Maior desastre geológico da história de Juiz de Fora deixa ao menos 23 mortos e dezenas de desaparecidos na Zona da Mata mineira

Chuvas que quebraram todos os recordes históricos da cidade atingiram também Ubá e Matias Barbosa; vice-governador Mateus Simões coordena operação com mais de 500 bombeiros em campo. Previsão de novos temporais até o fim de fevereiro mantém alerta máximo na região. Foto: Departamento dos Bombeiros de MG/ via AFP Uma supercélula — tempestade rara e de grande severidade — varreu a Zona da Mata de Minas Gerais na madrugada desta terça-feira (24) e transformou Juiz de Fora no cenário do maior desastre geológico já registrado na história da cidade. Até a última atualização do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, 23 pessoas morreram, 47 estão desaparecidas e mais de 440 famílias estão desabrigadas. Os municípios de Ubá e Matias Barbosa também foram gravemente atingidos. O vice-governador Mateus Simões (PSD) foi ao local e coordenou as operações pessoalmente. Em pronunciamento, informou que o governo estadual atua desde as 9h de segunda-feira (23) e que, no momento de sua fala, dez áreas seguiam com atuação ativa do Corpo de Bombeiros. “Nós estamos falando, obviamente, do maior desastre geológico que já aconteceu na cidade de Juiz de Fora”, declarou Simões, citando também Ubá e Matias Barbosa entre os municípios mais afetados. Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa decretaram estado de calamidade pública. O governo federal reconheceu oficialmente a calamidade em Juiz de Fora na manhã desta terça-feira, desbloqueando o acesso a recursos federais de emergência. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou o envio imediato de equipes da Força Nacional do SUS e do Grupo de Apoio a Desastres (Gade) da Defesa Civil Nacional para a região. O governador Romeu Zema (Novo), que cumpria agenda em Unaí quando os temporais se intensificaram, anunciou deslocamento a Juiz de Fora e decretou luto oficial de três dias em todo o estado. O volume de chuva que ninguém esperava A magnitude da tragédia tem uma explicação nos dados meteorológicos. Juiz de Fora acumulou 584 milímetros de chuva ao longo de fevereiro — quase quatro vezes a média histórica prevista de 170,3 milímetros para o mês inteiro, segundo a Defesa Civil. O recorde anterior da cidade datava de 1988, quando foram registrados 456 milímetros. Em Ubá, conforme a Defesa Civil municipal, choveu cerca de 170 milímetros em apenas três horas, provocando a maior inundação registrada nos últimos anos. O transbordamento do Rio Paraibuna foi um dos principais vetores da destruição em Juiz de Fora. Segundo o tenente Henrique Barcellos, porta-voz do Corpo de Bombeiros, o rio saiu da calha e gerou mais de 40 chamados emergenciais em poucas horas, envolvendo alagamentos, soterramentos, interdição de vias e risco estrutural em encostas. A prefeita Margarida Salomão (PT) descreveu a dimensão: “Nove casas desceram uma sobre as outras”, disse ela ao se referir a um deslizamento no bairro Costa Carvalho. “Os bairros estão ilhados. Os córregos estão todos absolutamente transbordando”, completou. Em Matias Barbosa, o transbordamento simultâneo dos rios Paraibuna e São Fidélis isolou completamente a cidade. O prefeito Mauricio dos Reis Domingos (PSB) decretou calamidade para acessar recursos federais e agilizar as ações emergenciais, mas até a última atualização não havia confirmações de vítimas no município. Operação de resgate em escala máxima Com mais de 500 militares empregados nas buscas — entre eles 108 bombeiros só em Juiz de Fora e 28 em Ubá, segundo a Itatiaia —, as equipes enfrentam condições adversas de terreno e a instabilidade do solo saturado. Cães farejadores e o Batalhão de Emergências Ambientais e Resposta a Desastres reforçam a operação. A prefeita Margarida anunciou ainda o deslocamento de mais 150 bombeiros do estado para o município. Ainda nesta terça, a Defesa Civil determinou a evacuação preventiva de cerca de 600 famílias em bairros de Juiz de Fora com risco elevado: Três Moinhos, Vila Ideal, Esplanada e Paineiras. A medida foi motivada pela instabilidade do solo e pela previsão de novos temporais. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu aviso vermelho de acumulado de chuva para Minas Gerais, com previsão de até 100 milímetros por dia até sexta-feira (27). Uma nova frente fria deve avançar sobre a Zona da Mata até o final de fevereiro. Ajuda humanitária e alerta para golpes As primeiras carretas de ajuda humanitária chegaram a Juiz de Fora às 18h desta terça-feira. O vice-governador Simões informou que o governo estadual iniciou arrecadação de recursos pelo programa SOS Águas para as famílias que precisarão reconstruir suas vidas. A prefeitura de Juiz de Fora mantém pontos de coleta de doações — alimentos não perecíveis, água, roupas e itens de higiene — em locais como o Prédio Sede PJF (Av. Brasil, 2001). A administração municipal alertou que não está arrecadando dinheiro via Pix e pediu atenção para evitar golpes. As chuvas também afetaram o abastecimento de água em diversas regiões de Juiz de Fora, com captações paralisadas por falta de energia. Serviços de saúde como a farmácia municipal, o Centro de Especialidades Odontológicas e a Policlínica Regional estão temporariamente suspensos. O transporte público foi interrompido. O vice-governador encerrou seu pronunciamento com uma observação que extrapola o momento emergencial: “A gente tem de começar a tratar a questão da ocupação irregular de terrenos de uma forma diferente no Brasil”, disse Simões. A frase resume um debate que tragédias como esta recolocam em pauta — e que, em Ouro Preto, com suas 313 áreas de risco mapeadas, segue sem resposta definitiva.

