Como a migração se tornou chave para o sucesso na Copa do Mundo

Marrocos foi a seleção que contou com mais jogadores nascidos no exterior do que qualquer outra na Copa do Mundo da Fifa de 2022 e acabou sendo a primeira equipe africana a chegar nas semifinais do torneio. Abdelrahman Emam / Shutterstock Ben Brindle, University of Oxford Poucos teriam previsto o sucesso de Marrocos na Copa do Mundo da Fifa de 2022. Antes do torneio, a seleção ocupava a 22ª posição no ranking mundial e nunca havia passado das oitavas de final. Mas derrotou a Bélgica, a Espanha e Portugal – países que, tanto na época como atualmente, figuram entre os dez melhores do mundo – a caminho de se tornar a primeira nação africana a chegar às semifinais de uma Copa. A campanha de Marrocos não foi apenas notável (e totalmente merecida). Ela também gerou debate além do futebol, pois 14 dos 26 jogadores do elenco nasceram fora do país, mais do que qualquer outra nação no torneio. A Copa do Mundo de 2026 contará com mais jogadores nascidos no exterior do que qualquer edição anterior. Quase um quarto dos 1.248 jogadores convocados para as seleções nacionais nasceram em um país diferente daquele que irão representar. Em algumas seleções, as proporções são muito maiores do que isso – 96% dos jogadores de Curaçao nasceram no exterior, assim como 85% dos da República Democrática do Congo e 73% dos de Marrocos. No total, os jogadores nascidos no exterior constituem a maioria dos integrantes em oito das 48 seleções do torneio. CC BY-NC-ND A migração faz parte da história da Copa do Mundo desde o seu início. Na terceira edição do torneio, em 1938, por exemplo, 12% dos jogadores representavam um país diferente daquele em que nasceram. Isso se deveu, em parte, ao fato de a Fifa não ter introduzido regulamentos que estabelecessem a elegibilidade dos jogadores de futebol para as seleções nacionais até 1962, o que significa que não era incomum que jogadores representassem vários países ao longo de suas carreiras. Alguns jogadores representam países diferentes daqueles em que nasceram porque são elegíveis por meio de um dos pais ou avós. Esses jogadores geralmente surgem de comunidades da diáspora criadas por ondas anteriores de migração. Um exemplo é Ivan Rakitić, finalista da Copa do Mundo de 2018. Ele nasceu e foi criado na Suíça, mas escolheu representar a Croácia. Em uma entrevista de 2025, Rakitić explicou que, quando teve que escolher entre os dois países, seu coração lhe disse que ele deveria jogar pela Croácia. Outros jogadores se qualificam por meio de requisitos de residência. Pepe, por exemplo, nasceu no Brasil, mas disputou quatro Copas do Mundo por Portugal entre 2010 e 2022, após se tornar cidadão português aos 24 anos. Jogadores nascidos no exterior, no entanto, são apenas parte da história. As seleções da Copa do Mundo também contam com muitos imigrantes de segunda geração. A seleção francesa campeã da Copa do Mundo de 2018 é talvez o exemplo mais conhecido: 12 dos 23 jogadores tinham pais africanos. Esses padrões não são aleatórios. A seleção francesa reflete os laços coloniais e pós-coloniais do país com o norte e o oeste da África. Da mesma forma, desde meados dos anos 2000, a seleção suíça tem sido cada vez mais moldada pela migração proveniente da antiga Iugoslávia, na sequência dos conflitos e deslocamentos que acompanharam a sua dissolução na década de 1990. A seleção da Inglaterra para 2026 também conta uma história sobre o passado migratório do país. Além de Marc Guéhi, nascido na Costa do Marfim, pelo menos nove jogadores têm um dos pais nascido no exterior. A maioria tem raízes familiares em antigas colônias britânicas na África e no Caribe, refletindo os padrões de migração para o Reino Unido após a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, 24 jogadores nascidos na Inglaterra foram selecionados por outras seleções para a Copa do Mundo. Isso inclui cinco que representam a Escócia e 19 que jogam por países fora das Ilhas Britânicas (incluindo os EUA, a Nova Zelândia e Gana). Isso faz diferença em campo? Poucos estudos examinaram se seleções com mais jogadores migrantes têm melhor desempenho em campo. Mas as evidências