O que é evidência científica e o que é especulação sobre o El Niño que vem por aí

Regina Célia dos Santos Alvalá, CEMADEN; José Antônio Marengo, CEMADEN e Marcelo Seluchi, Universidad de Buenos Aires O El Niño é um fenômeno amplamente estudado e cada vez mais associado a impactos no clima e no meio ambiente em diversas áreas. Para este ano, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), uma das principais referências mundiais no diagnóstico e prognóstico do fenômeno, aponta uma probabilidade de 60% de desenvolvimento do “El Niño”, para o trimestre maio-junho-julho, chances que se elevam a mais de 90% a partir da próxima primavera, em setembro. Em outras palavras, é praticamente certo que o fenômeno se desenvolverá na segunda metade do ano. Atualmente vários jornais vêm noticiando a previsão de um El Niño de forte intensidade para o período 2026-2027. Mas é possível prever a intensidade do fenômeno com tanta antecedência? A verdade é que a previsão da intensidade do El Niño para a próxima primavera de 2026, atualmente, é motivo de especulações e, às vezes, de informações sensacionalistas. Os modelos acoplados de última geração permitem prever a evolução do El Niño com meses de antecedência, estimando as anomalias na temperatura do ar e seus possíveis impactos, o que possibilita a adoção de ações preventivas em áreas estratégicas. Por outro lado, modelos complexos que simulam o oceano e a atmosfera permitem prever, com antecedência de 1 a 3 meses, os possíveis impactos com precisão. Mas previsões com prazos maiores podem apresentar mais incertezas e levar a prognósticos incorretos. Primeiras observações do El Niño No século XIX, pescadores do norte do Peru e do Equador observaram, em algumas ocasiões próximas ao Natal, que um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial impactava a pesca, o que foi interpretado como um “sinal” para deixar de trabalhar e celebrar o nascimento do “El Niño” Jesus, dando, assim, nome ao fenômeno. Mais tarde, na década de 1920, o cientista Gilbert Thomas Walker (1868-1958) identificou que este fenômeno estava associado a diferenças na pressão atmosférica observadas entre regiões do Oceano Pacífico, bem como a mudanças na velocidade dos ventos na região equatorial, que, por sua vez, alteravam as correntes oceânicas que regulam a temperatura do mar. A partir da década de 1980, o fenômeno passou a ser extensamente estudado, após o El Niño intenso de 1982-83. O que é El Niño? El Niño é um fenômeno climático-oceânico que ocorre no Oceano Pacífico tropical, quando as águas da região equatorial centro-leste do oceano ficam mais quentes do que o normal. Ele faz parte de um ciclo natural chamado El Niño – Oscilação Sul (ENOS) e pode afetar o clima em todo o mundo. Neste ciclo ENOS, o oposto do El Niño é a La Niña, que consiste no resfriamento das águas superficiais no centro-leste do Oceano Pacífico tropical. Na América do Sul, o ENSO também causa alterações na precipitação e na temperatura, embora de forma distinta em cada região. Entre os vários impactos do El Niño, destacam-se o aumento das chuvas no sul do Brasil e ao longo do litoral do Peru e do Equador; secas na Amazônia e no Nordeste brasileiro; maior frequência de ondas do calor no centro do Brasil; menor frequência de furacões no Atlântico Norte; e aumento das temperaturas globais. Grandes secas na Amazônia ocorreram durante anos de El Niño: 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24. No entanto, secas também ocorreram na ausência do El Niño, como em 1963 e 2005 na região amazônica e em 2012 no Nordeste do Brasil, estas relacionadas à variabilidade da temperatura da superfície do mar (TSM) no Atlântico tropical Norte. Estudos conduzidos na década de 1990 precisam ser atualizados, considerando o El Niño e a nova realidade das mudanças climáticas. Além disso, o monitoramento contínuo torna-se fundamental para compreender o que está acontecendo no presente e, portanto, o que pode acontecer no futuro. El Niño e desastres relacionados ao clima O El Niño não causa desastres climáticos diretamente, mas aumenta ou reduz a probabilidade de eventos extremos no Brasil, o que permite subsidiar a elaboração de previsões de risco com antecedência. Chuvas intensas ou ondas de calor podem ocorrer com ou sem atuação do El Niño, embora o estabelecimento deste fenômeno possa aumentar as chances e os impactos, como aconteceu em 2023 e 2024, quando eventos combinados de calor e seca intensificaram a quantidade de incêndios de vegetação na Amazônia e no Pantanal, e quando mais de 200 botos-cor-de-rosa morreram devido ao estresse térmico. No Sul do Brasil, inundações generalizadas impactaram o estado do Rio Grande do Sul na primavera de 2023 e no outono de 2024. Ressalta-se que os riscos de desastres dependem não somente da ameaça de fatores climáticos extremos, mas também da exposição e da vulnerabilidade da população, bem como da capacidade de proteção e das ações de mitigação. El Niño em 2026-2027 Atualmente, a previsão indica que haverá a atuação de um novo El Niño entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Mas no momento as previsões sobre a sua intensidade ainda carecem de confiabilidade. Segundo fontes oficiais e autorizadas, atualmente há 25% de chance de ocorrer um El Niño de intensidade forte e outros 25% de probabilidade de se configurar um fenômeno de intensidade muito forte, o que ocorre quando a temperatura na porção central do Oceano Pacífico supera em mais de 2°C o valor normal. Contudo, o Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI), outro dos institutos internacionais mais renomados no tema, destaca que as previsões feitas nesta época do ano apresentam alta incerteza quanto à intensidade do ENOS. Desta forma, será necessário aguardar até o próximo inverno para dispor de previsões mais precisas sobre a intensidade e os possíveis impactos do El Niño em desenvolvimento. Finalmente, é importante ressaltar que a previsão climática sazonal para o trimestre de maio a julho não indica uma influência clara do El Niño nas precipitações no Brasil. Outro aspecto relevante é que não há relação direta entre a intensidade do fenômeno e a gravidade