Dona Salete recebe a casa reformada na sexta de Carnaval

Prefeitura anuncia entrega de moradia com “conforto, segurança e dignidade”; reforma foi realizada pela Associação SOL com recursos de emenda do vereador Kuruzu. Em vídeo divulgado nas redes da Prefeitura, o secretário municipal de Governo, Yuri Borges Assunção, anuncia a entrega da casa de Dona Salete após reforma e resume o dia com uma frase que desloca o foco do brilho para o básico: “É dia de festa, mas não tem alegria maior que devolver a casa da Dona Salete totalmente reformada”. Segundo o secretário, a obra foi realizada pela Associação SOL e viabilizada por emenda parlamentar do vereador Kuruzu, com o objetivo de devolver à moradora “conforto, segurança e dignidade”. Quem é a Associação SOL e como a parceria aparece em registros públicos A Associação Solidariedade Ouro Lar – SOL foi declarada de utilidade pública por lei municipal em 2025, com identificação de CNPJ e sede em Ouro Preto. No Diário Oficial do município, foi formalizado um termo de colaboração para requalificação de moradias por meio de pequenas melhorias e reformas voltadas a famílias em vulnerabilidade, “com o objetivo de apoiar o programa Um Teto é Tudo”. O mesmo documento aponta que o repasse previsto (R$ 407.368,00) seria proveniente de emenda parlamentar impositiva — incluindo do vereador Kuruzu. A entrega da casa de Dona Salete, portanto, se encaixa numa arquitetura de política pública que mistura execução via organização da sociedade civil, financiamento por emendas e coordenação municipal — modelo que, quando bem monitorado e transparente, pode acelerar reformas pequenas que mudam o destino de uma família. “Um Teto é Tudo”: do projeto técnico à casa possível A Prefeitura de Ouro Preto lançou o Um Teto é Tudo em 2022, com a proposta de oferecer serviços técnicos gratuitos (arquitetura, urbanismo e engenharia) a cidadãos de baixa renda — uma resposta prática a um problema que, em cidades históricas e acidentadas, costuma ser também estrutural: casa em risco, reforma adiada, vulnerabilidade crônica. Em outra frente, registros públicos apontam a existência de um eixo de requalificação de moradias com previsão de R$ 3 milhões, destinados a reformas estruturais e melhorias menores, com participação prevista da própria Associação SOL nas primeiras intervenções. O que essa entrega diz sobre a cidade, no meio da festa Ouro Preto é uma cidade em que o chão ensina: subir cansa, descer exige atenção. Em dias de Carnaval, a multidão aprende isso na pele — e, fora da folia, muita gente aprende dentro de casa, quando a moradia deixa de proteger como deveria. A entrega anunciada pelo secretário de Governo insere uma pausa importante no roteiro oficial da alegria: lembra que, por trás do calendário turístico, existe a vida cotidiana que não entra em cartaz. E que “dignidade” — palavra muito usada e nem sempre cumprida — às vezes começa no que não aparece na foto: parede firme, piso seguro, telhado que não falha na chuva.

Licitação para obra de R$ 34 milhões no Morro da Forca sai após Carnaval, anuncia prefeito; recursos estavam parados desde 2012