disponíveis sugerem que sim. Um estudo de 2022 analisou todas as Copas do Mundo entre 1970 e 2018 e descobriu que as seleções com mais jogadores nascidos no exterior geralmente avançavam mais no torneio. Em média, cada jogador adicional nascido no exterior estava associado a cerca de 0,15 partida disputada a mais. Essa relação se manteve mesmo após levar em conta diferenças mais amplas entre os países, sugerindo que a migração pode oferecer vantagens além daquelas associadas apenas à riqueza ou à tradição futebolística. Outro estudo de 2023 examinou as seleções europeias que disputaram Copas do Mundo e Campeonatos Europeus entre 1970 e 2018. Usando os sobrenomes dos jogadores para estimar suas origens ancestrais, o estudo mediu a diversidade de origens dentro de cada elenco e descobriu que equipes mais diversificadas tendiam a ter um desempenho melhor, em média. Especificamente, a pesquisa constatou que um aumento de um desvio padrão na diversidade levava a um aumento na diferença de gols (o número de gols que uma equipe marca menos o número de gols que sofre) de cerca de 1,3 por partida, em média. Há pelo menos dois fatores que podem explicar esses resultados. Primeiro, a migração pode ampliar o leque de jogadores disponíveis para uma seleção nacional. A seleção de Gana para o torneio de 2026 conta fortemente com comunidades da diáspora na Europa Ocidental. Isso permite que ela recrute jogadores formados em alguns dos sistemas de futebol mais fortes do mundo. Segundo, a migração pode aumentar a diversidade de habilidades disponíveis dentro de um elenco. Jogadores de futebol precisam de características físicas específicas e habilidades técnicas para ter sucesso em campo. Os zagueiros centrais, por exemplo, costumam ser altos e fisicamente fortes. Já os jogadores mais ofensivos, por outro lado, geralmente precisam de velocidade. Uma população mais diversificada provavelmente proporcionará um leque maior de jogadores em potencial para cada
UFOP lança transporte noturno entre Mariana e Ouro Preto para estudantes

A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) inicia na próxima segunda-feira, 18 de maio, um projeto-piloto de transporte noturno que ligará os campi de Mariana e Ouro Preto. A iniciativa visa atender estudantes que enfrentam dificuldades de deslocamento entre as cidades em horários que não são cobertos pelo transporte coletivo intermunicipal, especialmente após as 21h. O projeto surge de levantamentos da própria UFOP, que identificaram uma lacuna no transporte público para bairros próximos ao Campus Morro do Cruzeiro. Com um micro-ônibus de 30 lugares, o serviço terá uma lista de passageiros previamente definida, não funcionando como um circular convencional. Para embarcar, será obrigatória a apresentação da carteirinha institucional e a confirmação de presença por assinatura ou outro método de validação. Critérios de Prioridade para as Vagas Devido à capacidade limitada, a UFOP estabeleceu critérios de prioridade para a ocupação das vagas, focando em quem mais precisa do apoio para seus estudos: Trajeto e Horários O transporte será oferecido de segunda a sexta-feira, exclusivamente no trajeto de retorno de Mariana para Ouro Preto, com saída programada para as 23h, partindo do Terminal Turístico de Mariana. Em Ouro Preto, os pontos de desembarque incluem: Caráter Experimental e Avaliação Contínua Segundo Paganini Barcellos de Oliveira, pró-reitor adjunto de Administração, o projeto tem um caráter experimental e será acompanhado de perto até o final do semestre letivo de 2026/1. Ajustes poderão ser feitos conforme as demandas e necessidades identificadas. A continuidade da iniciativa dependerá de avaliações operacionais, disponibilidade orçamentária, recursos humanos e condições logísticas. Os estudos e o planejamento para a viabilização da proposta foram conduzidos pela Pró-reitoria de Administração (Proad), em parceria com a Coordenadoria de Transporte, o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) e o Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (Icsa). Para dúvidas e informações adicionais, os interessados podem entrar em contato com a Proad pelo e-mail proad@ufop.edu.br.
