PCC e CV: por que a decisão dos EUA pode produzir efeitos muito além das fronteiras americanas

Nitish Monebhurrun, Centro Universitário de Brasília (CEUB) A recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras provocou um debate que vai muito além da segurança pública. A questão central não é apenas saber se essas organizações representam uma ameaça grave à segurança, pois sobre isso já existe amplo consenso. A problemática reside no fato de que Brasil e Estados Unidos passaram a utilizar categorias jurídicas distintas para descrever os mesmos grupos. No ordenamento jurídico brasileiro, PCC e CV são tradicionalmente tratados como organizações criminosas. No Brasil, a Lei nº 12.850/2013 foi concebida para enfrentar grupos estruturados que se dedicam à prática organizada de infrações penais graves ou transnacionais. É nesse marco jurídico, e não na legislação antiterrorismo, que as facções brasileiras têm sido normalmente enquadradas pelas autoridades nacionais. A Lei Antiterrorismo nº 13.260/2016 adota uma definição relativamente restritiva de terrorismo. O artigo 2 exige não apenas a prática de determinados atos violentos, mas também a presença de motivações específicas, como xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, associadas à finalidade de provocar terror social ou generalizado. Por essa razão, embora as facções brasileiras pratiquem atos de extrema violência e exerçam controle territorial em algumas regiões, seu enquadramento na legislação antiterrorismo permanece controverso no debate jurídico brasileiro. Na prática, as autoridades brasileiras tendem a tratá-las prioritariamente como organizações criminosas. Os Estados Unidos seguem uma lógica diferente. A Seção 219 do Immigration and Nationality Act (INA) permite que o Secretário de Estado classifique determinadas entidades como organizações terroristas estrangeiras. Nos últimos anos, esse instrumento passou a ser utilizado não apenas contra grupos tradicionalmente associados ao terrorismo internacional, como Al-Qaeda e Estado Islâmico, mas também contra determinadas organizações criminosas transnacionais consideradas ameaças à segurança nacional ou aos interesses norte-americanos. Cartéis mexicanos como o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nueva Generación, assim como grupos criminosos latino-americanos como a Mara Salvatrucha (MS-13) e o Tren de Aragua, passaram a ser tratados dentro de uma lógica jurídica semelhante. A classificação do PCC e do Comando Vermelho insere-se nessa tendência de expansão das ferramentas do contraterrorismo para além dos grupos tradicionalmente associados ao extremismo político ou religioso. A divergência entre Brasil e Estados Unidos não é apenas terminológica. Ela reflete duas formas distintas de compreender o fenômeno. Enquanto o modelo brasileiro continua separando relativamente bem terrorismo e criminalidade organizada, o modelo norte-americano aproxima essas categorias quando determinadas organizações passam a representar riscos transnacionais significativos. Essa diferença de enquadramento jurídico ajuda a explicar por que uma decisão tomada em Washington pode produzir consequências econômicas concretas em território brasileiro. O que muda quando uma organização é classificada como terrorista? A classificação de uma entidade como organização terrorista estrangeira não constitui apenas uma declaração política. Ela produz efeitos jurídicos concretos no âmbito do direito norte-americano. Além da Seção 219 do Immigration and Nationality Act, a designação aciona mecanismos previstos no International Emergency Economic Powers Act (Lei sobre os Poderes Econômicos de Emergência Internacional) e na Executive Order 13224 (Ordem Executiva sobre bloqueio de bens e combate ao financiamento do terrorismo). Esses instrumentos autorizam o bloqueio de ativos e a adoção de medidas contra indivíduos e entidades que prestem apoio material, financeiro ou logístico a organizações classificadas como terroristas. Sendo assim, PCC e CV deixam de ser vistos apenas como organizações criminosas para ingressar em um regime jurídico originalmente concebido para o combate ao terrorismo internacional. É justamente essa mudança de enquadramento que amplia os potenciais efeitos da medida. Uma decisão americana com efeitos globais Tradicionalmente, os Estados exercem sua jurisdição sobre fatos ocorridos em seu território. O direito internacional, contudo, admite exceções. Em determinadas circunstâncias, um Estado pode exercer jurisdição com base na nacionalidade do autor do fato, na