Repúblicas de Ouro Preto vivem reforma sob acordo judicial em meio a relatos que viralizam

Dois meses depois de acordo prometer reformas, relatos sobre trotes e assédio voltam a viralizar
Foto de Jiljana Isidoro

Jiljana Isidoro

Em maio, a Justiça Federal homologou um acordo entre a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e o Ministério Público Federal (MPF) que prometia encerrar décadas de práticas questionadas dentro do sistema de repúblicas estudantis da cidade: fim das “batalhas” para conquistar uma vaga, proibição de critérios subjetivos de seleção e maior fiscalização institucional sobre as 64 casas federais que a universidade cede a estudantes. Em julho, dois meses depois, um vídeo publicado por uma ex-moradora de república federal relatando sua experiência de trote deu início a uma onda de novos relatos no TikTok — sobre trabalho doméstico forçado, coerção social, assédio e uso de drogas sem consentimento em festas —, reacendendo um debate que atravessa a história da cidade.

📍 Como tudo começou

A repercussão atual tem origem em um vídeo publicado no perfil @raynara.rmr, em resposta a um comentário de outra usuária, em que a autora relata sua experiência como ex-moradora de uma república federal cerca de dez anos atrás. No relato, que se tornou o ponto de partida da onda de depoimentos que se seguiu, ela descreve a rotina de trabalho doméstico imposta a calouras, a obrigatoriedade de comparecer a festas sob ameaça de expulsão e episódios de humilhação coletiva — a mesma origem dos trechos citados ao longo desta reportagem.

@raynara.rmr Respondendo a @Géssica ♬ som original – raynara 2.0

Ouro Preto é, proporcionalmente, a cidade com a maior concentração de repúblicas estudantis do Brasil. O fenômeno nasceu de uma necessidade concreta: quando a capital de Minas Gerais migrou para Belo Horizonte, no início do século 20, a então empobrecida Vila Rica sobreviveu, em parte, graças à ocupação de seus casarões coloniais por estudantes da Escola de Minas e da Escola de Farmácia — hoje incorporadas à UFOP. O reitor Luciano Campos da Silva, em entrevista ao Vintém, descreve essa história como “bonita, mas com toda a complexidade que existe”, e reconhece que a mesma vida estudantil responsável por preservar o patrimônio da cidade também carrega, ao longo de mais de um século, problemas que a sociedade não tolera mais.

O sistema por dentro

A UFOP mantém hoje 1.008 vagas de moradia estudantil apenas em Ouro Preto, distribuídas em três modelos distintos. Os apartamentos do campus e a Vila Universitária seguem critério socioeconômico, com seleção por edital da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (Prace). Já as repúblicas federais funcionam em regime de gestão compartilhada: os prédios são públicos, mas a manutenção, a organização interna e, até o momento, a seleção de novos moradores ficam a cargo dos próprios estudantes. É a única modalidade desse tipo no país, segundo a gestão da UFOP, e a que concentra a maior parte dos relatos que circulam desde julho.

A lógica por trás desse modelo, segundo o reitor, é também orçamentária: “a universidade não teria condições de arcar com os custos [de todas] as edificações históricas no centro de Ouro Preto”, disse, explicando que a contrapartida é os estudantes ocuparem os imóveis durante o período em que estudam e financiarem sua manutenção com recursos próprios — muitos deles arrecadados justamente por meio das festas que o novo acordo passa a limitar. A própria Federação das Repúblicas Federais de Ouro Preto (Refop), consultada por esta reportagem, afirma que essa gestão compartilhada é regida pela Resolução CUNI nº 1.540 e pelo regimento interno de cada casa — documentos que estabelecem como princípios formais a integridade, o zelo, a honestidade, o respeito e a responsabilidade na administração dos imóveis da União.

📊 Os números da moradia estudantil em Ouro Preto

1.008vagas de moradia estudantil no total
64repúblicas federais cedidas pela UFOP
862capacidade total das repúblicas federais
7-26moradores por casa, a depender do imóvel

Apenas uma república federal tem ocupação mista; todas as demais são exclusivamente masculinas ou femininas. Fora da rede federal, Ouro Preto ainda abriga um número não regulado de repúblicas particulares, sem fiscalização universitária — um mercado paralelo que cresce diante da escassez de vagas oficiais e do custo de vida elevado da cidade histórica.