Desburocratiza Ouro Preto: Nova lei promete facilitar a vida do morador nos bairros e distritos

Você já se sentiu perdido tentando resolver um problema na Prefeitura? Seja para aprovar uma pequena reforma, pedir a poda de uma árvore ou entender como parcelar uma dívida de IPTU, a burocracia muitas vezes parece um labirinto sem fim. Mas uma nova lei, sancionada recentemente pelo prefeito Angelo Oswaldo, promete levar as soluções diretamente para onde o cidadão mora. A Lei nº 1.642/2026, que institui o programa “Desburocratiza Ouro Preto”, nasceu de um projeto do vereador Matheus Pacheco (PV) e foi aprovada por unanimidade — 14 votos a zero — na Câmara Municipal . O objetivo é simples: orientar os moradores sobre procedimentos administrativos e serviços públicos de forma clara e acessível. O que muda na prática? A grande novidade é que a Prefeitura agora tem autorização legal para sair do Centro e promover oficinas, encontros e ações de orientação nos bairros e distritos . Isso significa que, em vez de você ter que se deslocar até a sede administrativa para tirar dúvidas básicas, o serviço pode chegar até a sua comunidade. De acordo com o texto da lei, o programa vai focar em temas que mexem diretamente com o dia a dia e o bolso do ouro-pretano: •Dívidas e Impostos: Orientações sobre o REFIS (programa de regularização de débitos), parcelamentos e tributos municipais. •Obras e Imóveis: Como aprovar projetos, reformas, construções e regularizar imóveis para obter alvarás. •Serviços Urbanos: Procedimentos para solicitar corte ou poda de árvores e troca de titularidade de contas e cadastros. •Transparência: Desenvolvimento de cartilhas e materiais informativos simplificados para que ninguém fique sem entender seus direitos e deveres . Por que isso é importante? Muitas vezes, leis úteis como esta acabam “esquecidas” em gavetas porque a população não sabe que elas existem. O “Desburocratiza Ouro Preto” tem um caráter educativo. Ao levar o conhecimento técnico para as associações de moradores e conselhos comunitários, a lei empodera o cidadão, reduzindo a dependência de intermediários e agilizando a resolução de problemas que, muitas vezes, travam a vida de quem quer empreender ou simplesmente cuidar da sua casa. A lei já está em vigor e cabe agora ao Executivo organizar o cronograma dessas ações descentralizadas. Fique atento ao seu bairro: a solução para aquela pendência na Prefeitura pode estar mais perto do que você imagina.
Exposição Ndanji abre hoje (12) na Casa de Vidro da UFOP com fotografia e instalação em sisal

Artista usa tranças em sisal e fotografia para falar de corpo, memória e herança da mulher negra A exposição Ndanji: uma raiz ancestral, da artista Dani dos Anjos, abre hoje, terça-feira, às 11h, na Casa de Vidro da UFOP (antigo Santander). A visitação é gratuita e acontece de terça a sexta, das 11h às 13h, até 27 de maio. Ndánji, em língua banto, significa raiz. O nome carrega o que a exposição propõe: partir das raízes — do cabelo afro, do corpo negro, da memória ancestral — para falar de identidade, resistência e herança cultural. A artista pesquisou identidade negra na diáspora com foco no corpo e no cabelo como marcadores históricos e culturais, e o resultado é uma instalação que combina fotografia e intervenção têxtil: tranças-raiz produzidas em sisal percorrem o ambiente como uma teia orgânica, conectando as imagens expostas ao espaço e ao espectador. O sisal não é escolha decorativa. A fibra vegetal, resistente e profundamente enraizada na cultura nordestina, evoca ao mesmo tempo a força do cabelo afro e as raízes que atravessam o tempo e a geografia. O resultado visual é uma instalação que ocupa o espaço de forma física — a teia de sisal não fica na parede, ela está no ambiente, ao redor de quem passa. A curadoria é de Rachel Falcão. A expografia e montagem foram feitas pela própria Dani dos Anjos com Saulo Calixto e Gio de Oliveira. A arte gráfica é de Giulia Oliva. 