nacionalidade da vítima, na proteção de interesses essenciais do Estado ou até mesmo em razão da gravidade de determinados crimes. Por exemplo, um Estado pode julgar seus próprios nacionais por crimes cometidos no exterior, hipótese conhecida como princípio da personalidade ativa; processar autores de atentados praticados contra seus cidadãos no estrangeiro, com fundamento no princípio da personalidade passiva; proteger interesses fundamentais de sua segurança nacional, como em casos de espionagem ou terrorismo, por meio do princípio protetivo; ou ainda exercer jurisdição sobre certos crimes considerados particularmente graves para a comunidade internacional, como genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e pirataria, independentemente do local de sua ocorrência, no âmbito da chamada jurisdição universal. A política antiterrorismo norte-americana combina alguns desses fundamentos tradicionais com um elemento adicional: a posição central dos Estados Unidos no sistema financeiro internacional. Embora os Estados Unidos não possam aplicar diretamente sua legislação penal em território brasileiro, a relevância do dólar nas transações internacionais e a centralidade do sistema financeiro norte-americano fazem com que determinadas decisões regulatórias produzam efeitos muito além das fronteiras americanas. O regime de sanções administrado pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), órgão vinculado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, afeta bancos, seguradoras, fundos de investimento e empresas que mantenham relações relevantes com o mercado norte-americano. É por isso que uma operação realizada inteiramente no Brasil pode tornar-se objeto de atenção de investidores estrangeiros caso exista o risco de exposição direta ou indireta a organizações classificadas como terroristas. Um exemplo hipotético ajuda a compreender o alcance da medida: uma empresa brasileira dos setores de combustíveis ou de infraestrutura em busca de financiamento internacional. Mesmo que o potencial investidor esteja sediado na Europa, na Ásia ou no Oriente Médio, a operação poderá envolver bancos que utilizam o sistema financeiro norte-americano além de transações em dólares ou instituições sujeitas às regras do OFAC. Nesse contexto, a simples percepção de risco de exposição direta ou indireta a organizações classificadas como terroristas pode levar à exigência de auditorias adicionais, deveres de diligência reforçados ou verificações detalhadas sobre sócios, fornecedores e beneficiários finais. O custo reputacional também entra em jogo e pode, em determinadas circunstâncias, desestimular a realização do investimento. O precedente de outros grupos

Um em cada quatro brasileiros ignora que o câncer pode ser prevenido, revela estudo inédito

Luciana Grucci Maya Moreira, Instituto Nacional de Câncer (INCA) e Luciana Vasconcelos Sardinha, Vital Strategies O Brasil deve registrar 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas do INCA (Instituto Nacional do Câncer). Ainda assim, 27% dos adultos brasileiros não sabem que a doença pode ser prevenida. O dado faz parte do relatório Mais Dados Mais Saúde — Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, realizado por Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do INCA. É o primeiro levantamento nacional representativo sobre o que os brasileiros sabem, pensam e fazem em relação à prevenção do câncer. Foram ouvidos 6.566 adultos de todos os estados do país entre setembro e outubro de 2025. Estimativas científicas indicam que até 40% dos cânceres poderiam ser evitados com mudanças de comportamento e de exposição ambiental. A crença de que a doença é inevitável pode representar uma barreira silenciosa à adoção de comportamentos protetores. O que os brasileiros reconhecem Entre os fatores comprovadamente associados ao aumento do risco de câncer, o tabagismo lidera o conhecimento da população: 90,5% reconhecem o fumo como fator de risco. A herança genética aparece em segundo (89,4%), seguida pela exposição solar excessiva (88,3%). Esses fatores têm em comum ampla cobertura midiática e histórico de campanhas públicas. Fatores igualmente relevantes do ponto de vista epidemiológico são bem menos reconhecidos. O excesso de peso é associado ao câncer por 54,1% da população. As bebidas adoçadas e a baixa ingestão de frutas e verduras são reconhecidas como fatores de risco por 55,3% e 53,3%. O sedentarismo são identificadas por 48,3%. A carne vermelha é reconhecida como fator de risco por menos de três em cada dez brasileiros (27,5%). A herança genética merece contextualização. Sem informação sobre os fatores modificáveis, o alto reconhecimento desse fator pode reforçar uma percepção fatalista do câncer como condição predeterminada e inescapável. Crenças equivocadas A pesquisa também revelou percepções equivocadas. Mais de 61% dos brasileiros acreditam que suplementos de vitaminas e minerais reduzem o risco de câncer. De acordo com a área técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do INCA, não há evidências de que suplementos de vitaminas e minerais previnam a doença. A recomendação é obter nutrientes protetores por meio de alimentação saudável, rica em alimentos in natura e minimamente processados. Suplementos só devem ser indicados por profissionais de saúde em situações clínicas específicas, evitando gastos desnecessários e uma falsa sensação de proteção estimulada pelo marketing da indústria de suplementos. Por outro lado, quatro em cada dez brasileiros ainda não reconhecem o aleitamento materno como fator de proteção para o câncer de mama. A amamentação reduz o risco para quem amamenta, com efeito dose-resposta: quanto maior o tempo, maior o benefício. Comportamento alimentar Cerca de 45% dos entrevistados relataram consumir ultraprocessados e tentativas de reduzir o consumo — proporção superior à dos que não consomem (33%) e a dos que consomem sem tentativa de redução (cerca de 15%). Padrão semelhante foi observado para embutidos e bebidas adoçadas. Com a carne vermelha, o quadro é diferente: cerca de 45% dizem consumir sem ter tentado reduzir, o maior índice entre os grupos analisados. Esse padrão é consistente com os baixos níveis de reconhecimento da carne vermelha como fator de risco e merece atenção especial no contexto brasileiro, país que figura entre os maiores produtores de gado do mundo. Os jovens de até 24 anos concentram os piores indicadores: 32,3% consomem ultraprocessados sem intenção de reduzir; 24,4% fazem o mesmo com bebidas adoçadas, 29,5% com embutidos e 49,1% com carne vermelha. Os mais jovens também apresentam menor conhecimento dos fatores de risco associados a esses alimentos. Cerca de 86,3% da população afirmam consumir frutas, legumes e verduras — e entre os que não consomem, 8,3% têm intenção de começar. Sedentarismo, peso corporal e álcool Em relação à atividade física, 52,2% praticam alguma atividade. Entre os que não praticam, 39% querem começar. Pessoas com renda de até R$ 2.000 apresentaram menor conhecimento sobre o sedentarismo como fator de risco (45,5%) em comparação àquelas com renda igual ou superior a R$ 10.000 (59,6%). Sobre peso corporal, 48,8% se declaram com peso saudável. Entre os que reconhecem ter excesso de peso, 31% afirmam estar fazendo algo a respeito — número que cai para 22,9% entre pessoas com renda menor do que R$ 2.000, contra mais de 40% entre o grupo com renda acima de R$ 3.000. A inatividade física não é uma questão de escolha individual: falta de espaços públicos seguros, jornadas de trabalho longas e acesso desigual a áreas de lazer são parte do problema. Isso também se reflete no acesso desigual a alimentos saudáveis. Quanto ao álcool — substância associada a pelo menos oito tipos de câncer — apenas 71,3% dos brasileiros o reconhecem como fator de risco. Metade da população (50,1%) afirma não consumir bebidas alcoólicas; entre os que consomem, 32,5% já tentaram reduzir. Os jovens de até 24 anos são os que menos têm intenção de reduzir: 16,9% dizem beber sem pretender diminuir o consumo, contra 8,7% na faixa de 25 a 59 anos e 7,1% entre os maiores de 60 anos. Mais dados, mais políticas Os resultados evidenciam um padrão claro: fatores de risco com ampla cobertura midiática e histórico de campanhas públicas são amplamente reconhecidos, enquanto fatores ligados ao estilo de vida contemporâneo — alimentação, peso, sedentarismo e álcool — ainda escapam do radar. Ao mesmo tempo, uma parcela expressiva da população demonstra intenção de adotar hábitos mais saudáveis. Converter essa intenção em mudança real exige uma agenda integrada: campanhas que ampliem o conhecimento sobre fatores de risco menos conhecidos; políticas estruturais como taxação de ultraprocessados, álcool e tabaco, rotulagem frontal de alimentos e ampliação de espaços para atividade física; e fortalecimento dos serviços de saúde, com expansão do acesso ao diagnóstico precoce e aos programas de cessação do tabagismo — com atenção especial às populações mais vulneráveis. Luciana Grucci Maya Moreira, Nutricionista Chefe da Área Técnica de Alimentação,

