Câmara de Ouro Preto homenageia 55 pessoas e entidades em solenidade na véspera do aniversário

A Câmara Municipal de Ouro Preto realiza no dia 3 de julho, às 17h, a solenidade anual de entrega dos Títulos de Cidadania Honorária e dos Diplomas de Honra ao Mérito. No total, 55 pessoas e entidades serão homenageadas, indicadas e aprovadas pelos vereadores em plenário. O evento acontece no Centro de Artes e Convenções da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e é restrito a convidados, mas será transmitido ao vivo pelo canal oficial da Câmara Municipal no YouTube. A data foi escolhida por anteceder o aniversário de Ouro Preto, em 8 de julho, quando a cidade completa 315 anos. O Título de Cidadania Honorária é concedido a pessoas que contribuem para o desenvolvimento da cidade. Este ano, 28 pessoas receberão a honraria: Adalclever Lopes, Gustavo Xavier Gariano, Jorio Coelho, Reinaldo Costa Balbino, Ricardo Machado Rabelo, Tiago Jeremias dos Anjos, Cláudio Vieira Lisboa, Luís Cláudio Gabriel, Cristiano Castelucci Arantes, Diogo Ribeiro dos Santos, Felipe Antônio Silva Fonseca, José Geraldo Veloso (in memoriam), Padre José Carlos de Rezende, Camila Hott Nunes Sena Marotta, Adelina Neves Pinto Coelho, Graciela Santos de Oliveira Rodrigues, Marco Antonio Arruda Amato, Gilmar Vieira, Sebastião Gonçalves Maciel, Felipe Comarela Milanez, Otávio José Lima Pereira, Paulo Henrique Iziliani, Emmanuel Levenhagen Pelegrini, Múcio Geraldo Gurgel, Cláudia Fortes da Silva Braga, Whelton Pimentel de Freitas, Márcio de Aguiar e Roberto Guimarães Silva. Já o Diploma de Honra ao Mérito reconhece pessoas ou entidades por trabalhos de relevância para o município. Os 27 agraciados deste ano são: Emmanuel Rezende (in memoriam), Grupo Bandeirantes Vektor, Lucas Carvalho Coelho, Leonardo Barbosa Godefroid, Sidne José Rossi, José Augusto da Silva, Teresinha Isabel da Silva Custódio, Ana Cláudia de Oliveira e Campos, Christine Vianna Algarves Magalhães, Paulo César Morais, Pedro Antônio Lisboa Lage, Marcos Antônio Queiroz, Richarle Renato Galdino da Silva, Gabriel Márcio Nahim Tropia, Reginato Fernandes dos Santos, Projeto Alzira, Cristiane Patrícia Souza Silva, José Alexsandro de Carvalho Andrade, Bernardo Ramos Scarlatelli, Fernando Davino Alves, Guarnição da Guarda Civil Municipal, Associação dos Cavaleiros Inconfidentes de Cachoeira do Campo, Fernando Antônio Ansaloni Santos Silva, Conselho Tutelar, ONG AOPA (Associação Ouropretana de Proteção Animal), Ciliete Rosa de Oliveira Santos e Maria Tereza dos Santos. Serviço Data: 3 de julho de 2026 Horário: 17h Local: Centro de Artes e Convenções da UFOP Entrada: restrita a convidados Transmissão ao vivo: canal da Câmara Municipal no YouTube

Copa do Mundo, futebol brasileiro e letramento racial: uma experiência necessária

Daniel Machado da Conceição, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) O futebol é, de longe e há muito tempo, o esporte mais popular do mundo. A Copa que acontece agora nos EUA, no México e no Canadá é só o maior e mais novo exemplo disso. Mas se hoje o esporte em seu nível mais alto é uma profusão de cores, raças e nacionalidades, nem sempre foi assim. O futebol brasileiro se estruturou nos seus primórdios num ambiente institucionalmente racista. Hoje funciona como uma oportunidade permanente para a sociedade reconfigurar sua relação com a questão racial. Mas nem sempre essa oportunidade é aproveitada. É o que mostra em seu artigo o pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos de Futebol Brasileiro (INTC Futebol) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Daniel Machado da Conceição: O futebol nos moldes que conhecemos hoje é uma modalidade esportiva que surge no século XIX, período vitoriano no Império Britânico. Sua disseminação acontece como um veículo ideológico projetado para propagar a imagem do sportsman, isto é, apregoar os valores de uma sociedade colonizadora e que tem na negação do ócio o seu projeto