📋 Ndanji: uma raiz ancestral Abertura: Hoje, 12 de maio, às 11h Visitação: Terças a sextas, das 11h às 13h, até 27 de maio Local: Casa de Vidro da UFOP (antigo Santander) Entrada: Gratuita Artista: Dani dos Anjos Curadoria: Rachel Falcão
Gerdau e IFMG inauguram espaço de tecnologia e robótica para alunos da rede pública de Ouro Branco

Espaço no campus do IFMG em Ouro Branco tem potencial para alcançar 5.300 alunos da rede pública O Instituto Federal de Minas Gerais de Ouro Branco inaugurou em março um Espaço Maker dentro do campus, com patrocínio da Gerdau, apoio do Grupo +Unidos e da Prefeitura de Ouro Branco. A estrutura foi batizada de Ouro Hub e oferece equipamentos e metodologias para atividades de programação, robótica, prototipagem e fabricação digital. Segundo o IFMG, o espaço tem potencial para beneficiar 24 escolas públicas do município e aproximadamente 5.300 estudantes. Espaços maker são laboratórios de criação prática — ambientes onde alunos trabalham com ferramentas físicas e digitais para desenvolver protótipos, resolver problemas e aprender tecnologia fora do modelo de lousa e apostila. O conceito existe há décadas em universidades americanas e europeias e chegou às escolas públicas brasileiras de forma irregular e fragmentada. Em Ouro Branco, a estrutura fica dentro de um campus federal, o que garante acesso a estudantes que dificilmente teriam contato com esse tipo de equipamento em casa ou na escola básica. A iniciativa nasceu de uma articulação entre setores diferentes: a Gerdau entrou com o patrocínio, o Grupo +Unidos — organização social com atuação em educação e inovação — coordena a gestão do espaço, e a Prefeitura de Ouro Branco entrou como parceira institucional. O IFMG oferece a infraestrutura física e a integração com a grade de ensino. A proposta inclui formação de educadores da rede municipal, não só dos alunos do instituto. O contexto econômico de Ouro Branco dá peso ao projeto. A cidade é historicamente dependente da siderurgia — a Gerdau opera ali uma das suas principais unidades no Brasil — e, como outros municípios da região central de Minas, enfrenta a pressão de criar alternativas ao ciclo econômico baseado em indústria pesada e mineração. Iniciativas de tecnologia e empreendedorismo para jovens da rede pública são uma aposta de diversificação de longo prazo que cidades como Ouro Branco precisam fazer agora, antes que a janela se feche. Para o diretor do IFMG Campus Ouro Branco, Haroldo Lacerda de Brito, o espaço representa uma mudança concreta de acesso. “Este espaço é resultado de uma importante parceria e representa o fortalecimento da tecnologia, da inovação e da cultura digital em nosso território. Nossa meta é impactar mais de 5 mil estudantes da rede pública, ampliando oportunidades concretas para estudantes, educadores e empreendedores”, afirmou. 📋 Espaço Maker — Ouro Hub Onde: IFMG Campus Ouro Branco Inaugurado: Março de 2026 Potencial de alcance: 5.300 alunos de 24 escolas públicas de Ouro Branco Atividades: Programação, robótica, prototipagem, fabricação digital, cultura maker Patrocínio: Gerdau Parceiros: Grupo +Unidos e Prefeitura de Ouro Branco
Ouro Preto celebra 234 anos de Tiradentes com cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência

Foto: Tino Ansaloni/JVA.