Foto: Nízea Coelho Contenção definitiva da encosta que destruiu Casarão Baeta Neves em 2022 será feita por SEINFRA e DER com verba federal depositada por Dilma há 14 anos; projeto já foi aprovado pelo Ministério das Cidades e IPHAN A licitação para a obra de contenção definitiva do Morro da Forca, no centro de Ouro Preto, será realizada após o Carnaval de 2026. O anúncio foi feito pelo prefeito Angelo Oswaldo em vídeo publicado nesta semana, confirmando que o secretário estadual de Infraestrutura, Pedro Bruno, garantiu o início do certame de concorrência pública logo após a folia. A obra, orçada em R$ 34 milhões, será executada pela Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (SEINFRA) e pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER-MG) com recursos federais que estavam retidos na Caixa Econômica Federal desde 2012, quando foram depositados pela então presidente Dilma Rousseff para atender demandas de contenção de encostas em Ouro Preto. “Nós estamos muito felizes, são 34 milhões de reais à disposição dessa obra, graças aos 12 milhões depositados em 2012 pela presidente Dilma para atender demandas de Ouro Preto na área de proteção das encostas”, declarou Angelo Oswaldo. “E por isso nós temos condição agora, tanto tempo depois, depois da inércia de muitos governos que não fizeram nada com esse dinheiro que ficou na Caixa Econômica Federal, nós temos condição de recuperar o Morro da Forca e outra vez restabelecer a normalidade de circulação de pedestres e veículos no centro de Ouro Preto.” Três anos após tragédia que destruiu patrimônio histórico A contenção do Morro da Forca tornou-se urgente após o deslizamento de 13 de janeiro de 2022, quando a encosta desabou sobre o Casarão Baeta Neves — primeira construção neocolonial de Ouro Preto, erguida entre 1890 e 1906 — destruindo completamente o imóvel histórico. A UNESCO considerou a perda “uma perda para a humanidade”. Ninguém ficou ferido porque a Defesa Civil interditou a área minutos antes do desabamento, ao observar trincas no morro. Os imóveis já estavam interditados desde 2012, quando ocorreu um deslizamento de menores proporções. Em 7 de janeiro de 2023, um ano depois da tragédia, um novo princípio de deslizamento voltou a ameaçar a região, levando a Defesa Civil a interditar novamente o entorno. A área permaneceu com restrições de circulação por meses. Obras realizadas em etapas Desde 2022, as intervenções no Morro da Forca foram divididas em três etapas: 1ª etapa (2022): Retirada de material e escombros para liberação do trânsito 2ª etapa (2024): Sistema de drenagem pluvial no topo do morro, concluído em junho de 2024 com investimento de R$ 626.501,25 do Governo de Minas. A obra captou e escoou águas superficiais e de camadas internas do solo através de drenagens em formato de “espinha de peixe” e uma escada drenante que direciona as águas para a rede da Rua Pacífico Homem. 3ª etapa (2026): Contenção definitiva da encosta através de taludes (patamares), grampeamento do solo com tirantes de grande profundidade e construção de muro de contenção no pé da encosta. Será executada na face do maciço próxima à Praça Cesário Alvim (Praça da Estação). Projeto aprovado e recursos garantidos O projeto técnico para a contenção foi desenvolvido pela Prefeitura de Ouro Preto e aprovado pelo Ministério das Cidades, pelo Instituto do Fundo de Assistência à Moradia (IFAM), pela SEINFRA e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). “O projeto foi feito pela Prefeitura, entregue ao Ministério das Cidades, aprovado pelo IFAM e pelo Ministério das Cidades, com a participação da Secretaria de Infraestrutura do Estado, a SEINFRA, e do DER, que vão fazer a licitação”, detalhou o prefeito. Segundo Angelo Oswaldo, o valor total disponível (R$ 34 milhões) resulta da atualização dos R$ 12 milhões originalmente depositados em 2012, recursos que integravam o “PAC das Encostas” — programa federal para contenção de encostas em áreas de risco. Recursos parados por 14 anos A verba federal estava retida na Caixa Econômica Federal desde 2012, quando foi liberada pelo Governo Federal durante a gestão da presidente Dilma Rousseff especificamente para obras de contenção de encostas em Ouro Preto. O prefeito criticou a “inércia de muitos governos” que deixaram os recursos parados por mais de uma década. “Tanto tempo depois, depois da inércia de muitos governos que não fizeram nada com esse dinheiro que ficou na Caixa Econômica Federal, nós temos condição de recuperar o Morro da Forca”, afirmou. Em seu discurso de 21 de abril de 2023, Angelo já havia mencionado o problema: “A incúria de gestões do município retardou sua aplicação e a burocracia do estado faz com que tais verbas se desvalorizem e se tornem insuficientes, quando já poderiam ser investidas, pelo menos desde 2021, na proteção dessa encosta.” Risco conhecido há mais de uma década Um estudo realizado em 2016 pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) já apontava que a área do Morro da Forca era de alto risco para deslizamentos. O documento, assinado pelos geólogos Júlio César Lana e Larissa Montandon, mostrava os dois prédios destruídos em 2022 na rota de um possível deslizamento. O professor de engenharia geológica da UFOP, Mateus Oliveira Xavier, afirmou à época que o problema já era conhecido desde 2012, quando os casarões foram interditados, e que medidas como a construção de um muro de contenção poderiam ter sido tomadas. O estudo chegou a ser feito, mas não saiu do papel. Resgate do patrimônio destruído Após a destruição do Casarão Baeta Neves, a Prefeitura realizou trabalho de resgate arqueológico dos elementos artísticos e construtivos do imóvel. Segundo a então secretária de Cultura e Turismo, Margareth Monteiro, aproximadamente 80% dos materiais de valor foram recuperados, incluindo forros, ladrilhos hidráulicos, peças de cantaria, balaústres e outros elementos. Os objetos resgatados — que incluem pisos em marchetaria e ladrilho hidráulico característico do século XIX, além de teto de madeira feito à mão — foram higienizados e devidamente acondicionados. A Prefeitura planeja realizar uma exposição itinerante para contar a história do Casarão Baeta Neves. Monitoramento contínuo Até a execução da obra de contenção definitiva,

Antônio Pereira, Rodrigo Silva, Bocaina, Santo Antônio do Salto e Mota terão instalação obrigatória de hidrômetros até 17 de março

