Pequenas violências, grandes sofrimentos: o bullying na educação infantil e as formas de combatê‑lo

Luciene Tognetta, Universidade Estadual Paulista (Unesp) O bullying tem sido amplamente investigado nas últimas décadas como uma forma específica de violência entre pares, caracterizada por relações repetidas de humilhação, exclusão e desequilíbrio de poder. Embora frequentemente associado aos anos finais do Ensino Fundamental e à adolescência, suas dinâmicas relacionais podem surgir muito precocemente, inclusive na Educação Infantil, período em que as crianças iniciam processos mais complexos de socialização, construção da identidade e busca por pertencimento no grupo. Em 2026, o governo brasileiro estabeleceu no Plano Nacional de Educação como uma diretriz a ampla articulação intersetorial e a implementação de políticas públicas intencionais voltadas à convivência escolar. Ao destacar a importância da qualificação dos profissionais para identificar, intervir e prevenir casos de bullying e cyberbullying, o PNE reforça a necessidade de que as escolas sejam preparadas para atuar tanto na prevenção quanto na intervenção a tais problemas. Nesse cenário, a Educação Infantil ganha importância central. Se as dinâmicas de exclusão, humilhação e disputa por valor começam precocemente, também é desde cedo que as práticas de convivência ética precisam ser ensinadas e vividas. Problema já pode surgir na mais tenra infância As manifestações do bullying podem surgir muito precocemente, a partir dos 18 meses de idade. Essa referência etária não é uma escolha arbitrária ou “cabalística”, mas está relacionada a um marco importante do desenvolvimento psicológico: a constituição da identidade humana. Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, especialmente a partir dos estudos de Jean Piaget e de autores que investigaram a formação do eu, por volta dos 18 meses a criança passa a reconhecer sua própria imagem no espelho e, ao olhar-se, compreende, ainda de maneira inicial e emocional, que ela existe como alguém separado do mundo. Nesse momento do desenvolvimento, a criança entende que, se ela pode olhar para si mesma, também pode ser vista pelos outros. E, se existem outros, esses outros possuem desejos, vontades e interesses diferentes dos seus. É o início mais profundo da socialização humana. Com isso, aquilo que já existia anteriormente — a necessidade de atenção, afeto e valor — torna-se ainda mais intenso. Agora a criança não vive mais em um mundo centrado apenas em si mesma. Ela passa a disputar espaço simbólico e afetivo em um universo compartilhado. É justamente nesse contexto que as influências do meio ganham enorme importância. Crianças que convivem com relações negligentes, excessivamente autoritárias, humilhantes ou pouco afetivas podem desenvolver sentimentos mais intensos de desvalor, insegurança ou rejeição. Outras, ao contrário, podem aprender que só ocupam um lugar de reconhecimento quando dominam, impõem-se ou diminuem alguém. É nesse terreno relacional que começam a surgir comportamentos de domínio-submissão que mais tarde podem evoluir para dinâmicas iniciais de bullying. Um exemplo bastante comum de manifestações iniciais de bullying na Educação Infantil aparece em situações aparentemente simples, quando algumas crianças começam a aumentar suas histórias, inventar detalhes ou criar situações grandiosas durante as conversas, numa espécie de disputa por reconhecimento e admiração. Do ponto de vista dos estudos de Jean Piaget, essas falas nem sempre podem ser compreendidas como “mentiras” no sentido moral adulto. São o que chamamos de pseudomentira: uma fala exagerada ou inventada que não possui a intenção consciente de enganar o outro de maneira maldosa, mas que surge porque a criança deseja ser admirada, valorizada ou incluída. Trata-se de uma tentativa ainda imatura de conquistar reconhecimento social. Quando observamos apenas os comportamentos isolados, muitos desses episódios parecem pequenos, banais ou até entendidos pelos adultos como “coisas da idade”, “brincadeiras” ou simples conflitos infantis. No entanto, quando olhamos para quem ocupa sempre o mesmo lugar nessas interações, começamos a perceber o sofrimento silencioso que se instala nas relações. E o problema aparece quando essa dinâmica se transforma em um padrão de convivência em que uma criança constantemente precisa diminuir a experiência do outro para sentir-se superior — elementos que estruturam as relações de bullying. O grande desafio é que, muitas vezes, os adultos não possuem elementos suficientes para intervir justamente porque essas situações nunca foram reconhecidas como bullying. Foram naturalizadas como brincadeiras, traços de personalidade ou conflitos passageiros. Assim, o sofrimento da criança permanece invisível. Método de Preocupação Compartilhada Na pequena infância, as manifestações de bullying nem sempre aparecem de maneira explícita ou facilmente identificável pelos adultos. Por serem frequentemente interpretadas como “brincadeiras”, “birras” ou comportamentos típicos da idade, essas situações tendem a ser invisibilizadas, dificultando intervenções precoces e favorecendo a consolidação de formas silenciosas de sofrimento emocional. Tanto na infância como na adolescência, compreender o bullying como um fenômeno de grupo exige superar perspectivas centradas apenas na punição individual de comportamentos agressivos. As pesquisas na área já mostraram que práticas exclusivamente punitivas não modificam as relações que sustentam a violência, tampouco promovem o desenvolvimento moral e emocional das crianças. Ao contrário, intervenções fundamentadas em princípios restaurativos apresentam maiores possibilidades de transformação das dinâmicas interpessoais, pois buscam restaurar vínculos, responsabilizar os envolvidos sem humilhação e fortalecer a empatia, o diálogo e o pertencimento coletivo. É nesse contexto que se destaca o Método de Preocupação Compartilhada (MPC), desenvolvido originalmente pelo professor Anatol Pikas e adaptado por nós ao contexto brasileiro. O método parte do princípio de que o enfrentamento do bullying deve ocorrer por meio da investigação cuidadosa das relações, da escuta qualificada dos envolvidos e da mobilização individualizada de todos os envolvidos. Mais do que uma técnica de intervenção, o MPC propõe uma mudança de olhar sobre a convivência escolar. Seu foco não está apenas nos episódios de agressão, mas nas relações de poder, não pertencimento e exclusão que sustentam os problemas de convivência. Na Educação Infantil, essa perspectiva torna-se ainda mais relevante, pois permite reconhecer precocemente sinais de sofrimento e atuar preventivamente na construção de ambientes democráticos, acolhedores e cooperativos. Observação atenta e escuta qualificada Uma parte inegociável do MPC e, talvez, uma de suas dimensões mais importantes é a investigação. Antes das entrevistas, antes das intervenções e antes mesmo das conversas restaurativas, o método exige um trabalho cuidadoso de observação. É o momento em que nos

