Ouro Preto, sábado, abril 25, 2026 10:51

O que a neurociência já conseguiu explicar sobre a ação dos aromas no cérebro

Fernando Gomes, Universidade de São Paulo (USP) e Daiana Petry, Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul) Durante muito tempo, falar sobre aromaterapia no contexto científico soava quase como

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Jiljana Isidoro

Fernando Gomes, Universidade de São Paulo (USP) e Daiana Petry, Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul)

Durante muito tempo, falar sobre aromaterapia no contexto científico soava quase como uma contradição. Os aromas eram associados a bem-estar subjetivo, tradição ancestral ou experiências sensoriais difíceis de medir. Porém, um conjunto de revisões e estudos experimentais vem mostrando que certos óleos essenciais podem modular respostas reais do organismo — com resultados que vão desde a redução de estresse e ansiedade, acompanhada de mudanças em marcadores como frequência cardíaca e pressão arterial, até alterações mensuráveis na atividade cerebral associadas a estados de relaxamento vigilante, atenção e flexibilidade cognitiva.

A resistência aos aromas não surgiu apenas da ausência de dados, mas de uma herança histórica. Desde o século XIX, o olfato foi considerado um sentido “menor” na hierarquia científica ocidental. A partir de interpretações anatômicas feitas pelo médico francês, anatomista e antropólogo Paul Broca (1824-1880), difundiu-se a ideia de que a evolução da racionalidade humana estaria associada à redução do sistema olfativo, como se o cheiro pertencesse ao domínio do instinto e não da cognição. Essa hipótese, hoje ultrapassada, contribuiu para que o olfato fosse marginalizado em áreas como a medicina, a psicologia e a neurociência por mais de um século.

Pesquisas contemporâneas têm demonstrado o oposto: o sistema olfativo humano é altamente sofisticado e profundamente integrado às redes cerebrais de emoção, memória, tomada de decisão e regulação fisiológica. A simples inalação de um aroma é capaz de interagir com estruturas como a amígdala, hipocampo, córtex orbitofrontal e ínsula, regiões centrais para o comportamento humano. Com isso, esse cenário está mudando de forma consistente. Hoje, a neurociência está começando a mapear como as moléculas aromáticas presentes nos óleos essenciais podem interagir com o sistema nervoso e influenciar estados emocionais e fisiológicos.

Do misticismo ao mecanismo

Uma revisão narrativa, publicada em 2025 e indexada no PubMed, intitulada “A Narrative Review of Aromatherapy: Mechanisms and Clinical Value in Physiological and Psychological Regulation”, sintetizou o que a literatura científica tem revelado até o momento sobre os mecanismos neurobiológicos envolvidos na aromaterapia. Trata-se de um marco importante porque desloca o debate do campo do “funciona ou não funciona” para uma pergunta mais profunda: quais sistemas cerebrais parecem ser modulados pelos aromas e por quais vias isso pode ocorrer?

Essa revisão permitiu aos autores organizar dados sobre os efeitos fisiológicos e psicológicos dos aromas e a base neurobiológica por trás deles. Ela também indica que pesquisas futuras devem aprofundar mecanismos de ação, biodisponibilidade dos compostos aromáticos e segurança a longo prazo, para estimar com mais precisão o potencial terapêutico da aromaterapia. O trabalho foi conduzido por um grupo de pesquisadores afiliados a instituições como Shenzhen Traditional Chinese Medicine Hospital e Southwest Medical University, na China.

O caminho direto do aroma ao cérebro

O olfato possui uma via privilegiada de acesso ao cérebro. Quando inalamos um aroma, as moléculas odoríferas ativam receptores no epitélio olfatório, que se conecta diretamente ao bulbo olfatório. A partir dali, a informação segue para estruturas do sistema límbico — como amígdala e hipocampo — regiões envolvidas em emoção, memória e motivação, sem passar previamente pelo tálamo, filtro de outros sentidos.

Essa característica anatômica explica por que os aromas têm capacidade de evocar emoções, memórias e estados fisiológicos de forma rápida e muitas vezes inconsciente. A revisão destaca que essa ativação límbica está associada à modulação de neurotransmissores centrais para a regulação emocional e cognitiva, como serotonina, dopamina, GABA e noradrenalina.

Além dessa rota neural direta, a inalação de óleos essenciais envolve também uma rota fisiológica complementar. Parte das moléculas aromáticas inaladas alcança os pulmões, onde pode atravessar o epitélio respiratório e entrar na circulação sistêmica. Isso significa que o efeito dos aromas não se restringe a uma experiência simbólica ou subjetiva. Há também um efeito observável no organismo, em que compostos voláteis podem alcançar tecidos e influenciar parâmetros fisiológicos. Essas duas vias, que chamamos de olfatória e respiratória, ajudam a compreender por que a aromaterapia desperta um crescente interesse científico.