O que as redes sociais trouxeram à tona

Os relatos que circularam no TikTok nas últimas semanas vieram de perfis públicos de ex-moradoras de repúblicas federais, sem contato direto com a reportagem. A autora do vídeo que deu origem à repercussão descreveu ter vivido, cerca de dez anos atrás, uma rotina de trabalho doméstico obrigatório imposta a calouras — acordar às 5h30 para buscar o pão e preparar o café da manhã de toda a casa — além de rituais de integração como decorar os nomes de dezenas de ex-moradoras para recitá-los quando elas visitassem a república. Ela relatou ter sido ameaçada de expulsão por não comparecer a uma festa — “se você não fosse, você não vai poder ficar” — e descreveu um episódio em que, ao ser incumbida de encontrar uma peça de roupa específica antes de um evento, acabou faltando a uma aula por não conseguir cumprir a tarefa a tempo. Ela também relatou ter presenciado, dentro da própria casa, um episódio que classificou como forma de “tortura psicológica” contra uma colega de república, e descreveu um episódio que ela mesma viveu com um vizinho, classificando a situação como assédio — e disse ter sido rotulada de “antipática” dentro da própria república por reagir a ela. Ao final do relato, conta ter deixado a república e trocado de curso, de Artes Cênicas para Letras.

Outro relato, de uma ex-moradora que se identifica como calourada de uma república federal, descreveu ter sido drogada em uma festa sem o próprio consentimento, com lapsos de memória e mal-estar severo. Contou também que um morador de outra república, com histórico de trânsito por diversas casas sem se fixar em nenhuma — um padrão de comportamento já conhecido por seus pares —, assediou fisicamente várias mulheres durante um evento; a resposta institucional dentro do próprio sistema republicano, segundo o relato, foi apenas proibir o rapaz de consumir álcool nas festas seguintes, sem qualquer expulsão.

@pernascurtinhas #republica #ouropreto #ufop #republicasdeouropreto #marianamg ♬ som original – Maju

Uma terceira voz que ganhou repercussão foi a de uma ex-moradora, hoje arquiteta formada, que também é autora de um trabalho de conclusão de curso sobre violência contra a mulher na UFOP, aprovado pela própria universidade em 2023. No vídeo em que apresenta parte do trabalho, ela explica ter usado técnicas de cartografia para mapear, dentro do campus, onde os relatos de violência coletados na pesquisa mais se concentravam — um processo que, segundo ela, gerou pesadelos ao longo da apuração. A conclusão do trabalho, resumida por ela mesma, é direta: o ambiente universitário onde mais ocorre violência é dentro das próprias repúblicas.

Ainda assim, ela se posiciona publicamente como defensora do sistema republicano. Relata ter tido duas experiências como moradora: a primeira, em uma república particular a partir de 2017, que descreve como ruim; a segunda, após deixar essa casa junto de outras colegas, fundando uma nova república baseada em amizade. Ela reconhece, em suas próprias palavras, que “o maior problema em Ouro Preto é o machismo estrutural dentro principalmente das repúblicas masculinas do centro” — mas também faz uma ressalva pública a outros relatos que circularam na mesma onda: critica quem, em suas palavras, “distorce” histórias ou compara a vivência republicana à escravidão, classificando esse tipo de comparação como desrespeitosa, inclusive por sua própria vivência religiosa de matriz africana.

@talitha_andradee #republicasouropreto #ouropreto #ufop ♬ som original – Talitha Andrade

💬 Vozes divididas: o que dizem os comentários

Sob os vídeos que viralizaram, a reação do público também se dividiu — entre quem confirma o padrão relatado e quem defende ter vivido, ou visto, uma realidade diferente.

relato grave Comentário de Sabrina Abrão sobre festa 'Social'
relato crítico Comentário do perfil Jész sobre hierarquia e assédio em festas
resposta institucional Resposta oficial da República Fruto Proibido
melhora geracional Comentário do perfil borgesjhonatan sobre mudança geracional
ambivalência Comentário do perfil helaya11 sobre o dilema de morar em república