Vereador questiona pagamento de R$ 83 mil mensais por sistema de estacionamento rotativo que não funciona

O vereador Ricardo Gringo (Republicanos) denunciou, durante a 32ª reunião ordinária da Câmara de Ouro Preto, que a Secretaria Municipal de Segurança Pública paga mensalmente R$ 83 mil por um sistema de estacionamento rotativo que não está em funcionamento. Segundo o vereador, o serviço envolve veículos com câmeras para leitura de placas e gerenciamento de vagas rotativas, mas nunca foi implantado de fato na cidade. A denúncia foi feita no contexto do debate sobre os cortes de benefícios da Guarda Civil Municipal. “É muito mais fácil cortar num serviço que não está sendo utilizado, 83 mil reais, ou cortar o cartão da Guarda Municipal? Fica muito fácil a questão de gerir o dinheiro público”, disse Gringo. Segundo ele, o custo mensal do contrato inoperante supera o valor do vale-refeição pago a todos os guardas, estimado em cerca de R$ 70 mil mensais. “Paga-se 83 mil reais por um serviço que não está sendo utilizado em Ouro Preto. O rotativo não está sendo utilizado. Por que não corta?”, questionou o vereador no plenário.

Ebola: por que a África e o mundo continuam perigosamente despreparados para a próxima pandemia