Recomendação do MP cita resistência organizada e ameaças a trabalhadores; Prefeitura mobilizará Guarda Municipal sob coordenação da PM para garantir segurança das equipes, enquanto vereadores cobram transparência sobre contrato Cinco distritos e localidades de Ouro Preto terão instalação obrigatória de hidrômetros até 17 de março de 2026. O prazo de 120 dias foi estabelecido pelo Ministério Público de Minas Gerais na Recomendação nº 03/2025, assinada em 17 de novembro pelo promotor de Justiça Emmanuel Levenhagen Pelegrini, após constatar “impedimentos graves” com “resistência organizada, hostilidade e risco à integridade física dos trabalhadores” nas localidades de Antônio Pereira, Rodrigo Silva, Bocaina, Santo Antônio do Salto e Mota. A Prefeitura de Ouro Preto confirmou em Nota Técnica divulgada em 11 de fevereiro que prestará “apoio institucional e operacional” à Saneouro, incluindo coordenação da Guarda Civil Municipal “com o objetivo estrito de garantir a segurança dos agentes envolvidos na operação”, sob coordenação da Polícia Militar do Estado. A Saneouro confirmou ao Vintém que a instalação é gratuita e que realizará reunião pública com moradores antes de retomar os trabalhos, mas ainda sem data agendada. Vereadores, porém, cobram respostas sobre pedidos de informação ao Legislativo e criticam falta de transparência sobre contrato, aditivos e “plano de ação”. MP cita barreiras físicas e ameaças diretas A Recomendação nº 03/2025 integra Procedimento Administrativo de Acompanhamento de Políticas Públicas instaurado para fiscalizar a execução do contrato de saneamento no município. O documento registra que, conforme reunião realizada em 23 de julho de 2025, “a concessionária vem enfrentando impedimentos graves nos distritos e localidades de Antônio Pereira, Rodrigo Silva, Bocaina, Santo Antônio do Salto e Mota, incluindo resistência organizada, hostilidade e risco à integridade física dos trabalhadores, inviabilizando a continuidade da instalação de hidrômetros”. Em resposta ao MP, a Saneouro relatou que “trabalhadores vêm sendo bloqueados por barreiras físicas, aglomerações e ameaças diretas, comprometendo a padronização das redes e a instalação dos hidrômetros”. O promotor destaca ainda que a concessionária, “embora formalmente adimplente com as metas contratuais, não tem conseguido avançar materialmente em razão dos impedimentos relatados, apesar das campanhas educativas, comunicados à imprensa e reuniões comunitárias realizadas”. Prefeitura: não cabe mediar conflito sobre obrigação contratual Na Nota Técnica, a Prefeitura delimita seu papel como poder concedente: “Não se insere no escopo de atuação do Poder Concedente a função de mediação de conflitos comunitários que tenham por objeto a resistência ao cumprimento de obrigações legais e contratuais expressas, como é o caso da instalação de equipamentos de medição.” O documento cita a Cláusula 25.1, alínea “l”, do Contrato de Concessão, que estabelece como dever do usuário “permitir a instalação de hidrômetro para aferição do consumo”. Para o Município, a relação é “de natureza pública e vinculada, na qual a concessionária tem o dever de prestar o serviço e realizar os investimentos, e os usuários possuem o dever correlato de permitir a instalação dos hidrômetros”. A Nota esclarece que “a atuação da Prefeitura foca-se na exigência do cumprimento das obrigações contratuais por ambas as partes, visando o interesse público difuso da universalização do saneamento e da justiça tarifária, e não na negociação política de cláusulas técnicas já licitadas e contratadas”. Sobre a fiscalização, a Prefeitura informa que mantém “vigilância constante e rigorosa” através da Secretaria Municipal Adjunta de Água e Esgoto (SAMAE), com análise de relatórios mensais e notificações frequentes à Saneouro sobre “desconformidades específicas na prestação dos serviços”, incluindo vazamentos, recomposição asfáltica e casos de desabastecimento. Guarda Municipal atuará sob coordenação da PM O apoio municipal à hidrometração incluirá “a coordenação da atuação da Guarda Civil Municipal”, segundo a Nota Técnica. O documento ressalta que “a atuação municipal ocorre sob a coordenação da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, a quem o Ministério Público também dirigiu recomendação para garantir a segurança ostensiva e resguardar a integridade física das equipes de trabalho e a ordem pública”. O objetivo declarado é “garantir a segurança dos agentes envolvidos na operação, assegurar o livre acesso às infraestruturas públicas de saneamento e garantir a ordem administrativa necessária para a execução dos serviços”. A recomendação do MP é clara ao estabelecer que cabe à Polícia Militar “garantir apoio e segurança às equipes da Saneouro nas fases iniciais da instalação dos hidrômetros, especialmente nas localidades com histórico de impedimentos, resguardando a integridade dos trabalhadores e a ordem pública”. Saneouro: cronograma será apresentado à população Em resposta ao Vintém, a Saneouro confirmou que “a instalação de hidrômetros em Antônio Pereira decorre de recomendação do Ministério Público” e informou que, “conforme acertado em reunião entre representantes da Saneouro, do Legislativo municipal e da comunidade de Antônio Pereira, em 04/02/2026, a Saneouro vai preparar o cronograma de instalação de hidrômetros para apresentação prévia à população”. Sobre a gratuidade, a empresa confirmou: “A instalação é gratuita, conforme comunicado pela Saneouro em 15 de janeiro de 2026.” Quanto à participação social, a resposta foi: “Sim, está prevista reunião com moradores antes da sequência à hidrometração e ainda não foi agendada.” A empresa não informou, porém, quantos imóveis serão contemplados, quais áreas receberão os equipamentos primeiro, nem se há condições técnicas prévias exigidas dos moradores (como adequação interna ou caixa padrão). Vereadores cobram transparência sobre contrato O vereador Wanderley Kuruzu divulgou que o promotor Emmanuel Levenhagen determinou, em reunião no MP, que “a empresa vai ter que responder a todos os pedidos de informação de vereadores isolados, bem como da Câmara como um todo”. Questionada pelo Vintém sobre quantos pedidos formais recebeu de vereadores em 2025-2026 e quantos foram respondidos, a Saneouro não apresentou números. A resposta: “A Saneouro preza pela transparência e o bom relacionamento tanto com a comunidade quanto com órgãos públicos, buscando sempre atender e responder as demandas recebidas.” Sobre o prazo padrão para resposta a ofícios do Legislativo municipal, a empresa repetiu a mesma frase genérica: “A Saneouro busca sempre atender e responder as demandas recebidas.” Kuruzu também anunciou que a promotora Thalita Coelho, responsável pelo patrimônio público, receberá vereadores “para conversarmos sobre o contrato, o tal aditivo do contrato e o misterioso plano de ação