Famílias de baixa renda podem trocar lâmpadas de graça em Ouro Preto até domingo

Programa Cemig nas Comunidades passa pela cidade até 20 de abril com troca gratuita de lâmpadas LED
Por que algumas pessoas ainda acreditam que alienígenas moldaram civilizações antigas

Narrativas modernas apresentam a Humanidade como parte de um grande desígnio guiado por seres superiores, e assim sítios arqueológicos como as Pirâmides do Egito tornam-se adereços de um drama cósmico. Mas o extraordinário nunca foi alienígena, e sempre foi humano. Stefan Baumann Stephan Blum, University of Tübingen e Stefan Baumann, KU Leuven Humanos antigos realmente construíram as pirâmides sem ajuda extraterrestre? Ou será que essas perguntas revelam mais sobre as ansiedades modernas do que sobre o próprio passado? A ideia de que alienígenas ajudaram os construtores de monumentos antigos foi promovida pelo autor suíço Erich von Däniken em seu livro best-seller Eram os Deuses Astronautas? — publicado em 1968. Von Däniken faleceu em janeiro de 2026, mas sua visão dos antigos astronautas ainda cativa milhões de pessoas. O autor apontou estruturas antigas, como as pirâmides, juntamente com artefatos antigos enigmáticos, como supostas evidências de que seres de fora da Terra moldaram as civilizações do passado. Embora essas ideias tenham sido repetidamente refutadas, programas de televisão como Alienígenas do Passado, do History Channel, continuam a veicular narrativas semelhantes. As teorias de Erich von Däniken surgiram em um momento histórico específico. Elas se cristalizaram durante a Guerra Fria, em meio a temores de aniquilação nuclear, à corrida espacial e às rápidas mudanças tecnológicas. Enquanto os humanos se preparavam para deixar a Terra, ao mesmo tempo em que enfrentavam seu próprio poder destrutivo, a ideia dos “antigos astronautas” ofereceu tanto um consolo cósmico quanto um drama existencial. O passado se tornou um palco para as esperanças e ansiedades modernas. A razão pela qual algumas pessoas se sentem capazes de acreditar em teorias completamente sem fundamentos está relacionada à própria natureza da arqueologia. A disciplina trabalha com evidências fragmentárias, depósitos em camadas e interpretações que raramente levam a conclusões simples. Sítios como Gizé, no Egito, Göbekli Tepe (um assentamento neolítico na Turquia moderna conhecido por seus pilares monumentais decorados com relevos esculturais) e Tróia — também na Turquia — não são enigmas não resolvidos, mas o resultado de décadas de escavações e análises sistemáticas. Em Gizé, arqueólogos descobriram assentamentos planejados para trabalhadores, padarias e sistemas organizados de abastecimento de alimentos, demonstrando como milhares de trabalhadores puderam construir as pirâmides ao longo de décadas. Göbekli Tepe mostra que seus pilares de pedra monumentais foram erguidos por comunidades de caçadores-coletores milênios antes da invenção da escrita — não por intervenção alienígena, mas por meio de trabalho coordenado e inovação ritual. Em Tróia, camadas sucessivas de assentamentos revelam séculos de reconstrução, adaptação e intercâmbio regional, em vez de uma anomalia tecnológica repentina. As conclusões arqueológicas são cautelosas, probabilísticas e fundamentadas em evidências materiais. Para quem está de fora, no entanto, a cautela pode parecer hesitação. A pseudociência preenche essa lacuna percebida com espetáculo: alienígenas construíram as pirâmides; forças misteriosas ergueram Göbekli Tepe; supertecnologias esquecidas moldaram as muralhas de Tróia. Despojadas de contexto, as evidências tornam-se entretenimento. A complexidade é reduzida a insinuação. Um argumento típico dos “alienígenas do passado” ilustra o padrão: as pirâmides são extraordinariamente precisas. A precisão, segundo a alegação, requer tecnologia avançada; portanto, humanos sem máquinas modernas não poderiam tê-las construído. O raciocínio parece lógico — mas repousa sobre um falso dilema. O que desaparece de vista é precisamente o que a arqueologia estuda: logística, organização do trabalho, conjuntos de ferramentas, conhecimento artesanal acumulado — e pequenas imperfeições que revelam mãos humanas em ação. O fascínio do extraordinário Tais explicações satisfazem um impulso psicológico profundo. Onde antes a religião explicava o propósito, a ciência explica o processo. A hipótese dos “antigos astronautas” explora o viés de proporcionalidade — a intuição de que realizações extraordinárias devem ter causas extraordinárias. Assim como as lendas medievais enquadravam as pirâmides como proteção contra catástrofes cósmicas, as narrativas