O que os números da própria universidade mostram

A pesquisa acadêmica citada acima, conduzida em julho de 2023 com 77 respondentes entre estudantes e docentes mulheres da UFOP, aponta que 74% já sofreram ou conhecem alguém que sofreu algum tipo de violência no ambiente acadêmico. Do total que relatou ter sofrido violência, 70,3% afirmou não ter recebido nenhum tipo de acolhimento institucional depois. Quase metade das respondentes — 44,2% — disse não conhecer nenhum mecanismo de apoio da universidade para esses casos. No levantamento sobre locais que mais geram medo, o campus Morro do Cruzeiro apareceu em primeiro lugar, por falta de iluminação; as repúblicas masculinas vieram logo atrás, em segundo.

Procurada pelo Vintém, a UFOP esclareceu que esses dados são anteriores à atual gestão e que um levantamento atualizado, com números de 2024 a 2026, ainda está em produção — a universidade pediu prazo de ao menos duas semanas para consolidar essas informações, assim como dados sobre processos disciplinares dos últimos três anos. A reportagem também apurou que a “Ouvidoria Feminina” citada na pesquisa não é um órgão oficial da instituição, mas um projeto de extensão do Núcleo de Direitos Humanos da UFOP, batizado de Ouvidoria Feminina Athenas, voltado ao acolhimento, à assessoria jurídica e ao atendimento psicológico de vítimas de violência.

Os casos que já chegaram à Justiça

Antes da onda de vídeos recente, ao menos dois episódios envolvendo repúblicas federais de Ouro Preto já haviam passado por apuração jornalística e institucional. Em 2022, um calouro de Engenharia entrou em coma e passou 16 dias internado — oito deles em UTI — após ser submetido, durante uma festa de aprovação em uma república federal, a uma sequência de ingestão forçada de álcool, condimentos picantes e um banho gelado com pó de café. Médicos relataram a possibilidade de abuso sexual, sem confirmação por exame. O caso foi levado à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Ouro Preto; a república envolvida negou a versão da família, e a UFOP declarou, à época, ter aberto processo disciplinar.

Já em 2023, uma estudante foi vítima de estupro em uma república federal, após ter permanecido na casa por estar alcoolizada; o agressor era um visitante hospedado, morador de uma república de outra cidade da região. O caso só ganhou ampla repercussão em 2025, quando foi apurado com profundidade pela Agência Primaz, que ouviu a vítima, as duas repúblicas envolvidas, a Polícia Civil e a universidade. Passados quase dois anos da denúncia original, o processo administrativo seguia sem conclusão. Questionado pelo Vintém sobre o andamento atual desse e de outros processos disciplinares, o reitor Luciano Campos da Silva mencionou o caso espontaneamente, reconhecendo que se tratava de um episódio de 2023 “que só foi denunciado agora” — mas a universidade não apresentou, até o fechamento desta reportagem, um balanço público sobre a conclusão do processo, informando que esse levantamento também está em andamento.

O acordo que devia mudar tudo

Foi justamente para tentar resolver esse tipo de impasse institucional que a Justiça Federal homologou, em maio de 2026, um acordo entre a UFOP e o Ministério Público Federal — encerrando uma ação civil pública aberta em 2019. O texto proíbe expressamente critérios subjetivos de seleção de moradores, como participação em festas ou afinidade pessoal com veteranas, e veda qualquer prática que fira a dignidade humana durante o período de adaptação dos calouros, incluindo as chamadas “batalhas”. O acordo também limita a cinco o número de festas remuneradas por ano em cada república e determina que a UFOP passe a fiscalizar de forma mais ativa a rede de imóveis históricos.

Segundo o reitor, o novo modelo de seleção de moradores — que tira das próprias repúblicas o poder de decidir, sozinhas, quem entra ou fica de fora — está em fase de construção junto com as casas federais, e vai incluir, pela primeira vez, o direito de recurso para candidatos não selecionados. A universidade também esclareceu que, embora não exista ainda um “setor de fiscalização” independente, a recém-criada Coordenadoria de Moradias Estudantis já responde pela gestão e pelo diálogo institucional com as repúblicas, hoje com uma servidora à frente, com expectativa de reforço na equipe nos próximos meses. Parte desse reforço, segundo o reitor, deve incluir visitas às casas — inclusive de surpresa. Desde a homologação do acordo, segundo a universidade, nenhuma denúncia formal de trote degradante ou “batalha” foi registrada na Ouvidoria — um dado que a gestão lê como reflexo inicial da reestruturação em curso.

