Todos os anos, quando as escolas de Ouro Preto desfilam na Praça Tiradentes para celebrar o 7 de Setembro, o som que primeiro toma conta do largo não é de discurso, mas de fanfarra. A tradição, organizada pela Prefeitura em conjunto com o 52º Batalhão da Polícia Militar e a Associação das Fanfarras de Ouro Preto (Afanfop), reúne há décadas escolas municipais e estaduais, suas bandas marciais e a comunidade em torno do mesmo monumento erguido em memória de Tiradentes.
Um local carregado de história antes mesmo da Independência
A escolha da Praça Tiradentes como palco do desfile carrega um significado que antecede a própria data comemorada. Em abril de 1822, ainda como príncipe regente, Dom Pedro I esteve no local — então chamado de Largo do Rossio, no coração da antiga Vila Rica — e prometeu ao povo a independência que viria a ser proclamada meses depois, em setembro daquele ano. É também na mesma praça que está o monumento erguido em homenagem a Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira, movimento que antecedeu e influenciou o próprio processo de emancipação do Brasil.
“D. Pedro I, ainda príncipe regente, esteve na Praça Tiradentes em abril de 1822 prometendo a independência do Brasil ao povo de Vila Rica”, recordou o prefeito Angelo Oswaldo durante a edição do desfile que celebrou o bicentenário da Independência, em 2022 — ano em que a cidade também recebeu a exposição “Já Raiou a Liberdade” em comemoração à data.
Décadas de tradição musical nas escolas
Por trás do desfile está uma rede de fanfarras que, em algumas escolas, atravessa gerações dentro da mesma família. A Fanfarra da Escola Estadual Desembargador Horácio Andrade, uma das mais tradicionais da cidade, completou 50 anos de fundação em 2022 — criada pela professora Maria Auxiliadora de Carvalho, a “Dodora”, falecida em 2020. Após a criadora, a regência da fanfarra passou a Geraldo Antônio Batista, o “Geraldinho”, que na mesma celebração dos 50 anos passou o apito — instrumento usado havia meio século para comandar os ensaios — ao próprio filho, Waldinei Oliveira dos Santos Batista, o “Dinei”, que segue à frente do grupo.
Outra instituição de peso é a Sociedade Musical Senhor Bom Jesus de Matosinhos, tradicionalmente responsável por executar os hinos Nacional, da Independência e de Ouro Preto na abertura da solenidade na Praça Tiradentes.
Um movimento que também busca se renovar
A tradição das fanfarras em Ouro Preto não vive só de memória. Em dezembro de 2025, a cidade recebeu a quarta edição do Festival de Fanfarras “O Retorno”, que marcou o resgate histórico da Fanfarra Dom Velloso e reuniu grupos como a Fanfarra Juventina Drummond. Segundo o presidente da Afanfop, Fernandelli Sidney da Costa Fernandes, a cidade vive hoje um momento de expansão do interesse juvenil pela música através das fanfarras. O apoio, muitas vezes, vem também do comércio local — caso da doação de instrumentos feita pelo tradicional Bazar Faria a uma das escolas em processo de reestruturação de sua banda.