modernas apresentam a Humanidade como parte de um grande desígnio guiado por seres superiores. Os sítios arqueológicos tornam-se adereços de um drama cósmico. Os humanos deixam de ser criadores; o passado se torna extraordinário porque foi “ajudado”. O apelo não se limita a públicos marginais. Pesquisas sugerem que muitas pessoas consideram a vida extraterrestre possível ou até mesmo provável. Muitos cientistas concordam que, dada a vasta escala do Universo, tal vida é estatisticamente plausível. Mas plausibilidade não é prova — e certamente não é evidência de intervenção alienígena na Antiguidade. A desconfiança amplifica o efeito. Universidades, museus e revistas acadêmicas são frequentemente retratados como guardiões que suprimem verdades inconvenientes. A refutação científica torna-se evidência de conspiração. A prosa acadêmica — cuidadosa, qualificada e precisa — tem dificuldade em competir com a certeza dramática. Perguntas como: “Como os humanos poderiam ter construído isso sem a tecnologia moderna?” já contêm a insinuação. As mídias digitais aceleram esse padrão: afirmações visualmente impactantes circulam mais rápido do que explicações metodológicas. A arqueologia enfatiza a mudança gradual e o conhecimento cumulativo; a pseudociência promete revelações. A arqueologia pseudocientífica não é apenas um conjunto de crenças — é uma indústria lucrativa. Livros sobre antigos astronautas vendem milhões de cópias em todo o mundo. Franquias de televisão geram receita constante, e figuras de destaque atraem centenas de milhares de espectadores online. Göbekli Tepe é obra de trabalho humano coordenado, não de extraterrestres. Matyas Rehak Em contrapartida, o trabalho acadêmico circula em uma economia radicalmente diferente: monografias são impressas em pequenas tiragens e geram pouco lucro. Esta não é apenas uma batalha de ideias, mas uma batalha pela atenção: o espetáculo é recompensado de forma mais visível do que a cautela. O gênio retórico de Von Däniken residia na ambiguidade. Ele raramente fazia afirmações definitivas, preferindo perguntas sugestivas e justaposições seletivas que transformavam a incerteza em insinuação. Como ele observou certa vez: “‘Eram os Deuses Astronautas?’ estava cheio de especulações — eu tinha 238 pontos de interrogação. Ninguém leu os pontos de interrogação. Eles disseram: o Sr. von Däniken está dizendo… Eu não disse — eu perguntei”. A estratégia é simples: enquadrar a especulação como indagação e a crítica como mal-entendido. Recuperando a história A popularidade da pseudociência não é simplesmente ignorância. Ela reflete a dificuldade de interpretar
Por que os chatbots de IA em saúde não vão ajudar você a se autodiagnosticar melhor

Rebecca Payne, Bangor University; University of Oxford Milhões de pessoas estão recorrendo a chatbots de inteligência artificial (IA) para obter orientação sobre tudo, desde culinária até declarações de Imposto de Renda. E também cada vez mais elas estão consultando os chatbots sobre sua saúde. Mas, como o diretor médico do Reino Unido alertou recentemente, isso pode não ser sensato quando se trata de decisões médicas. Em um estudo recente, meus colegas e eu testamos até que ponto os chatbots com modelos de linguagem de grande escala (LLM) ajudam o público a lidar com problemas de saúde comuns. Os resultados foram impressionantes. Os chatbots que testamos não estavam prontos para atuar como médicos. Uma resposta comum a estudos como este é que a IA avança mais rápido do que as publicações acadêmicas. Quando um artigo é publicado, os modelos testados podem já ter sido atualizados. Mas estudos que utilizam versões mais recentes desses sistemas para triagem de pacientes sugerem que os mesmos problemas permanecem. Fornecemos aos participantes breves descrições de situações médicas comuns. Eles foram designados aleatoriamente para usar um dos três chatbots amplamente disponíveis ou para recorrer às fontes que normalmente usariam em casa. Após interagir com o chatbot, fizemos duas perguntas: qual condição poderia explicar os sintomas? E onde eles deveriam procurar ajuda? As pessoas que usaram chatbots tiveram menos chances de identificar a condição correta do que aquelas que não os usaram. Elas também não foram melhores em determinar o local certo para procurar atendimento do que o grupo de controle. Em outras palavras, interagir com um chatbot não ajudou as pessoas a tomarem melhores decisões de saúde. Conhecimento sólido, resultados fracos Isso não significa que os modelos careçam de conhecimento médico, pois os LLMs conseguem passar em exames de licenciamento médico com facilidade. Quando