatrics, com 96 estudos, encontrou associação entre marketing de alimentos e aumento de ingestão, escolha, preferência e pedidos de compra em crianças e adolescentes. O Ministério da Saúde, alinhado às recomendações da Organização Mundial da Saúde, afirma em seus documentos oficiais que é fundamental proteger crianças da publicidade de alimentos ultraprocessados para garantir ambientes saudáveis e prevenir obesidade e doenças crônicas. Na prática, muitas famílias não estão apenas escolhendo entre uma fruta ou um biscoito. Elas comparam uma fruta (que precisa ser comprada fresca, lavada, cortada, aceita pela criança e consumida antes de estragar) com um produto ultraprocessado barato, durável, pronto, palatável e desenhado para ser desejado. O atalho dos ultraprocessados Com presença marcante na dieta infantil, os ultraprocessados funcionam como atalho na rotina. Eles aparecem quando falta tempo, quando o orçamento aperta e também no fim de semana como lazer, recompensa ou alternativa fácil de consumir. De acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil – ENANI-2019, a proporção de crianças de seis a 23 meses que consomem ultraprocessados foi de 80,5%. O percentual chega a 93% entre crianças de 24 meses a 59 meses. O consumo de bebidas adoçadas foi de 24,5% e 50,3%, respectivamente. Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), de 2026, mostrou a força desses produtos no lanche: 50% das crianças pesquisadas haviam consumido ultraprocessados no lanche no dia anterior. Escola também é ambiente alimentar Na nossa escuta, a escola apareceu como um dos ambientes mais decisivos para a alimentação infantil. Nas famílias com crianças em escolas públicas, a alimentação escolar foi descrita como referência de refeição equilibrada e, muitas vezes, como segurança: a criança “come de verdade” na escola. Entre famílias de renda mais alta, a preocupação se desloca para lancheira, a cantina e a qualidade nutricional das opções disponíveis. Em 2025, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) anunciou diretrizes para reduzir gradualmente a compra de processados e ultraprocessados e ampliar alimentos in natura ou minimamente processados. O mínimo dessa categoria passa de 80% em 2025 para 85% a partir de 2026, enquanto o limite para processados e ultraprocessados cai para 10%. A escola não é, portanto, apenas um lugar para ensinar o que é alimentação saudável. Ela é um ambiente alimentar. Por isso, políticas escolares precisam envolver o que é servido, vendido e anunciado, bem como o que aparece na cantina, o que circula no entorno da escola e como crianças participam das práticas alimentares. Desigualdades espelhadas no prato Os grupos de pesquisa evidenciaram desigualdades na alimentação infantil conforme a renda, o tempo disponível e a infraestrutura das famílias. Nos grupos de maior renda houve planejamento, acesso a frutas, verduras e laticínios, e também utilização do fast food e o delivery como estratégias para recompensa ou lazer. Nos grupos C e DE, o esforço principal era garantir o básico: arroz, feijão, alguma proteína, leite, pão e alimentos que sustentem, enquanto frutas, verduras, peixe e laticínios apareciam como desejáveis, porém condicionados ao preço. O IBGE aponta que a insegurança alimentar grave atingiu 3,2% dos domicílios brasileiros em 2024, chegando a 6,3% dos domicílios no Norte e 4,8% no Nordeste. Nos relatos, quando o orçamento é instável, as famílias são condicionadas a realizar substituições e escolhas por alimentos de menor qualidade nutricional e, muitas vezes, menos saudáveis, mas que “sustentam” e “não estragam”. O que fazer? Políticas públicas! Os registros de