O reitor destacou ainda que o próprio Ministério Público reconheceu, durante a negociação, que o modelo de moradia compartilhada de Ouro Preto é uma singularidade que vale preservar, não extinguir. “O Ministério Público e a Justiça entenderam que nós temos aqui uma singularidade que faz parte da história do país, parte da história da universidade, parte da história de Ouro Preto, que não precisava ser destruída, mas que precisava ter uma normatização.”

⚖️ O que o acordo pretende resolver

Cada mudança prevista no acordo dialoga diretamente com práticas descritas nos relatos que circularam nas redes sociais:

O que o acordo pretende resolverRelato correspondente
Fim de critérios subjetivos de seleção, como participação em festasExigência de comparecer a festas sob ameaça de expulsão
Fim de “batalhas” e trotes degradantesTrabalho doméstico obrigatório e humilhação coletiva
Vedação a qualquer conduta que fira a dignidade humanaAssédio em festas e uso de drogas sem consentimento

O que diz a Refop

Procurada pelo Vintém, a Federação das Repúblicas Federais de Ouro Preto (Refop) se posicionou por meio de nota oficial, reproduzida na íntegra abaixo. A reportagem ressalva que a caracterização de parte dos relatos como “boatos” e “informações inverídicas”, feita pela entidade sem especificar quais, não se aplica aos casos já apurados por outros veículos e por instâncias formais, como os episódios da República Sinagoga (2022) e da República Bangalô (2023), tratados em capítulo específico desta matéria.

📣 Nota da Refop na íntegra

“Nas últimas semanas, nós, membros da Refop, acompanhamos a repercussão nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter) e no TikTok, sobre o sistema de repúblicas federais e os diversos boatos que têm circulado, muitos deles apresentando informações inverídicas sobre a realidade do nosso sistema.

Como em qualquer ambiente que reúne um grande fluxo de pessoas e onde há convivência constante, infelizmente podem ocorrer situações que desrespeitam os princípios da boa convivência e do respeito ao próximo, incluindo casos de misoginia, homofobia e outras formas de discriminação. Essas situações, embora lamentáveis, podem ocorrer em diversos contextos da sociedade, como ambientes de trabalho, universidades e outros sistemas de repúblicas estudantis pelo país.

Entretanto, a Refop e a UFOP não compactuam com esse tipo de comportamento. Essas atitudes são incompatíveis com os valores que defendemos e não representam o sistema de repúblicas federais como um todo.

Após o acordo firmado entre o Ministério Público Federal (MPF) e a UFOP, nós, das repúblicas federais, estamos comprometidos com a construção de uma nova imagem para o sistema, baseada na responsabilidade, no respeito e na transparência. O acordo estabelece diretrizes tanto para a utilização dos imóveis públicos quanto para as normas de convivência entre moradores e estudantes em período de adaptação.

O período de adaptação é reconhecido pela UFOP como uma etapa de integração à vida republicana, tendo como objetivo proporcionar uma convivência harmoniosa entre os moradores e avaliar se o estudante está alinhado aos critérios estabelecidos pela Resolução CUNI nº 1540 e pelo regimento interno de cada república, documento que é encaminhado à UFOP para aprovação. Esses critérios têm como princípios a integridade, o zelo, a honestidade, o respeito e a responsabilidade na gestão dos imóveis pertencentes à União.

Há quase um século, o sistema de repúblicas federais faz parte da história da UFOP, preservando tradições, promovendo acolhimento e contribuindo para a formação de milhares de estudantes. Reconhecemos que o sistema possui falhas e que ainda há desafios a serem enfrentados. No entanto, não nos omitimos diante deles. Pelo contrário, seguimos empenhados em corrigir o que for necessário, aprimorar nossas práticas e fortalecer um ambiente cada vez mais seguro, acolhedor, respeitoso e compatível com os valores que desejamos construir para as atuais e futuras gerações de moradores.”

