Professor da UFOP publica pesquisa sobre uso de inteligência artificial para documentar altares barrocos

Pesquisa da UFOP usa IA para identificar elementos de altares em 33 igrejas históricas do Brasil
Foto de Jiljana Isidoro

Jiljana Isidoro

Um banco de dados com 1.278 fotografias de altares barrocos, coletadas em 33 igrejas históricas de 12 cidades brasileiras, foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto e publicado no Journal of Cultural Heritage, revista científica da editora Elsevier. O conjunto de imagens, batizado de AltarData, serve de base para treinar sistemas de inteligência artificial capazes de identificar automaticamente elementos como imagens de santos, crucifixos, colunas, tronos, tabernáculos e mesas de altar em fotografias de igrejas históricas.

O estudo é assinado pelo professor André Luiz Carvalho Ottoni, do Departamento de Computação e Sistemas da UFOP, em colaboração com a professora Lara Toledo Cordeiro Ottoni, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Nove igrejas de Ouro Preto integram o banco de dados, entre elas a Basílica de Nossa Senhora do Pilar, a Igreja de São Francisco de Assis e o Santuário de Nossa Senhora da Conceição. Outras duas igrejas de Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto, também foram incluídas na pesquisa, assim como a Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em Mariana.

O que o sistema aprende a reconhecer

O AltarData reúne 12.093 anotações distribuídas em seis categorias de objetos recorrentes nos altares barrocos e rococós do período colonial e imperial brasileiro: mesa de altar, coluna, crucifixo, imagem de santo, tabernáculo e trono. Cada fotografia foi anotada manualmente pelos pesquisadores, que se basearam no glossário de arquitetura e ornamentação do barroco mineiro e no glossário visual do barroco luso-brasileiro para definir as categorias.

A categoria com o maior número de exemplos no banco de dados é imagem de santo, com 3.625 instâncias anotadas. Coluna vem em seguida, com 3.222, e trono com 2.451. Os pesquisadores explicam que um único altar pode conter múltiplos objetos da mesma categoria, como as três imagens que costumam ocupar o altar principal de uma igreja. O tabernáculo e a mesa de altar, por sua vez, costumam aparecer em número menor por altar, o que se refletiu nas quantidades anotadas.

Os resultados da inteligência artificial

Com as imagens anotadas, os pesquisadores treinaram e testaram um modelo de aprendizado profundo chamado FOMO MobileNetV2, ajustando seus parâmetros para maximizar a precisão da detecção. O sistema foi avaliado em diferentes configurações, e os melhores índices de acerto na fase de validação foram: 97,3% para o tabernáculo, 92% para a mesa de altar, 87,1% para a coluna e 85,1% para as imagens de santos. Na etapa de testes com igrejas de Diamantina e Campanha, cidades que não haviam sido usadas no treinamento, o modelo obteve um F1-score geral de 79%. Trata-se de uma medida que combina precisão e abrangência na identificação dos objetos.

“O conjunto de dados proposto contribui diretamente para o avanço do campo de visão computacional para altares históricos, em especial para a documentação digital automática e o reconhecimento de elementos presentes e ausentes no interior das igrejas.”

A afirmação consta das conclusões do artigo, publicado em agosto de 2026. O banco de dados está disponível gratuitamente no repositório Mendeley Data.

Para que serve

Segundo o estudo, as aplicações potenciais do AltarData abrangem desde a documentação digital automática até sistemas de inspeção capazes de alertar para a ausência de componentes em altares históricos. Os pesquisadores apontam ainda o uso do banco de imagens em tecnologias de inteligência artificial generativa para a reconstrução virtual de templos danificados por eventos climáticos ou vandalismo, além da criação de glossários digitais interativos voltados a visitantes com pouca familiaridade com a iconografia católica.

Outra frente indicada no artigo é o fortalecimento da pesquisa em IA aplicada ao patrimônio cultural brasileiro especificamente, área considerada defasada na literatura científica em relação ao volume de sítios históricos que o país abriga. O Brasil possui múltiplos conjuntos urbanos reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Mundial, com arquitetura religiosa dos séculos XVIII e XIX.

A equipe e o projeto IA.Patrimônio

A pesquisa integra o Grupo de Pesquisa em Machine Learning e Robótica (MLBots) da UFOP e é parte de um projeto mais amplo desenvolvido sob o nome IA.Patrimônio, que investiga aplicações de inteligência artificial na preservação e documentação do patrimônio histórico regional. O grupo é acompanhado nas redes sociais pelo perfil @ia.patrimonio.

Estudantes bolsistas da UFOP integram o projeto: Lavínia Ferreira e Thiago Ramirez, do curso de Engenharia Civil, são bolsistas do Pibic/CNPq; Samara Paloma, do curso de Ciência da Computação, é bolsista do Pibiti/CNPq. A pesquisa recebeu financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Edital PROPPI 18/2024 da UFOP.


O artigo AltarData: A novel annotated dataset for object detection in the Brazilian heritage altars using deep learning foi publicado no volume 81 do Journal of Cultural Heritage (Elsevier), páginas 248 a 259, com DOI: 10.1016/j.culher.2026.07.024. O banco de dados AltarData está disponível em: doi.org/10.17632/2b6sd9n5gy.1.

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