Sem entregar a trama, o livro de Maria Cândida usa cenários e tradições reais da Cidade Histórica para construir uma narrativa que promete gerar identificação imediata em quem é daqui — e funcionar como porta de entrada para quem quer entender como se vive em Ouro Preto
Chega às livrarias em setembro Ladeiras do Invisível, romance de estreia da ouro-pretana Maria Cândida. Radicada há quase 20 anos nos Estados Unidos, onde constrói carreira em planejamento urbano, a autora escreveu o livro a partir de memórias da própria infância e adolescência na Cidade Histórica, misturadas a episódios de ficção. O resultado é uma narrativa ambientada no centro de Ouro Preto, que usa o território, os sons e as tradições da cidade como parte da própria estrutura do livro — não apenas como pano de fundo decorativo.
Ouro Preto como cenário — e como personagem
Um dos aspectos mais marcantes do livro é o tratamento dado ao espaço urbano. A trama se move pelas ladeiras do centro histórico, por becos e vielas, por uma praça que serve de palco para um dos momentos mais importantes da narrativa, e pelo entorno de uma das igrejas matrizes da cidade. Não são cenários genéricos: são descritos com detalhe suficiente — o tropeço numa pedra molhada, a água da chuva escorrendo ladeira abaixo e virando “rios lamacentos”, o som dos sinos ecoando entre os casarões — para que qualquer pessoa que já tenha caminhado por ali reconheça o trajeto, mesmo sem que ruas sejam nomeadas explicitamente.
Essa escolha não é acidental. Em entrevista ao Vintém, Maria Cândida explicou que a topografia de Ouro Preto — ruas estreitas, ladeiras íngremes, distâncias pensadas para quem caminha — moldou sua própria formação, inclusive profissional: hoje ela trabalha com planejamento urbano nos Estados Unidos e usa como referência justamente esse desenho de cidade que conheceu na infância. No livro, esse olhar de quem entende de espaço urbano aparece na forma como cada cena é ancorada fisicamente na cidade — o leitor não apenas lê sobre Ouro Preto, ele é conduzido por ela, ladeira por ladeira.
Construção de personagens: memória e invenção lado a lado
Sem revelar identidades ou desfechos, é possível adiantar que os personagens de Ladeiras do Invisível nascem de um processo híbrido: parte memória, parte invenção. A autora relatou que uma série de pessoas de seu convívio em Ouro Preto serviram de inspiração direta para figuras do livro — ela estima entre três e seis “personagens reconhecíveis” para quem viveu a mesma época na cidade —, ainda que nem todas essas pessoas saibam que estão retratadas na obra. Ao lado dessas inspirações reais, o livro constrói também personagens e situações inteiramente fictícios, entrelaçados de forma que a fronteira entre o que aconteceu e o que foi inventado fica, propositalmente, pouco nítida.
Essa mistura aparece já na protagonista: uma menina que observa o mundo ao redor com uma mistura de curiosidade e desconfiança, questionando constantemente quem é e qual o seu lugar naquela cidade — uma pergunta que atravessa o livro sem respostas fáceis. A autora descreveu o processo de escrever esses personagens como algo próximo de reabrir uma ferida para, ao mesmo tempo, costurá-la: revisitar memórias de infância, inclusive dolorosas, e transformá-las em material literário sem que isso significasse simplesmente relatar fatos como aconteceram.
Narrativa e estilo: realismo mágico com sotaque mineiro
Do ponto de vista de estilo, Ladeiras do Invisível se filia a uma tradição de realismo mágico que a própria autora reconhece e assume. A indicação veio de uma mentora de escrita, que apontou semelhanças entre o tom do livro e a obra de Jorge Amado — um narrar em que o sobrenatural não é espetáculo isolado, mas parte do cotidiano, tratado com a mesma naturalidade com que uma cidade como Ouro Preto trata seus sinos, suas procissões e suas lendas urbanas. Maria Cândida cita ainda autores como Ariano Suassuna como referências de um realismo mágico enraizado em cultura popular brasileira, mais do que em fórmulas importadas do gênero.
Essa naturalidade com o sobrenatural aparece logo nos primeiros capítulos do livro: um vulto que pode ou não estar ali, uma sensação de estar sendo observada, um comentário quase automático da mãe da protagonista sobre a cidade ser “meio assombrada” — tudo tratado em tom coloquial, como quem conta uma história ouvida mil vezes na varanda de casa. É esse equilíbrio entre o fantástico e o doméstico que dá o tom ao livro, sem nunca abandonar o realismo das relações familiares e da vida numa cidade pequena e histórica.
Tradições ouro-pretanas na trama
Sem entregar o enredo, é possível dizer que o livro retrata, com atenção de quem viveu de perto, elementos que fazem parte do calendário e do imaginário de Ouro Preto. Os sinos das igrejas barrocas — que tocam para anunciar missas, avisar sobre um enterro, celebrar um dia santo ou simplesmente marcar a passagem do tempo — funcionam quase como personagem à parte, aparecendo em momentos-chave da narrativa. A Semana Santa e os preparativos que a cercam, incluindo a montagem dos tapetes pelas ruas, também entram na trama como pano de fundo cultural. E lendas urbanas locais, como a do “Homem da Capa Preta” — figura que gerações de ouro-pretanos já ouviram mencionar em tom de brincadeira e, ao mesmo tempo, de aviso sério —, ganham espaço central em pelo menos um dos capítulos.
Essas escolhas não são apenas cenográficas: refletem, segundo a autora, um valor de comunidade que ela identifica como central na experiência de crescer em Ouro Preto — a ideia de que essas tradições não são vividas isoladamente, mas coletivamente, por toda a cidade ao mesmo tempo, independentemente de credo religioso.
Identificação para quem é daqui, porta de entrada para quem é de fora
Para o leitor ouro-pretano, a aposta do livro é gerar reconhecimento imediato — aquele tipo de detalhe que só quem morou aqui entende de primeira: o som específico dos sinos, o jeito como a chuva muda o humor da cidade em minutos, a sensação de que uma lenda pode ser brincadeira de criança e assombração real ao mesmo tempo. É uma literatura que não precisa explicar Ouro Preto para quem já a conhece — só nomear o que sempre esteve ali.
Já para quem nunca viveu na cidade, Ladeiras do Invisível funciona como um retrato bastante completo de como é o dia a dia em uma cidade histórica tombada pela Unesco: o ritmo marcado pelos sinos em vez do relógio, a vida organizada em torno de ladeiras e tradições religiosas, a naturalidade com que histórias e lendas se misturam ao cotidiano. Não é um guia turístico nem um texto explicativo — é justamente por contar a cidade de dentro, sem se preocupar em traduzi-la, que o livro consegue transmitir a quem é de fora uma noção mais honesta de como Ouro Preto realmente é vivida por quem nasceu nela.
Lançamento
Ladeiras do Invisível chega às livrarias em setembro. O lançamento oficial será no dia 5, na Garrafaria, em Ouro Preto, com sessão de autógrafos — e, até o momento, é também o principal ponto de venda confirmado do livro na cidade.