“Tradição é algo que se modifica”

Questionado sobre onde termina a tradição legítima do sistema republicano e onde começa a prática abusiva, o reitor recusou tratar o termo como algo estático. “Acho que o desafio é mostrar que tradição é algo que se modifica”, disse. “A gente tem que colocar no lugar de certa contradição, de opressão, de hierarquia muito rígida, uma outra cultura que é da democracia, da própria ideia de república.”

Ele reconheceu que a exigência histórica de submeter calouros a regras que não valem para os demais moradores é, hoje, um dos pontos que o acordo pretende encerrar: “Todos os estudantes terão que ser submetidos às mesmas regras”, afirmou, admitindo que a prática atual “acaba submetendo aquela pessoa que tá chegando a uma série de exigências que não são feitas a um morador comum.” Sobre a resposta institucional a denúncias, o reitor rebateu a ideia de impunidade generalizada: “é com muita frequência que a gente assina demissão do estudante […] suspensão de um mês, de dois meses, de três meses, isso é habitual.”

Questionado sobre por que episódios de opressão chocam tanto num ambiente que deveria ser mais consciente, ele foi direto: “São pessoas com um nível de qualificação, que estão em um processo de formação que permitiria a elas ter mais consciência ainda sobre o que é opressivo e sobre o que não é — e, portanto, não é tolerável que dentro desse ambiente ocorram coisas que a gente ouve por aí.”

O reitor também contestou um estereótipo recorrente sobre a vida republicana — o de que seria comum um estudante levar mais de uma década para se formar por conta da vida social intensa nas repúblicas. Segundo ele, o cenário atual é o oposto do imaginário popular: as casas enfrentam hoje um problema de baixa ocupação, com menos jovens dispostos a assumir o compromisso da vida coletiva, e a universidade aplica jubilamento regularmente a cada semestre. “Não há um exagero, já que a universidade tem regras muito firmes em relação a desligamento e jubilamento”, afirmou, acrescentando que a nova exigência de desempenho acadêmico para permanência nas repúblicas já gerou, inclusive, casos de estudantes sendo desligados das próprias casas por baixo rendimento.

Como parte do trabalho preventivo que pretende reforçar, o reitor revelou um projeto ainda em fase de proposta: um “selo” público de reputação para as repúblicas federais. “A gente quer criar uma espécie de selo das repúblicas, que a gente pudesse apontar pra sociedade assim: qual república que é bem reputada, qual que não é — que, à medida que fosse fazendo algum tipo de besteira, fosse perdendo pontuação nesse selo.” Segundo ele, a ideia já foi apresentada às próprias repúblicas federais, que teriam recebido bem a proposta.

Como exemplo de convivência que, segundo ele, já melhorou, o reitor citou um episódio recente: durante uma festa de Carnaval organizada por estudantes no Centro de Convenções da UFOP, uma moradora de uma casa vizinha reclamou do barulho, alegando ter uma pessoa doente na residência. Os próprios organizadores da festa se mobilizaram e ofereceram pagar uma diária de hotel para a vizinha durante o evento — proposta que ela aceitou. “A senhora gostou, ficou no hotel, e foi bom para todo mundo”, resumiu o reitor.

A vida estudantil de Ouro Preto também é lembrada por trajetórias que extrapolam os muros da universidade. O rapper Djonga cursou História na UFOP até o sétimo período, sem concluir a graduação, e é hoje um dos nomes mais relevantes do rap nacional. O comediante Vini Maga, que se formou em Jornalismo na mesma época, relatou publicamente, em entrevista ao podcast Podpah, ter feito sua primeira reportagem de faculdade justamente com o colega de universidade — uma entrevista com Djonga durante uma batalha de rima em Mariana.