Como a migração se tornou chave para o sucesso na Copa do Mundo

Marrocos foi a seleção que contou com mais jogadores nascidos no exterior do que qualquer outra na Copa do Mundo da Fifa de 2022 e acabou sendo a primeira equipe africana a chegar nas semifinais do torneio. Abdelrahman Emam / Shutterstock Ben Brindle, University of Oxford Poucos teriam previsto o sucesso de Marrocos na Copa do Mundo da Fifa de 2022. Antes do torneio, a seleção ocupava a 22ª posição no ranking mundial e nunca havia passado das oitavas de final. Mas derrotou a Bélgica, a Espanha e Portugal – países que, tanto na época como atualmente, figuram entre os dez melhores do mundo – a caminho de se tornar a primeira nação africana a chegar às semifinais de uma Copa. A campanha de Marrocos não foi apenas notável (e totalmente merecida). Ela também gerou debate além do futebol, pois 14 dos 26 jogadores do elenco nasceram fora do país, mais do que qualquer outra nação no torneio. A Copa do Mundo de 2026 contará com mais jogadores nascidos no exterior do que qualquer edição anterior. Quase um quarto dos 1.248 jogadores convocados para as seleções nacionais nasceram em um país diferente daquele que irão representar. Em algumas seleções, as proporções são muito maiores do que isso – 96% dos jogadores de Curaçao nasceram no exterior, assim como 85% dos da República Democrática do Congo e 73% dos de Marrocos. No total, os jogadores nascidos no exterior constituem a maioria dos integrantes em oito das 48 seleções do torneio. CC BY-NC-ND A migração faz parte da história da Copa do Mundo desde o seu início. Na terceira edição do torneio, em 1938, por exemplo, 12% dos jogadores representavam um país diferente daquele em que nasceram. Isso se deveu, em parte, ao fato de a Fifa não ter introduzido regulamentos que estabelecessem a elegibilidade dos jogadores de futebol para as seleções nacionais até 1962, o que significa que não era incomum que jogadores representassem vários países ao longo de suas carreiras. Alguns jogadores representam países diferentes daqueles em que nasceram porque são elegíveis por meio de um dos pais ou avós. Esses jogadores geralmente surgem de comunidades da diáspora criadas por ondas anteriores de migração. Um exemplo é Ivan Rakitić, finalista da Copa do Mundo de 2018. Ele nasceu e foi criado na Suíça, mas escolheu representar a Croácia. Em uma entrevista de 2025, Rakitić explicou que, quando teve que escolher entre os dois países, seu coração lhe disse que ele deveria jogar pela Croácia. Outros jogadores se qualificam por meio de requisitos de residência. Pepe, por exemplo, nasceu no Brasil, mas disputou quatro Copas do Mundo por Portugal entre 2010 e 2022, após se tornar cidadão português aos 24 anos. Jogadores nascidos no exterior, no entanto, são apenas parte da história. As seleções da Copa do Mundo também contam com muitos imigrantes de segunda geração. A seleção francesa campeã da Copa do Mundo de 2018 é talvez o exemplo mais conhecido: 12 dos 23 jogadores tinham pais africanos. Esses padrões não são aleatórios. A seleção francesa reflete os laços coloniais e pós-coloniais do país com o norte e o oeste da África. Da mesma forma, desde meados dos anos 2000, a seleção suíça tem sido cada vez mais moldada pela migração proveniente da antiga Iugoslávia, na sequência dos conflitos e deslocamentos que acompanharam a sua dissolução na década de 1990. A seleção da Inglaterra para 2026 também conta uma história sobre o passado migratório do país. Além de Marc Guéhi, nascido na Costa do Marfim, pelo menos nove jogadores têm um dos pais nascido no exterior. A maioria tem raízes familiares em antigas colônias britânicas na África e no Caribe, refletindo os padrões de migração para o Reino Unido após a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, 24 jogadores nascidos na Inglaterra foram selecionados por outras seleções para a Copa do Mundo. Isso inclui cinco que representam a Escócia e 19 que jogam por países fora das Ilhas Britânicas (incluindo os EUA, a Nova Zelândia e Gana). Isso faz diferença em campo? Poucos estudos examinaram se seleções com mais jogadores migrantes têm melhor desempenho em campo. Mas as evidências disponíveis sugerem que sim. Um estudo de 2022 analisou todas as Copas do Mundo entre 1970 e 2018 e descobriu que as seleções com mais jogadores nascidos no exterior geralmente avançavam mais no torneio. Em média, cada jogador adicional nascido no exterior estava associado a cerca de 0,15 partida disputada a mais. Essa relação se manteve mesmo após levar em conta diferenças mais amplas entre os