Oyewale Tomori, Nigerian Academy of Science À medida que as notícias sobre um surto de ebola na África em meados de maio de 2026 se espalhavam, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um relatório sobre pandemias. O título é: “Um mundo à beira do abismo: prioridades para um futuro resiliente a pandemias”. O documento foi elaborado pelo Conselho Global de Monitoramento da Preparação da OMS. Ele expõe por que o mundo não está mais bem preparado para pandemias uma década depois que o ebola expôs lacunas perigosas. E seis anos depois que a COVID-19 transformou essas lacunas em uma catástrofe global. O relatório acrescenta que o investimento em preparação para pandemias não acompanhou o aumento do risco de novas pandemias. O Conselho Global de Monitoramento da Preparação é um órgão independente de monitoramento e prestação de contas criado em 2018 pela OMS e pelo Banco Mundial. Seu objetivo é fortalecer a preparação para crises globais de saúde. Ele é composto por líderes políticos, diretores de agências sanitárias e especialistas de renome mundial. Sua tarefa é fornecer avaliações do progresso global na construção e manutenção da capacidade de prevenir, detectar e responder a emergências em saúde. O relatório foi divulgado durante outra epidemia de ebola. Desta vez, com início na República Democrática do Congo. Em 17 de maio, a OMS declarou o surto como uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Isso significa que ele representa um risco para muitos países devido à disseminação internacional e, portanto, requer esforços coordenados globalmente. Como virologista e ex-administrador de saúde global, acredito que o diagnóstico e as recomendações do conselho de monitoramento são de vital importância para o gerenciamento de pandemias. Minha primeira observação sobre o relatório é que suas recomendações permanecem em grande parte não implementadas por muitos países. Isso é particularmente verdadeiro na África, onde as pandemias se proliferam e as epidemias de doenças se alastram e causam estragos. A África precisa, especialmente, construir confiança em sua própria capacidade de se preparar para surtos de doenças, preveni-los e controlá-los quando ocorrerem. Para alcançar isso, e em consonância com as recomendações, a África deve manter: monitoramento independente do risco de pandemia capacitação e retenção da força de trabalho em saúde acesso equitativo a contramedidas, como vacinas financiamento atenção política. Monitoramento independente do risco de pandemia Utilizando recursos e financiamento locais, os países africanos devem assumir a responsabilidade pela solução em saúde por meio do estabelecimento de sistemas de dados que defendam a soberania sanitária. Eles também devem garantir que os dados derivados da vigilância, pesquisa e processamento de patógenos sejam gerenciados com segurança e prestem contas às instituições africanas, e não a entidades estrangeiras. Acordos recentes com os EUA trouxeram essa questão à tona. Alguns estavam pedindo aos países africanos que cedessem seus dados de saúde ou liberassem generosamente seus patógenos em uma troca por financiamento de doadores. Mas os dados de saúde são um ativo inestimável para a saúde pública, o manejo clínico e a pesquisa. Eles ajudam os países a identificar doenças e desenvolver vacinas e tratamentos. O que os países africanos deveriam fazer, em vez disso, é mobilizar fundos de contrapartida de origem local. Esses recursos devem ser usados para criar um ambiente local que apoie e aprimore a capacidade de cientistas e pesquisadores locais de desenvolver inovações a partir de patógenos nacionais/naturais para benefícios globais. Duas instituições de saúde africanas devem estar no centro desses esforços: a Região Africana da OMS e os Centros Africanos de Controle de Doenças, uma agência da União Africana. Elas não devem competir, mas sim colaborar e liderar esses esforços por meio de sistemas centralizados de controle de doenças e painéis de acompanhamento. Profissionais de saúde Promover o bem-estar da força de trabalho da saúde resulta em crescimento, maior produtividade, orgulho nacional e lealdade. Isso também ajuda na retenção de profissionais de saúde a longo prazo. Os países africanos precisam priorizar a retenção de capacidade em vez da capacitação. Eles devem construir e manter um ambiente de trabalho propício, que envolva espaço físico e segurança psicológica. Também é necessária disponibilidade de recursos adequados para os sistemas de saúde funcionarem de forma eficaz e produtiva. Isso inclui materiais, instalações laboratoriais, suprimentos, reagentes e consumíveis para uma força de trabalho de saúde e pesquisadores africanos capacitados. Sob tais condições propícias, a força de trabalho da saúde pode se concentrar em questões de saúde relevantes e locais e encontrar soluções adequadas para elas. Acesso equitativo a medidas de combate A África não deve transigir na ratificação de pactos internacionais de saúde, que devem garantir transferência justa de tecnologia, com renúncias à propriedade intelectual e a construção de uma indústria regional robusta. Os países devem igualmente expandir a produção local de kits de diagnóstico laboratorial, vacinas e suprimentos médicos, bem como de produtos não médicos. Isso inclui luvas, equipamentos de proteção individual e máscaras. Isso reduzirá a dependência de doações externas e cadeias de abastecimento, tanto em crises globais quanto fora delas. Financiamento sustentável O maior desafio para muitos países africanos é o desperdício de recursos disponíveis e os gastos com prioridades equivocadas. Para resolver isso, os governos africanos devem se comprometer com um investimento doméstico sustentável na área da saúde. Ao mesmo tempo, devem utilizar financiamento misto (envolvendo tanto o setor público quanto o privado) para preencher as lacunas remanescentes. Iniciativas como o Fundo Africano para Epidemias oferecem um modelo prático para a constituição de reservas financeiras destinadas a respostas rápidas e lideradas localmente. O fundo, lançado em 2025, foi concebido para mobilizar recursos para apoiar esforços de preparação e resposta no combate a ameaças à saúde pública no continente. O Fundo Africano para Epidemias, embora relativamente novo, deve operar com o mais alto nível de prestação de contas, fornecendo atualizações regulares sobre contribuições, projetos apoiados e seu impacto na preparação, prevenção e controle de doenças na África. Atenção política sustentada Os líderes africanos devem manter a preparação para pandemias no topo da agenda política para garantir a alocação contínua de recursos e a