Ansiedade, humor e regulação do sistema nervoso

Entre os achados mais consistentes revisados estão os efeitos ansiolíticos e moduladores do estresse de determinados óleos essenciais, especialmente aqueles ricos em monoterpenos e ésteres. O linalol, por exemplo, presente na lavanda, demonstra interação com receptores GABAérgicos, o que ajuda a entender a redução de excitabilidade neuronal e a sensação de calma relatada em diferentes estudos clínicos.

A revisão também aponta evidências de efeitos antidepressivos leves a moderados, associados à influência dos aromas sobre circuitos dopaminérgicos e serotoninérgicos. Importante ressaltar: não se trata de substituir tratamentos médicos, mas de compreender como estímulos olfativos podem atuar como moduladores do sistema nervoso autônomo e do eixo estresse–emoção, especialmente em contextos de ansiedade, fadiga mental e sobrecarga cognitiva.

Em um estudo clínico anterior com 140 participantes, a inalação do óleo essencial de lavanda a cada oito horas, durante quatro semanas, mostrou-se capaz de prevenir a depressão, a ansiedade e o estresse de mulheres no pós-parto, reduzindo de forma considerável os escores dos testes para essas condições. Os escores das escalas utilizadas permaneceram menores até três meses após o início da intervenção, em comparação ao grupo controle, sugerindo que a inalação da lavanda produziu efeitos sustentados ao longo do tempo.

Apesar desses resultados promissores, ainda não há consenso científico claro sobre por quanto tempo essas modulações neuroemocionais persistem após o término do estímulo aromático. Essa é uma lacuna relevante para pesquisas futuras, uma vez que muitos estudos concentram-se em efeitos imediatos ou de curto prazo, observados durante ou logo após a inalação ou aplicação tópica dos óleos essenciais.

Aromas e função cognitiva: o cérebro em tempo real

Um segundo eixo relevante dessa discussão emerge de estudos que conectam aromaterapia à neurofisiologia mensurável. O artigo, publicado no Journal of Medical Signals & Sensors, traz dados interessantes ao utilizar eletroencefalografia (EEG) para avaliar as alterações em padrões de ondas cerebrais (como theta, alpha e beta) associadas a atenção, relaxamento vigilante e à flexibilidade cognitiva após a inalação do óleo essencial de lavanda. É importante destacar, contudo, que esse estudo, assim como os demais aqui citados, foi conduzido com amostras pequenas de participantes, característica comum em pesquisas experimentais dessa natureza, o que exige cautela na generalização dos resultados.

Os resultados revelam mudanças significativas na atividade cerebral, especialmente o aumento das ondas theta, alpha e beta, padrões relacionados a estados de atenção, relaxamento vigilante e flexibilidade cognitiva. Em termos práticos, os participantes apresentaram melhor desempenho em tarefas cognitivas, sugerindo que o óleo essencial de lavanda pode facilitar a flexibilidade cognitiva em tarefas que exigem atenção sustentada e alternância de foco mental.

Em consonância com esses achados, um estudo anterior demonstrou que o óleo essencial de lavanda aumenta as ondas Theta e Alpha, além de diminuir a excitação autonômica, como a pressão arterial e a frequência cardíaca, evidenciando seus efeitos relaxantes através da inalação.

Em outro estudo-piloto com jovens saudáveis, a difusão ambiental do óleo essencial de lavanda durante o sono promoveu melhora tanto na percepção subjetiva da qualidade do sono quanto em parâmetros objetivos: observou-se redução da atividade alfa no estado de vigília e aumento das ondas delta durante o sono de ondas lentas. Esses resultados indicam que esse aroma pode atuar como uma intervenção terapêutica em potencial para distúrbios do sono.

Esses achados contribuem para superar a visão simplista de que os aromas “sedam” indiscriminadamente o sistema nervoso. Ao contrário, a neurociência evidencia que eles podem reorganizar de forma dinâmica os padrões de ativação cerebral, favorecendo estados mentais específicos de acordo com o contexto e com a natureza do estímulo olfativo. Novas pesquisas, com amostras mais amplas, são necessárias para consolidar essas evidências.

A literatura atual reconhece que aromas não curam doenças por si só, mas podem atuar como reguladores do sistema nervoso, influenciando humor, atenção, resposta ao estresse e percepção de bem-estar. Em um mundo marcado por hiperestimulação, ansiedade crônica e fadiga mental, compreender esses mecanismos deixa de ser um luxo acadêmico e passa a ser uma ferramenta relevante de saúde integrativa.The Conversation

Fernando Gomes, Professor Livre Docente de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP) e Daiana Petry, Neurocientista, aromaterapeuta e perfumista botânica, Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul)

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