removemos o elemento humano e apresentamos os mesmos cenários diretamente aos chatbots, seu desempenho melhorou drasticamente. Sem o envolvimento humano, os modelos identificaram condições relevantes na grande maioria dos casos e, muitas vezes, sugeriram níveis adequados de atendimento. Então, por que os resultados se deterioraram quando as pessoas realmente usaram os sistemas? Quando analisamos as conversas, os problemas vieram à tona. Os chatbots frequentemente mencionavam o diagnóstico relevante em algum momento da conversa, mas os participantes nem sempre percebiam ou se lembravam disso ao resumir sua resposta final. Em outros casos, os usuários forneceram informações incompletas ou o chatbot interpretou mal detalhes importantes. A questão não era simplesmente uma falha de conhecimento médico – era uma falha de comunicação entre humano e máquina. O estudo mostra que os formuladores de políticas precisam de informações sobre o desempenho da tecnologia no mundo real antes de introduzi-la em ambientes de alto risco, como a linha de frente da assistência médica. Nossas descobertas destacam uma limitação importante de muitas avaliações atuais da IA na medicina. Modelos de linguagem costumam ter um desempenho extremamente bom em questões de exames estruturadas ou em interações simuladas “modelo a modelo”. Mas o uso no mundo real é muito mais complexo. Pacientes descrevem sintomas de maneira vaga ou incompleta e podem interpretar mal as explicações. Eles fazem perguntas em sequências imprevisíveis. Um sistema que tem um desempenho impressionante em testes de benchmark pode se comportar de maneira muito diferente quando pessoas reais começam a interagir com ele. A IA talvez seja mais adequada como secretária médica. ST_Travel/Shutterstock Isso também ressalta uma questão mais ampla sobre o atendimento clínico. Como clínico geral, meu trabalho envolve muito mais do que apenas relembrar fatos. A medicina é frequentemente descrita como uma arte, e não como uma ciência. Uma consulta não se resume simplesmente a identificar o diagnóstico correto. Envolve interpretar a história do paciente, explorar incertezas e negociar decisões. Os educadores médicos há muito reconhecem essa complexidade. Durante décadas, os futuros médicos foram ensinados usando o modelo Calgary–Cambridge. Isso significava construir um relacionamento com o paciente, coletar informações por meio de perguntas cuidadosas, compreender as preocupações e expectativas do paciente, explicar os resultados com clareza e chegar a um acordo sobre um plano conjunto de tratamento. Todos esses processos dependem da conexão humana, da comunicação personalizada, do esclarecimento, da investigação delicada, do julgamento moldado pelo contexto e da confiança. Essas qualidades não podem ser facilmente reduzidas ao reconhecimento de padrões. Um papel diferente para a IA No entanto, a lição de nosso estudo não é que a IA não tenha lugar na área da saúde. Longe disso. O segredo está em compreender em que esses sistemas são bons atualmente e onde estão suas limitações. Uma maneira útil de pensar sobre os chatbots de hoje é que eles funcionam mais como secretárias do que como médicos. Eles são notavelmente eficazes na organização de informações, no resumo de textos e na estruturação de documentos complexos. Esses são os tipos de tarefas em que os modelos de linguagem já estão se mostrando úteis nos sistemas de saúde, por exemplo, na elaboração de notas clínicas, no resumo de prontuários de pacientes ou na geração de cartas de encaminhamento. A promessa da IA na medicina continua real, mas seu papel provavelmente será mais de apoio do que revolucionário no curto prazo. Não se deve esperar que os chatbots atuem como porta de entrada para a assistência médica. Eles não estão prontos para diagnosticar condições ou encaminhar pacientes para o nível adequado de atendimento. A inteligência artificial pode ser capaz de passar em exames médicos. Mas, assim como passar em uma prova teórica não faz de você um motorista competente, a prática da medicina envolve muito mais do que responder corretamente a perguntas. Ela requer discernimento, empatia e a capacidade de lidar com a complexidade que está por trás de cada encontro clínico. Pelo menos por enquanto, isso requer pessoas, e não bots. Rebecca Payne, Clinical Senior Lecturer, Bangor University; University of Oxford This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Homem é atropelado por viatura da GCM durante abordagem e leva gás de pimenta no rosto após cair

Caso é acompanhado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara; GCM apura na Corregedoria