países, sugerindo que a migração pode oferecer vantagens além daquelas associadas apenas à riqueza ou à tradição futebolística. Outro estudo de 2023 examinou as seleções europeias que disputaram Copas do Mundo e Campeonatos Europeus entre 1970 e 2018. Usando os sobrenomes dos jogadores para estimar suas origens ancestrais, o estudo mediu a diversidade de origens dentro de cada elenco e descobriu que equipes mais diversificadas tendiam a ter um desempenho melhor, em média. Especificamente, a pesquisa constatou que um aumento de um desvio padrão na diversidade levava a um aumento na diferença de gols (o número de gols que uma equipe marca menos o número de gols que sofre) de cerca de 1,3 por partida, em média. Há pelo menos dois fatores que podem explicar esses resultados. Primeiro, a migração pode ampliar o leque de jogadores disponíveis para uma seleção nacional. A seleção de Gana para o torneio de 2026 conta fortemente com comunidades da diáspora na Europa Ocidental. Isso permite que ela recrute jogadores formados em alguns dos sistemas de futebol mais fortes do mundo. Segundo, a migração pode aumentar a diversidade de habilidades disponíveis dentro de um elenco. Jogadores de futebol precisam de características físicas específicas e habilidades técnicas para ter sucesso em campo. Os zagueiros centrais, por exemplo, costumam ser altos e fisicamente fortes. Já os jogadores mais ofensivos, por outro lado, geralmente precisam de velocidade. Uma população mais diversificada provavelmente proporcionará um leque maior de jogadores em potencial para cada

A altura importa? O corpo masculino e a pressão estética de ser baixo

insatisfação corporal também está presente na população masculina e estudos recentes indicam que ela está associada à percepção do próprio corpo, à comparação social e ao bem-estar psicológico, bem como a comportamentos relacionados à alimentação ou à musculatura. Pixel-Shot/shutterstock Antoni Aguiló Bonet, Universitat de les Illes Balears O músico e escritor Abraham Boba publicou 163 centímetros, um ensaio autobiográfico sobre o que significa viver sendo um homem com estatura abaixo da média. À primeira vista, poderia parecer um assunto trivial. Mas a altura, como outros traços corporais, não é socialmente neutra. Durante décadas, a pesquisa acadêmica sobre imagem corporal se concentrou quase exclusivamente nas mulheres. A pressão estética sobre elas, da magreza à juventude, foi analisada como um mecanismo de controle social e de desigualdade de gênero. Pesquisas mostram, porém, que a insatisfação corporal também está presente na população masculina. Estudos recentes realizados em contextos europeus indicam que ela está associada à percepção do próprio corpo, à comparação social e ao bem-estar psicológico, bem como a comportamentos relacionados à alimentação ou à musculatura. Nesse sentido, a insatisfação corporal masculina não é um fenômeno marginal, mas uma dimensão crescente da saúde mental na população em geral. Altura e normas sociais A altura masculina constitui um traço com implicações sociais. Numerosos estudos documentaram a existência da chamada “norma do homem mais alto” (male-taller norm): a expectativa cultural de que os homens sejam mais altos que suas parceiras. Estudos recentes confirmam que essa preferência não apenas persiste, mas que a altura é mais valorizada como um traço importante pelas mulheres do que pelos homens na escolha de parceiras ou parceiros. A altura é culturalmente associada a traços como liderança ou proteção, o que ajuda a explicar por que pode influenciar a percepção de atratividade ou de status social. Nesse sentido, um traço aparentemente trivial, alguns centímetros a mais ou a menos, pode ter consequências em âmbitos tão diversos quanto as relações afetivas ou a autoestima. O interesse de livros como o de Boba reside precisamente em tornar visível como características corporais aparentemente banais podem se converter em experiências sociais significativas. O corpo: capital erótico, cultural ou social Para compreender por que o corpo adquire tanta relevância social, alguns sociólogos recorreram ao conceito de capital erótico, proposto pela socióloga britânica Catherine Hakim e posteriormente discutido por autores como José Luis Moreno Pestaña em seu trabalho sobre corpo, estética e desigualdade. Esse conceito descreve o conjunto de atributos relacionados à aparência física (beleza, estilo, encanto ou forma corporal) que podem se traduzir em vantagens sociais ou profissionais em determinados âmbitos da vida social. Nesse sentido, o