⏱️ Linha do tempo: do processo do MPF à trend no TikTok

  • 2019 — Ministério Público Federal abre ação civil pública contra a UFOP sobre a regulação das repúblicas federais.
  • Ago/2022 — Estudante de Engenharia entra em coma após “batalha” na República Sinagoga.
  • Jul/2023 — Estudante é vítima de estupro na República Bangalô; monografia sobre violência de gênero na UFOP é aplicada no mesmo mês.
  • Abr/2025 — Agência Primaz publica investigação completa sobre o caso Bangalô.
  • Mai/2026 — Justiça Federal homologa acordo entre MPF e UFOP, encerrando a ação de 2019.
  • Jul/2026 — Relatos de ex-moradoras viralizam no TikTok, reacendendo o debate dois meses após o acordo.

É seguro morar em república?

Ao ser questionado diretamente se é seguro morar em uma república, o reitor evitou uma resposta categórica. “Eu não consigo te dizer que algo é totalmente seguro”, respondeu, comparando a decisão a ir a um jogo de futebol entre Cruzeiro e Atlético: nenhum ambiente social, disse, é totalmente livre de risco. “O que eu poderia te dizer é o seguinte: parece, por tudo que a gente tem de relato, que a ampla maioria das repúblicas são seguras, são tranquilas — que em alguns lugares ainda não conseguiram superar os problemas que enfrentam.”

Ele afirmou que a universidade segue trabalhando na prevenção, e fez uma garantia direta sobre o encaminhamento de denúncias: “algo que eu já posso te garantir é que as denúncias que chegam, o estudante vai encontrar uma forma delas serem apuradas — isso eu posso garantir.”

Sobre o que fazer em caso de crimes como abuso sexual dentro de uma república, o reitor foi específico: a orientação é acionar a polícia imediatamente, mas também informar a universidade em paralelo. “Quando se tratam de crimes, pode recorrer à polícia imediatamente — crime é para ser denunciado no órgão adequado. Mas pode fazer paralelamente aqui: pode fazer denúncia anônima, chega na página da UFOP, a Ouvidoria vai abrir tudo para poder ser feito. Pode vir aqui na reitoria, a Ouvidoria fica aqui ao lado, pode conversar com a Ouvidora.”

🆘 Onde buscar ajuda

Em caso de crime (abuso sexual, agressão física, ameaça): procure a Polícia Civil imediatamente. Denunciar à universidade não substitui o registro policial.

Ouvidoria Geral da UFOP: e-mail ouvidoria@ufop.edu.br · telefone (31) 3559-1210 · presencialmente no prédio da Reitoria, Rua Diogo de Vasconcelos, 122, Pilar, Ouro Preto · atendimento das 8h30 às 12h e das 13h30 às 18h. Denúncias também podem ser feitas de forma anônima pelo Fala.BR.

Ouvidoria Feminina Athenas (projeto de extensão voltado a casos de violência contra a mulher): acolhimento, assessoria jurídica e atendimento psicológico para a comunidade acadêmica e para Ouro Preto e Mariana. Mais informações em ufop.br/ouvidoria.

Um sistema em transição

O retrato que emerge do cruzamento entre os relatos virais, a pesquisa acadêmica de 2023, os casos já judicializados e a resposta institucional recente não é o de um problema recém-descoberto, tampouco o de uma tradição totalmente superada. É o de um sistema centenário passando, agora sob determinação judicial, por uma reestruturação que a própria universidade reconhece como incompleta. Enquanto o novo modelo de seleção de moradores ainda é construído e a equipe de fiscalização começa pequena, os relatos que voltaram a circular nas redes sociais sugerem que a distância entre a lei escrita em maio e a vivência dentro das repúblicas em julho ainda precisa ser observada de perto — pela universidade, pelo Ministério Público e, como lembrou o próprio reitor, por cada estudante que decide, todos os anos, se aquele é ou não o lugar onde quer morar.

Nota metodológica: os relatos de ex-moradoras citados nesta reportagem foram extraídos de perfis públicos do TikTok; o Vintém não teve contato direto com essas fontes até o fechamento desta edição, e nomes de repúblicas associados a acusações não confirmadas diretamente pela reportagem foram omitidos, seguindo o mesmo critério de proteção adotado pelas próprias autoras dos relatos. A Universidade Federal de Ouro Preto foi procurada e respondeu, por entrevista e por posicionamento escrito, a todos os pontos levantados; parte dos dados solicitados ainda está em levantamento pela instituição e será incorporada em atualização futura desta reportagem.

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