Setenta anos depois de chegar às livrarias, a obra de Guimarães Rosa é o centro da 21ª edição do Fórum das Letras, promovida pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) entre 13 e 22 de outubro. Em 1956, o escritor publicou Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, e a data guia o tema deste ano: “Do mundo e de Minas Gerais”.
A coordenação é das professoras Guiomar de Grammont, Mônica Gama e Rita Lages, esta última curadora do Fórum das Letrinhas, a programação infantil do evento. As atividades acontecem no anexo do Museu da Inconfidência, no Museu Casa dos Contos e na Casa da Ópera, em Ouro Preto, e no Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), em Mariana, além de escolas da rede pública das duas cidades.
O que Rosa ainda pergunta
Segundo a organização, a programação reúne pesquisadores da obra rosiana, escritores, editores, tradutores e ilustradores que retomam, em seus próprios trabalhos, temas como regionalismo, animalidade, oralidade, espaços e alteridades. Para Guiomar de Grammont, a permanência do autor é o que o Fórum quer examinar: “Setenta anos depois, as obras de Rosa continuam provocando novas perguntas sobre linguagem, oralidade, território, identidade, natureza, memória e alteridade. O Fórum pretende investigar justamente essa permanência, aproximando a obra rosiana de novos leitores e de novas formas de criação”.
Em Grande Sertão: Veredas, o sertão mineiro passa a ser território universal. Em Corpo de Baile, Rosa monta uma constelação de personagens, paisagens e narrativas em que Minas aparece ao mesmo tempo como lugar concreto e como território mítico. Mônica Gama resume o efeito dessas narrativas sobre o país: “O Brasil foi convidado a fazer uma travessia em uma nova linguagem, um novo espaço, uma nova realidade. Na verdade, não se tratava exatamente de algo: era o Brasil em seus crespos, em seu interior, não apenas geográfico, mas simbólico-existencial. Guimarães Rosa mostrou a habilidade de revelar o que já estava lá”.
Quem sobe ao palco
A abertura fica com a atriz e poeta Elisa Lucinda, que apresenta o espetáculo “Viver de poesia”, com direção de Geovana Pires. Entre os demais convidados estão a escritora Amara Moira; os jornalistas Leonardo Sakamoto, Betina Anton e Daniela Arbex; e os ensaístas e poetas Carlos Ávila e Maria Esther Maciel. O grupo Miguilins, de Cordisburgo, também participa.
Dois ilustradores integram a programação. Eloar Guazzelli é autor da adaptação de Grande Sertão: Veredas para os quadrinhos. João Marcos Mendonça criou a série Escola de Passarinhos e lança o volume em quadrinhos Doce amargo, sobre o que a organização descreve como o maior desastre ambiental do país. O encerramento é um show dos músicos Spirito Santo, Celso Adolfo e Makely Ka.
Uma roda sobre o que permanece
No sábado, 17, às 11h, o Fórum reserva uma roda de conversa chamada “O que permanece”. Participa Helena Taliberti, presidente do Instituto Camila e Luiz Taliberti e autora de Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes, livro biográfico que narra a perda de dois filhos, da nora e de um neto no rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019.
Também estão na mesa Daniela Arbex, jornalista e autora de Arrastados e de um dos prefácios do livro de Helena, e Fabíola Moulin, diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho. As três vão conversar sobre luto, memória e permanência.
Exposições e cinema
Em Mariana, a exposição “O Sertão-mundo de Guimarães Rosa”, com curadoria de Mônica Gama, ocupa o espaço expositivo do ICHS a partir de 13 de outubro. A mostra reúne fotografias de Maureen Bisilliat e Germano Neto e percorre a obra do escritor, seus lugares, memórias, sons e processo de criação. O ICHS também recebe exibições comentadas de filmes baseados em livros de Rosa.
Em Ouro Preto, o Museu Casa dos Contos abre no dia 10, em parceria com o Fórum das Letras e o Instituto Palma Preta, duas exposições sob o conceito curatorial “O Sertão é Dentro da Gente”: “Travessias entre o Ser-Tão e o Ser-Gerais”, de Germano Neto, e “Os Minas: O Sertão é do Tamanho do Mundo”, construída a partir do acervo e das pesquisas do etnomusicólogo Spírito Santo. Na abertura, o filme Oblus, de Lucas Godoy, com reflexões de Germano Neto sobre a luz na paisagem e no fazer fotográfico, tem sua estreia nacional.
A Galeria Nello Nuno, da FAOP, recebe “Terras Brutas, Cores do Sertão Gerais”, do artista visual Marcos A. Luiz, em homenagem aos 70 anos de Grande Sertão: Veredas. As obras partem de pigmentos extraídos de territórios mineiros, e o sertão, para o artista, é a memória do solo.
Professores e alunos
O Fórum é aberto à comunidade em geral. Entre 20 e 22 de outubro, a programação inclui palestras e oficinas voltadas a professores e alunos da educação básica.
Serviço: 21º Fórum das Letras
- Quando: de 13 a 22 de outubro de 2026
- Onde: anexo do Museu da Inconfidência, Museu Casa dos Contos e Casa da Ópera (Ouro Preto); ICHS (Mariana); escolas públicas das duas cidades
- Abertura das exposições do Museu Casa dos Contos: 10 de outubro
- Roda “O que permanece”: sábado, 17 de outubro, às 11h
- Programação para escolas: de 20 a 22 de outubro
- Programação completa e inscrições: (inserir link oficial da UFOP)