corpo pode ser entendido como uma forma de recurso social que, em determinados contextos, opera de maneira análoga a outras formas de capital descritas por Pierre Bourdieu, como o capital cultural, isto é, as competências, habilidades e conhecimentos que permitem a certos grupos obter reconhecimento e status. Masculinidade e silêncio corporal Apesar dessa pressão, existe uma diferença cultural importante entre homens e mulheres: a forma como se fala do corpo. Nas últimas décadas, as mulheres desenvolveram movimentos sociais e culturais que questionam os padrões de beleza, como o body positive, com raízes em tradições feministas e interseccionais, voltados a promover uma maior aceitação corporal diante dos ideais normativos dominantes. Esses movimentos contribuíram para tornar visível o impacto psicológico e social dos cânones corporais e, segundo pesquisas recentes, a exposição a conteúdos body positive está associada a melhorias na satisfação corporal e no bem-estar emocional. Em contrapartida, o mal-estar corporal masculino costuma se expressar de forma mais indireta. Diversos estudos qualitativos assinalam que os homens tendem a abordar sua relação com o corpo como uma trajetória de mudança e gestão. Os homens descrevem sua relação com o corpo por meio de práticas concretas, como exercício físico, dieta ou mudanças corporais, que organizam sua experiência corporal em termos de ação. Assim, o corpo masculino se apresenta como algo que se modifica, se administra e se otimiza ao longo do tempo, mais do que como uma realidade centrada na expressão direta do mal-estar ou da vulnerabilidade estética. Essa diferença tem sido relacionada a normas tradicionais de masculinidade que valorizam o autocontrole e limitam a expressão pública do mal-estar corporal ou emocional. Nesse sentido, algumas autoras apontaram que a pressão estética não opera apenas como uma exigência externa, mas como uma forma de violência interiorizada que estrutura a relação com o próprio corpo, como propõe Elena Crespi. Falar do corpo masculino Nesse contexto, textos autobiográficos como o de Abraham Boba podem ser interpretados como parte de uma mudança cultural mais ampla: o início de uma conversa pública sobre o corpo masculino. Mais do que inaugurar um tema novo, essas narrativas contribuem para tornar visíveis experiências que, durante muito tempo, permaneceram pouco nomeadas. Compreender essas dinâmicas é relevante não apenas para analisar as mudanças culturais em torno da masculinidade, mas também para abordar suas implicações na saúde mental e no bem-estar. Por isso, o crescente interesse acadêmico pela imagem corporal masculina reflete uma mudança na forma de entender a relação entre corpo, gênero e bem-estar, e abre novas linhas de pesquisa sobre suas implicações sociais e psicológicas. Antoni Aguiló Bonet, Profesor Titular Laboral, Universitat de les Illes Balears This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Na Copa do Mundo, a paixão pelo futebol terá uma forte concorrente: a obsessão pelas apostas

David Nemer, University of Virginia Desde 1958, a Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo para o Brasil. Faz parte da identidade do país. Mas a partir do próximo dia 11 de junho, quando começar a Copa dos EUA, México e Canadá, as dezenas de milhões de brasileiros que acompanharão os jogos pela TV e internet vão compartilhar – pela primeira vez em larguíssima escala – um outro tipo de emoção além da felicidade das vitórias e a frustração das derrotas: a perigosa roleta-russa emocional e financeira das apostas. Durante a maior parte da história do futebol, torcedores de todo o mundo comemoravam gols, grandes defesas, jogadas habilidosas, viradas e vitórias. Agora, plataformas online dividiram o jogo em centenas de pequenas apostas financeiras. Os torcedores podem apostar no placar final, mas também em cartões amarelos e vermelhos, escanteios, laterais, chutes a gol, defesas, faltas e quase todas as estatísticas que o jogo produz. Essa mudança altera o que o futebol significa emocionalmente para muitos de seus torcedores. Por exemplo: alguém pode torcer por um escanteio contra o próprio time se isso ajudar na aposta. Pode-se torcer para que um zagueiro receba um cartão amarelo, mesmo que isso seja ruim para o time. Alguns podem se importar menos com como o Brasil está jogando e mais com quanto tempo de acréscimo haverá para ter outra chance de ganhar uma aposta. Não se trata simplesmente de tornar a partida mais divertida. Isso transforma a paixão pelo esporte em uma transação. A magia do