Cartografia: conheça a importância das mulheres na elaboração de mapas ao longo da história

Gladys West desenvolveu os modelos matemáticos por trás dos sistemas de GPS: embora as contribuições técnicas das mulheres abranjam toda a história da cartografia, elas são difíceis de identificar e documentar. U.S. Navy/Wikimedia Commons Melinda Laituri, Colorado State University Embora as mulheres sempre tenham feito parte do panorama cartográfico, suas contribuições para a cartografia foram negligenciadas por muito tempo. A elaboração de mapas tem sido tradicionalmente associada aos homens, desde a projeção do mundo de Mercator no século XVI até agrimensores como George Washington e Thomas Jefferson, que mapeavam propriedades no século XVIII, e o desenvolvimento de sistemas de informação geográfica por Roger Tomlinson na década de 1960. A cartografia e os campos relacionados às tecnologias geoespaciais continuam sendo dominados pelos homens. Mas, como geógrafa e especialista em sistemas de informação geográfica, tenho observado como as oportunidades para as mulheres como cartógrafas mudaram nas últimas cinco décadas. O advento de tecnologias como os sistemas de informação geográfica aumentou as oportunidades de educação, emprego e pesquisa para as mulheres, tornando a cartografia mais acessível. A paisagem feminina As mulheres têm sido essenciais para a forma como as pessoas veem e compreendem o mundo. O conceito da “Mãe Terra” ou da “Mãe Natureza” como o centro do Universo e fonte de toda a vida está presente em culturas indígenas de todo o mundo. No século XX, a comunidade científica e os ativistas ambientais adotaram o termo Gaia — a deusa grega que personifica a Terra, mãe de todas as divindades — para refletir a noção da Terra como um sistema vivo. Gaia é representada como feminina e entendida como uma força orientadora na manutenção da atmosfera, dos oceanos e do clima. A representação da Terra como mulher foi reformulada com o surgimento do nacionalismo, quando os termos “pátria” e “terra natal” adquiriram significados distintos. Pátria implicava herança e tradição, enquanto terra natal sugere local de nascimento e senso de pertencimento. Essas construções de gênero aparecem em todas as culturas. Europa Regina (1570). Sebastian Münster/Wikimedia Commons Outro aspecto da natureza de gênero da cartografia é a maneira como os mapas usavam formas femininas para retratar características. Mapas antropomórficos do século XVI ao XIX demonstram como os cartógrafos usavam figuras femininas para retratar países europeus. Por exemplo, o mapa “Europa Regina” do cartógrafo Johannes Putsch, originalmente desenhado em 1537, estabeleceu o modelo para mapas posteriores nos quais as nações são representadas como mulheres em várias poses e diferentes estados de vestimenta — ou sem vestimenta —, embora não correspondam exatamente às formas reais dos relevos. Esses mapas refletem as mudanças nos significados culturais e políticos associados ao território e ao poder. A paisagem feminina, ou a mulher como mapa, é frequentemente usada para retratar países como ativos, agressivos ou passivos, dependendo do status do Estado-nação em relação à guerra e à paz e dos estereótipos de um país. Tecnologia e o papel das mulheres na cartografia Embora as contribuições técnicas das mulheres abranjam toda a história da cartografia, elas são difíceis de identificar e documentar. Mas um olhar mais atento revela a variedade de papéis que as mulheres desempenharam na cartografia. Um dos primeiros exemplos conhecidos de um mapa feito por uma mulher data do século IV, quando a irmã do primeiro-ministro da dinastia Han na China bordou um mapa em seda. Durante os séculos XV e XVI, as mulheres eram contratadas para colorir mapas e contribuir com detalhes artísticos nas bordas. Muitas cartógrafas usavam apenas a inicial do primeiro nome e o sobrenome, ocultando seu gênero e tornando seu trabalho difícil de rastrear. O século XVIII trouxe o advento da impressão, o que abriu novos caminhos para as mulheres participarem como gravadoras de placas de cobre, editoras de mapas e fabricantes de globos. No século XIX, a cartografia tornou-se parte da educação formal para mulheres na América do Norte, onde a interseção entre bordado e geografia produziu globos de tecido e mapas de linho. Mais tarde, com o acesso a papel e lápis, seguiu-se o desenho e a coloração de mapas. A Segunda Guerra Mundial deu início a uma nova era de oportunidades para as mulheres nos Estados Unidos, pois elas foram recrutadas para preencher funções críticas no desenvolvimento cartográfico enquanto os homens eram enviados para a batalha. Conhecidas como “Millie, a cartógrafa”, ou as “donzelas do mapeamento militar”, mulheres produziam mapas topográficos, interpretavam fotografias aéreas e ajudavam a avançar a fotogrametria, o uso de fotos para criar modelos 3D da topografia da Terra. As ‘donzelas do mapeamento militar’ criaram dezenas de milhares de mapas durante a Segunda Guerra Mundial. Alfred T Palmer/Escritório de Informação de Guerra via Biblioteca do Congresso Com base no papel cada vez mais importante das mulheres na cartografia, na década de 1950, Evelyn Pruitt, do Escritório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos, criou o termo sensoriamento remoto, referindo-se ao uso de imagens de satélite para observar, medir e mapear a Terra. No mesmo período, a matemática Gladys West desenvolveu os modelos matemáticos para sistemas de posicionamento global, conhecidos como GPS. Mulheres criando mapas As mulheres também supervisionaram a criação de mapas de várias maneiras. As sociedades matriarcais indígenas expressavam informações espaciais por meio de diferentes formas de cartografia. Isso inclui canções, danças e rituais que identificavam recursos comunitários importantes, como nascentes, bosques sagrados e rotas de migração. O desenvolvimento da cartografia europeia foi impulsionado pela Era dos Descobrimentos, do século XV ao XVII, e pelas atividades empreendedoras associadas à reprodução e venda de mapas. As mulheres frequentemente assumiam essas funções após a morte de seus maridos, garantindo a continuidade dos negócios familiares. Não apenas os reis, mas também as rainhas determinavam quais mapas eram necessários. Por exemplo, a Rainha Elizabeth I encomendou o Atlas da Inglaterra e do País de Gales de 1579, um dos primeiros atlas nacionais. Ele apresentava um mapa de todo o país, acessível de casa ou de uma sala de leitura. Mulheres definindo a direção dos mapas Enquanto os primeiros mapas posicionavam as mulheres principalmente como figuras simbólicas para projetar significado político ou