civilizatório. Ao destacar que o futebol surge em território inglês, é preciso identificar a classe mais abastada, a elite, como responsável pela sua apropriação e ressignificação como modelo de lazer e formação para o trabalho e os novos empreendimentos. As public schools eram locais em que os filhos da elite aprendiam e desenvolviam a modalidade. A partir dessa realidade, a modalidade desembarca em diversos países. História do futebol no país das chuteiras No Brasil, o mito de origem para a chegada da modalidade está relacionado a Charles Miller, herdeiro de uma família rica que vai estudar na Europa e, quando retorna ao país, volta com uma bola, um par de chuteiras e o livro de regras do esporte. A prática do futebol, então, começou no Brasil como uma atividade da elite, de caráter amador, que restringia a entrada dos estratos sociais desfavorecidos. A mensagem era da prática pela prática, ou uma prática desinteressada. As classes populares, principalmente a população negra, crianças, jovens e adultos, também praticavam a modalidade. No entanto, a entrada nos clubes de outras modalidades ou sociais vinculados à elite estabeleceu-se a partir de restrições que impediam a participação dessa população. Condicionantes sociais de classe e raça Atletas negros iniciam esse percurso de reconhecimento e valorização em clubes que rompem essa lógica, mas ainda conservando os estereótipos de classe e de raça, dois conceitos que no Brasil se confundem. Clubes como Bangu Atlético Clube-RJ e Associação Atlética Ponte Preta-SP acabam sendo as principais referências históricas, com base em fontes documentais. O Club de Regatas Vasco da Gama-RJ, que em 1923 vence o campeonato estadual com um time majoritariamente composto por atletas negros, sofre reprimendas e imposições a partir do regulamento do campeonato que marca distinções de classe e consequentemente de raça. A elaboração de um documento atestando descontentamento sobre tal situação se torna o primeiro manifesto antirracista, embora não cite abertamente a questão racial. Nesse período, um homem negro, Arthur Friedenreich, filho de um alemão e uma negra, torna-se ídolo nacional ao se destacar na Seleção Brasileira, sendo responsável pelo gol na final do primeiro título internacional do Brasil, o Sulamericano de 1919 (atual Copa América). As primeiras décadas do futebol no Brasil são um espaço de disputa e resistência das classes populares. O apagamento desse grupo populacional e seu relacionamento com o futebol passa pelos condicionantes sociais de classe e raça. Na terceira e quarta décadas, o reconhecimento e inserção, especialmente, dos atletas negros acontece não em razão de uma maior consciência e abertura do jogo para os menos afortunados. Sua inserção é em razão do desempenho e resultados no campo. Amadorismo marrom e profissionalização Nesse cenário, uma estratégia passa a confrontar o amadorismo. O chamado “amadorismo marrom”, no qual os atletas são contratados como trabalhadores nas empresas (comércio, fábricas e indústrias) de propriedade de membros da diretoria dos clubes e, nos dias de treinamento e jogos, são liberados para competição. No amadorismo, o atleta não pode receber para jogar, a profissionalização é deturpadora da prática desinteressada, então essa estratégia muito bem elaborada passa a ser uma nova fonte de renda para as classes populares (negras). A partir do amadorismo marrom, o passo seguinte foi a profissionalização. Um expoente desse processo é a figura do Leônidas da Silva, o Diamante Negro. Sua imagem passa a ser referência no campo de jogo e na arena publicitária e comercial. Em meados do século, a presença negra no campo de futebol não é mais um estranhamento, no entanto, os valores de classe e o modelo civilizatório não atacam mais a distinção econômica e laboral. O corpo negro e sua representação passam a ser os marcadores da racialização do futebol. Narrativas racializadas Os discursos das pseudo-ciências, religião e