futebol vem de todos compartilharem a mesma esperança por um gol. As apostas quebram esse vínculo. Agora, uma falta não é apenas uma falta, é uma chance de ganhar dinheiro. Um escanteio se torna uma forma de lucrar. Apostas e custos sociais Isso é especialmente importante no Brasil, onde as apostas online agora fazem parte do dia a dia de muitas pessoas. As apostas com odds fixas se tornaram legais em 2018, mas a regulamentação de verdade só veio muito depois. Entre 2018 e 2024, as empresas cresceram rapidamente em uma área cinzenta da regulamentação, enchendo o futebol e as redes sociais com anúncios de apostas. Quando o mercado foi regulamentado em 2025, as apostas já estavam em toda parte. Os números revelam o quão grande isso se tornou. Em 2025, o Brasil ficou em quinto lugar no mundo em receita de apostas online — os Estados Unidos ficaram em primeiro, seguidos pelo Reino Unido, Itália e Rússia. Integrantes de cerca de 26,3% dos lares brasileiros fizeram algum tipo de aposta esportiva. No ano passado, 39,5 milhões de brasileiros utilizaram plataformas de apostas. Só no primeiro trimestre de 2025 os sites de apostas no Brasil registraram mais de 5 bilhões de visitas — mais de 650 por segundo. Dados do Banco Central mostraram que os brasileiros movimentavam até R$ 30 bilhões (US$ 6 bilhões) por mês por meio dessas plataformas. Os custos sociais são evidentes. Dezenove por cento dos apostadores, cerca de 7,5 milhões de pessoas, afirmaram ter gasto dinheiro com jogos de azar de forma a comprometer sua renda de subsistência. Quarenta e um por cento abriram mão de outras compras para apostar. Dezessete por cento deixaram de pagar uma conta para jogar. Vinte e nove por cento acabaram em listas de inadimplentes por causa das apostas. O gasto médio mensal foi de R$ 187, e para os apostadores de baixa renda, foi de R$ 151,98. Para famílias pobres, esse dinheiro poderia ter sido melhor gasto em alimentação, transporte, fraldas, luz ou aluguel. E isso não é um problema exclusivamente brasileiro. Uma pesquisa nos EUA descobriu que quase um terço dos apostadores da Pensilvânia está em risco de desenvolver problemas com o jogo. Na Austrália, os danos causados pelo jogo provavelmente são subnotificados, enquanto no Reino Unido uma pesquisa mostrou que os jogadores não compreendem o verdadeiro custo das chamadas “apostas grátis” — ofertas como bônus de boas-vindas no primeiro depósito e outros incentivos financeiros. Ligações com a masculinidade Nas favelas do Brasil, apostar raramente é apenas um passatempo, como observei durante dois anos de trabalho de campo em comunidades carentes da cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. As pessoas veem isso como uma esperança — uma maneira de esticar um pouco o dinheiro quando os salários não são suficientes. Um jovem me contou que começou a apostar porque um colega de trabalho disse que um aplicativo “dava dinheiro”. Ele resumiu assim: “quem não quer ganhar dinheiro hoje em dia?”. Outro destacou que as pessoas só compartilham seus ganhos, não suas perdas. Muitos sabiam que as probabilidades estavam contra eles. Como disse uma pessoa: “quem realmente ganha são os donos das plataformas”. As apostas em futebol também estão ligadas a noções de masculinidade. Muitos dos jovens com quem conversei viam as apostas esportivas como uma forma de mostrar seu conhecimento, controle e habilidade sobre o tema. Apostar no futebol era prova de que você entendia de times, desempenho, posse de bola, rivalidades e odds. Barbearias e grupos do WhatsApp se tornaram lugares onde os homens compartilham dicas e conselhos. Uma pessoa me disse que apostar era mais comum entre os homens porque se trata de futebol; outra disse que os jovens “vão mais fundo”, arriscando mais dinheiro para ganhos maiores. Não é que as mulheres não apostem; elas apostam. Mas as apostas em futebol costumam carregar uma imagem masculina: o homem como especialista, estrategista e provedor. Quando o dinheiro está curto, as apostas dizem aos jovens que eles podem transformar conhecimento de futebol em dinheiro, e dinheiro em orgulho. Perder é vergonhoso, então os ganhos são exibidos, e prejuízos são mantidos em segredo. Essa demonstração de controle esconde o fato de que a plataforma é quem realmente manda. Regras e regulamentações mais rígidas A Copa do Mundo de 2026 tornará tudo isso ainda maior. Haverá jogos diários, orgulho nacional, anúncios com celebridades, dicas de influenciadores, links de apostas, transferências instantâneas de dinheiro via pix e mercados ao vivo durante os jogos. O