Ouro Preto planta 30 mil pés de café e aposta em nova vocação econômica além do minério

Município historicamente ligado ao ouro investe em cafeicultura especial com apoio de associação regional, governos e mineradora; distritos como Rodrigo Silva, São Bartolomeu e Glaura lideram produção Ouro Preto plantou 30 mil novos pés de café e aposta na consolidação de uma atividade econômica que, até pouco tempo, seria difícil associar à cidade histórica. O anúncio foi feito nesta sexta-feira, 7 de fevereiro, pelo prefeito Angelo Oswaldo, em vídeo publicado nas redes sociais oficiais do município. “Ouro Preto tem café e vai ter mais ainda. Uma associação de produtores de cafés especiais acaba de ser criada na região dos Inconfidentes. Com a nossa região, nós vamos ter uma produção bastante significativa”, declarou o prefeito, ao lado do secretário municipal de Agropecuária, Sebastião Evasio. A cafeicultura é recente em Ouro Preto. Municípios vizinhos como Itabirito já têm tradição no cultivo, mas em Ouro Preto — historicamente associado ao ciclo do ouro e à mineração — o café começa a ganhar espaço como alternativa econômica para produtores rurais. Os distritos de Rodrigo Silva, Piedade, Moreira, Maciel, São Bartolomeu, Engenho D’Água e Glaura concentram a produção. Apoio institucional em três frentes O prefeito Angelo Oswaldo anunciou apoio articulado de três secretarias municipais para fortalecer a cadeia do café: Agropecuária (Sebastião Evasio), Desenvolvimento Econômico (Felipe Guerra) e Cultura e Turismo (Flávio Pimenta). “Garantimos pela Secretaria de Agropecuária, pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, pela Secretaria de Cultura e Turismo, todo o apoio à Associação de Produtores de Cafés Especiais. Vamos estar juntos dando esse apoio para essa nova marca de cafés especiais surgir em breve”, afirmou o prefeito. A estratégia une três dimensões: técnica (manejo, cultivares, tratos culturais), econômica (estruturação de marca regional, comercialização) e turística (cafés especiais como produto de identidade local, agregando valor ao turismo). Articulação começou em 2025 O marco público da cafeicultura em Ouro Preto foi o 1º Dia de Campo do Café Especial Sustentável dos Inconfidentes, realizado em 19 de julho de 2025, na Fazenda Vale do Caixeta, distrito de Rodrigo Silva. O evento reuniu cerca de 50 produtores rurais e foi promovido pelas prefeituras de Ouro Preto e Itabirito, pela Fazenda Vale do Caixeta, pelo Sistema Faemg/Senar e pela Sociedade de Produtores Rurais de Itabirito e Ouro Preto (SPR), com apoio da Vale e do programa PRA Produzir Sustentável. Na ocasião, o secretário Sebastião Bonifácio falou em reconhecimento do município por café “com qualidade” e “responsabilidade ambiental”. O proprietário da Fazenda Vale do Caixeta, Guilherme Pedrosa, destacou a mudança em curso: “É estranho associar Ouro Preto, que sempre foi minério, ao café. Mas isso está mudando.” O produtor Ricardo César defendeu a união: “Precisamos unir os produtores da região para consolidar a atividade.” APCEI: a associação que nasce com o café A Associação de Produtores de Cafés Especiais dos Inconfidentes (APCEI) surge como desdobramento dessa articulação. Fundada em novembro de 2025, a associação se apresenta publicamente como organização voltada para fortalecer e difundir o cultivo de cafés especiais na região dos Inconfidentes. Próximos passos: marca regional e mercado O plantio de 30 mil pés é parte de uma estratégia maior: consolidar Ouro Preto como produtor de cafés especiais e criar marca regional que agregue valor ao produto. “O pessoal está animado e nós queremos estar juntos também, dando esse apoio. Em breve, [Ouro Preto] vai ter várias marcas de café da região dos Inconfidentes”, prometeu o prefeito Angelo Oswaldo. A aposta é que o café, produto tradicionalmente mineiro mas até agora pouco presente em Ouro Preto, se some ao ouro, ao barroco e ao turismo como elemento de identidade econômica — uma vocação nova para uma das cidades mais antigas do Brasil.