política que legitimaram as narrativas racializadas (racismo) afetam a presença negra nos times e na seleção. Ao destacar o racismo, é necessário identificá-lo como um conceito ideológico que estabelece a hierarquização entre os povos, definindo um determinado grupo com capacidades superiores. Essa ideologia, com o final da escravização nos países da América, é ainda mais exaltada para justificar a sua manutenção. O que significa que a escravização deixou marcas profundas que, durante os primeiros anos da República no Brasil, ao falar sobre classe nesse período, a raça é algo implícito e preponderante. Por ser um conceito social e sem qualquer determinismo biológico que o sustente, o racismo foi se manifestando de inúmeras maneiras. Primeiro, como rejeição e exclusão, depois como um elemento depreciativo ao indicar uma não conformidade ou capacidade física e emocional dos atletas negros. Logo, o sentido assimilacionista procura valorizar a mestiçagem como vantajosa, tendo em vista que as valências físicas do corpo negro são utilizadas para uma maior produtividade no esporte. Os argumentos que sustentam a atribuição de um lugar para o corpo negro no esporte a partir de meados do século XX com a Declaração dos Direitos

Sistema que cruza dados do SUS e de farmácias detecta surtos precocemente e ganha tempo contra epidemias

Juliane Fonseca de Oliveira, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); Manoel Barral-Netto, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Viviane Boaventura, Universidade Federal da Bahia (UFBA) A pandemia de Covid-19 e os alertas sobre ameaças virais como Ebola, Nipah e Hantavírus reforçam uma preocupação global e recorrente: como saberemos quando uma nova doença começará a se espalhar? No Brasil, onde surtos de doenças como dengue, chikungunya e outras infecções são frequentes, essa capacidade pode ser decisiva para reduzir impactos sobre a população e os serviços de saúde. Em um estudo recente, avaliamos o desempenho do Sistema de Antecipação de Surtos com Potencial Pandêmico (ÆSOP), atualmente em implementação pelo Ministério da Saúde. O sistema utiliza dados da Atenção Primária à Saúde (APS) do Sistema Único de Saúde e de vendas de medicamentos isentos de prescrição (MIP), como descongestionantes nasais, para identificar sinais precoces de surtos. O acrônimo ÆSOP remete à ideia de antecipação e vigilância (em inglês, Early Alert System for Outbreaks with Pandemic Potential). A Atenção Primária é a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). Desenvolvida sobretudo nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), reúne ações de promoção da saúde, prevenção de doenças, diagnóstico, tratamento e acompanhamento contínuo da população. Seu principal modelo de organização é a Estratégia Saúde da Família (ESF), na qual equipes multiprofissionais acompanham as famílias de um território definido. O sistema testado foi desenvolvido por pesquisadores da Fiocruz Bahia e do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE/UFRJ). Os resultados do estudo mostraram que as fontes de dados utilizadas pelo sistema testado foram capazes de antecipar aumentos de hospitalizações por doenças respiratórias em até três semanas em cerca de 60% dos episódios analisados. Observamos também que os dados permitem identificar a elevação de casos leves, muitas vezes antes que seu impacto seja visível nos hospitais. O estudo foi publicado recentemente na revista npj Digital Public Health, do grupo Nature. Sintomas comuns que podem confundir Mapear os primeiros sinais de transmissão de uma doença é um dos grandes desafios da saúde pública. Seja diante de um vírus já conhecido ou de um agente infeccioso emergente, ganhar alguns dias de vantagem – ou semanas – pode fazer muita diferença para organizar a assistência, direcionar investigações epidemiológicas e reduzir o impacto de um surto sobre a população. Essa não é, no entanto, uma missão simples. O reconhecimento de