Ouro Preto inicia Semana de Desenvolvimento Econômico com Fórum Regional de Diversificação

Ouro Preto dá início, nesta quarta-feira (29), à Semana de Desenvolvimento Econômico, marcada pela realização do Fórum Regional de Diversificação Econômica (FRDE). O evento acontece nos dias 29 e 30 de janeiro, no Centro de Artes e Convenções da UFOP, e propõe um amplo espaço de diálogo, construção coletiva e definição de estratégias voltadas ao desenvolvimento sustentável do município e da região. Desde 2021, Ouro Preto vem apresentando avanços expressivos no campo econômico. De acordo com dados oficiais, o município registrou a criação de mais de 7 mil novos postos de trabalho, saltando de 15 mil para 22 mil empregos formais. O crescimento é atribuído a uma política consistente de diversificação econômica, aliada a ações de planejamento, governança e incentivo a novos setores produtivos. O Fórum Regional de Diversificação Econômica surge como um instrumento para consolidar esse movimento, reunindo representantes do poder público, setor produtivo, universidades, entidades de classe e sociedade civil. A proposta é discutir caminhos que reduzam a dependência econômica histórica, ampliem oportunidades e fortaleçam atividades sustentáveis, inovadoras e compatíveis com o patrimônio cultural e ambiental da cidade. O FRDE Ouro Preto é uma realização da Prefeitura Municipal de Ouro Preto e da Agência de Desenvolvimento Econômico e Social de Ouro Preto (ADOP), com projeto do Instituto Fórum. A programação inclui debates, painéis e apresentações que abordam temas como inovação, empreendedorismo, economia criativa, turismo, indústria, mineração responsável e desenvolvimento regional. A expectativa é que o fórum contribua para a formulação de políticas públicas e ações integradas que garantam crescimento econômico com geração de emprego, renda e qualidade de vida para a população.

Acesso à moradia tem cor: estudo revela que 70% das famílias removidas em Ouro Preto são negras

Análise da assistente social Sabrina Costa sobre política habitacional municipal expõe desigualdade racial estrutural no acesso à moradia digna. Enquanto famílias pretas e pardas são majoritárias em remoções, demandas de melhorias concentram-se entre autodeclarados brancos Segundo o estudo que ainda será publicado ainda este mês como artigo pela revista Alemur da UFOP, quando uma família ouro-pretana precisa de Auxílio Moradia ou Regularização Fundiária — serviços geralmente associados a situações de risco, remoção ou ocupação irregular —, há mais de 70% de chance de que essa família seja preta ou parda. Mas quando a demanda é por melhoria habitacional, reforma ou adequação do imóvel onde já vive, a maior parte das famílias que procura o poder público se autodeclara branca. Os dados são do estudo “Acesso à moradia tem cor?: análise da política de habitação de interesse social de Ouro Preto, Minas Gerais”, desenvolvido pela assistente social Sabrina Costa a partir de sua atuação na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação entre 2022 e 2023. A análise, que será publicada na revista acadêmica Alemur, cruzou informações do Programa “Um Teto é Tudo” — política habitacional municipal instituída pela Lei 1.328/2023 — com o marcador social de raça/cor das famílias atendidas. O resultado é uma radiografia clara e incômoda: o racismo estrutural e ambiental determina quem tem direito à permanência no território e quem é empurrado para a precariedade habitacional. Os números que expõem a desigualdade Entre 2022 e 2023, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação atendeu famílias em três frentes principais: Auxílio Moradia (quando há necessidade de remoção temporária ou permanente), Regularização Fundiária de Interesse Social (para famílias em ocupações irregulares) e Arquitetura Pública/Requalificação (melhorias nos imóveis).O padrão identificado por Sabrina Costa é consistente: nas ações que envolvem evasão do imóvel ou do território — justamente as situações mais vulneráveis —, mais de 70% das famílias atendidas se autodeclaram pretas ou pardas. A maior parte desses encaminhamentos vem da Assistência Social ou da Defesa Civil, o que indica situações de emergência, risco geológico ou vulnerabilidade extrema. Já nas ações de melhoria habitacional, onde as famílias permanecem em seus imóveis e buscam adequações estruturais, a maioria se autodeclara branca. Essas demandas, em geral, são espontâneas — a família procura o serviço por iniciativa própria, não por encaminhamento emergencial. “As famílias representadas apresentam semelhanças marcantes nas condições de moradia, que são caracterizadas por imóveis em situações precárias de habitabilidade, localizados em áreas de risco geológico elevado, com baixo padrão construtivo”, escreve a autora. “Além das dimensões socioeconômicas, observa-se que essas famílias são em sua maioria negras, nos levando a refletir sobre a persistência de um padrão estrutural de desigualdade racial.” O contexto: Ouro Preto é 70% negra O recorte fica ainda mais evidente quando se olha para o perfil demográfico do município. Segundo o IBGE (2022), cerca de 70% da população de Ouro Preto se autodeclara negra (preta ou parda). Ou seja: a maioria da cidade é negra, mas é justamente essa maioria que ocupa as áreas de maior risco, vive em condições precárias e depende de políticas emergenciais para garantir moradia. Ouro Preto tem 74.821 habitantes, dos quais apenas 77,37% dos domicílios possuem esgotamento sanitário adequado. Quando se observa a urbanização das vias públicas — presença de bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio —, o índice cai para 30,6%. Na comparação estadual, o município fica na posição 325 de 853 nesse quesito. Esses números ganham nome, rosto e endereço quando cruzados com raça: são as famílias negras que vivem nas encostas íngremes, nos morros sem infraestrutura, nas áreas geologicamente instáveis mapeadas pelo Plano Municipal de Redução de Riscos. Da abolição sem terra à periferia sem dignidade O estudo de Sabrina Costa não trata a desigualdade habitacional como um fenômeno recente. Pelo contrário: reconstrói a trajetória histórica que levou a população negra a ocupar, de forma sistemática, os piores espaços das cidades brasileiras.A análise parte de três marcos legislativos do século XIX: a Lei Eusébio de Queirós (1850), que proibiu o tráfico negreiro sob pressão inglesa — não por humanismo, mas por interesses econômicos; a Lei de Terras (1850), que mercantilizou o acesso à terra justamente quando a abolição se aproximava, criando barreiras econômicas para que ex-escravizados se tornassem proprietários; e a Lei Áurea (1888), que concedeu liberdade formal mas nenhuma reparação material. “Sem a realização de uma reforma agrária, uma parcela significativa de pessoas negras se encontravam ‘livres’ e sem propriedade de terras, encontrando assim, como única possibilidade de moradia, a ocupação irregular e descoordenada, nos altos de morros, beiras de rios”, escreve a autora. Naquele momento, destaca o estudo, a questão da habitação não existia como problema público. Mas se estabelecia ali a base do déficit habitacional brasileiro — e a associação entre negritude, precariedade e periferia que persiste até hoje. Racismo ambiental e injustiça socioambiental O conceito de racismo ambiental atravessa toda a análise. Não se trata apenas de má distribuição de infraestrutura urbana. Trata-se de um processo estrutural onde determinados grupos — racial e economicamente marcados — são sistematicamente expostos a riscos ambientais, desastres e perda de seus modos de vida. Em Ouro Preto, isso se manifesta de forma clara: são as famílias negras que vivem nas áreas mapeadas como de risco alto e muito alto pelo PMRR. São elas que sofrem com deslizamentos, enchentes, falta de saneamento. São elas que, quando removidas, dependem de Auxílio Moradia para sobreviver — um benefício temporário que não garante solução habitacional definitiva. “Quando as devastações que atacam o meio ambiente geram efeitos desiguais e esses sobrecarregam de maneira desproporcional determinados grupos, estamos lidando com a injustiça socioambiental, que é conceito fundamental para discutirmos o Racismo Ambiental”, afirma Sabrina Costa. A dificuldade de se reconhecer negro Um dado adicional chamou a atenção da pesquisadora: muitas pessoas demonstraram dúvida ao serem questionadas sobre como se veem racialmente. A dificuldade de identificação foi observada tanto entre pretos e pardos quanto entre amarelos e indígenas. “É possível considerar essa dificuldade de pertencimento ao processo histórico de racismo estrutural e ambiental, considerando aqui a invisibilização