um novo agente infeccioso depende muito da capacidade da rede de vigilância e da infraestrutura local de saúde pública. Mais uma dificuldade é que surtos raramente começam de forma evidente. Nos seus primeiros momentos, uma doença emergente costuma se parecer com outras já conhecidas. Os sintomas iniciais, como febre, tosse, dor no corpo ou mal-estar, por exemplo, são comuns a diversas infecções. Foi o que ocorreu durante surtos de Ebola em países da África Ocidental, vírus responsável por uma taxa média de letalidade de 25% a 90%. Um estudo estimou que, caso 60% dos infectados recebessem diagnóstico em até um dia após o surgimento dos sintomas, em contraste com a média de cinco dias, o índice de contaminação viral despencaria de 80% para quase zero. Situação semelhante ocorreu com o Zikavírus no Brasil e com o SARS-CoV-2 na China. Em ambos os casos, o vírus circulou por algum tempo antes de ser oficialmente identificado. Capacidade real de antecipação A capacidade de detectar casos leves antes que o aumento da transmissão se reflita nas hospitalizações é o principal diferencial da abordagem que utiliza o sistema ÆSOP. Em nosso estudo, constatamos que as fontes de dados usadas têm capacidade real de antecipar aumentos de internações por doenças respiratórias no Brasil. Os dados de vendas de medicamentos isentos de prescrição emitiram sinais de alerta antes do aumento das hospitalizações em cerca de 57% dos 746 episódios analisados. Esses alertas surgiram entre uma e três semanas antes da elevação dos casos graves. Os dados da APS apresentaram desempenho semelhante, antecipando aproximadamente 60% dos aumentos observados. Em outras palavras, ambas as fontes conseguiram identificar uma parcela importante dos surtos antes que seu impacto fosse sentido em hospitais. Na prática, antecipar um surto em até três semanas, como o estudo aponta ser possível, fornece um tempo valioso para direcionar investigações epidemiológicas, ampliar a coleta de amostras e preparar a rede assistencial. Isso inclui o planejamento de leitos, equipes e insumos, reduzindo o risco de colapso do sistema de saúde. Esse fôlego adicional é decisivo para interromper cadeias de transmissão, orientar medidas de contenção imediatas e reforçar campanhas de vacinação e comunicação em saúde. Por tudo isso, cresce o interesse em estratégias capazes de detectar surtos antes mesmo da confirmação laboratorial dos casos. Entre elas, destaca-se a vigilância sindrômica. O fio da meada A vigilância sindrômica é uma estratégia utilizada por autoridades de saúde para identificar precocemente possíveis surtos por meio do monitoramento de padrões de sintomas, como síndromes febris, respiratórias, diarreicas e arboviroses. Diferentemente dos sistemas baseados apenas na confirmação laboratorial, essa abordagem prioriza a rapidez e a sensibilidade na identificação de sinais iniciais de circulação de doenças. Esses sinais podem ser captados em diferentes fontes de informação. Um aumento repentino na procura por atendimento devido a febre e tosse em unidades básicas de saúde, por exemplo, pode indicar o início de um surto respiratório. O sistema ÆSOP integra dados da Atenção Primária à Saúde (APS), registrados no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB), e informações sobre vendas de medicamentos isentos de prescrição (MIP) adquiridos da IQVIA, uma multinacional especializada em dados, tecnologia e pesquisa para o setor de saúde. Um país, múltiplos cenários O desempenho do ÆSOP não foi uniforme em todo o país, com diferenças inter-regionais que refletem desigualdades na organização dos serviços de saúde, no acesso à assistência e nos padrões de consumo de medicamentos. Em cerca de três quartos do território brasileiro, pelo menos uma das fontes apresentou boa performance, demonstrando que em um país continental e heterogêneo como o Brasil diferentes sistemas de vigilância precisam atuar de forma complementar. Outro resultado relevante foi a