Chapado fecha o Carnaval universitário de Ouro Preto com Luísa Sonza, MC Pedrinho e Orochi

Bloco acontece na terça, 17 de fevereiro de 2026, e aposta em line-up pop + trap + funk — com MU540 e DJ Zullu — para entregar o “último dia” com gosto de quero mais. O último dia do Carnaval costuma ter um tempero próprio em Ouro Preto: é quando a cidade parece correr contra o relógio, como se cada abraço precisasse caber no calendário. É nesse lugar — entre a exaustão e a vontade de ficar — que o Bloco Chapado construiu sua assinatura: encerrar a folia com cara de grande show. Em 2026, o evento está marcado para terça-feira, 17 de fevereiro, com atrações já divulgadas como Luísa Sonza, MC Pedrinho, Orochi, MU540 e DJ Zullu. Diretor do bloco, Diego Brenner resume a missão do dia final como um desafio de entrega: “O último dia tem que caprichar, porque depois daquele dia, só daqui 365 dias.” E completa, com a leitura de quem conhece o comportamento do folião: “O cara fala ‘não vou pular carnaval mais não, já tô cansado’… aí chega na terça-feira: ‘hoje é só ano que vem’.” Do “plano B” ao símbolo da terça-feira O Chapado surgiu em 2008, com a proposta de oferecer uma alternativa quando a terça-feira ainda tinha poucas atrações de grande porte na cidade — e, desde então, virou sinônimo do fechamento do Carnaval universitário. A lógica do line-up: atravessar públicos A escolha do time de 2026 reforça o que Brenner chama de “atravessar estilos” para segurar a pista do começo ao fim. De um lado, o pop de grande alcance; do outro, trap e funk com apelo de internet; e, fechando, eletrônico para “virar a chave” na reta final. A escala confirmada — Luísa Sonza, MC Pedrinho, Orochi, MU540 e DJ Zullu — aparece tanto nas divulgações oficiais do bloco quanto na cobertura local. Pista e camarote: tendência “premium” e bar de drinks No campo da experiência, o Chapado acompanha uma tendência que vem crescendo nos eventos de Carnaval: camarotes mais “premium”, com aposta em marcas de topo e bar de drinks. Na venda oficial, o camarote é descrito com open bar premium (incluindo marcas como Grey Goose e Ballena) e open food, além de um “bar de drinks”. Brenner também adiantou ao Vintém que a equipe vem calibrando diferenças entre pista e camarote, e que o público tem exigido mais qualidade no alto padrão: “O povo hoje em dia está exigindo isso (…) colocar um whisky bom, uma vodka boa, um gin bom.” Segundo ele, a pista tende a manter um desenho mais “tradicional”, por volume e desperdício.