Menos horas, mais vida: debate sobre escala 5×2 também envolve mudanças climáticas e desigualdade

Carol Tomaz, Universidade de Brasília (UnB) A proposta de reduzir a jornada de trabalho voltou ao centro do debate público brasileiro. Mas, além das discussões sobre produtividade, custos e competitividade, existe uma pergunta que raramente aparece nesse debate: o que a jornada de trabalho tem a ver com a crise climática? Nas últimas semanas, discussões sobre o fim da escala 6×1 e a adoção de modelos que garantam mais tempo de descanso mobilizaram sindicatos, empresários, parlamentares e milhões de trabalhadores. Grande parte das análises tem se concentrado nos impactos econômicos da medida: empresas conseguirão se adaptar? A produtividade cairá? Os custos aumentarão? Mas reside aí um outro ponto pouco discutido, para além da questão da saúde e do bem estar dos trabalhadores: o que a jornada de trabalho tem a ver com a crise climática? À primeira vista, nada. Afinal, trabalho, produtividade e mudança do clima costumam ser tratados como temas separados. No entanto, um relatório internacional lançado recentemente sugere exatamente o contrário. O Global Justice Report, elaborado por uma coalizão internacional de pesquisadores ligados ao World Inequality Lab, de Thomas Piketty, propõe um caminho para enfrentar simultaneamente três dos maiores desafios do século XXI: a emergência climática, a desigualdade extrema e a perda de qualidade de vida. E uma das conclusões mais provocativas do estudo é que trabalhar menos pode ser parte da solução. Isso porque vivemos em uma época de enorme capacidade produtiva. Hoje, a tecnologia permite produzir mais alimentos, mais bens e mais serviços do que em qualquer outro momento da história. Além da inteligência artificial que avança rapidamente e a automação com as máquinas que substitui tarefas repetitivas. Com isso, a produtividade cresce em diversos setores. Diante desse cenário, seria razoável imaginar que, com esses avanços, as pessoas estariam trabalhando menos e desfrutando mais tempo livre. E essas novas variáveis deveriam entrar na equação de como estamos nos organizando economicamente. Mas não é isso que acontece. Em muitos países, inclusive no Brasil, milhões de pessoas continuam enfrentando jornadas longas, deslocamentos exaustivos, dificuldade para conciliar trabalho e família e uma crescente sensação de falta de tempo. Paradoxalmente, quanto mais produtiva a economia se torna, mais escasso parece ser o tempo, e o relatório parte justamente dessa contradição. Ele propõe que em vez de utilizar os ganhos de produtividade para ampliar continuamente a produção e o consumo, empregadores poderiam direcionar parte desses ganhos para algo cada vez mais raro: oferecer tempo livre. Tempo para cuidar dos filhos, dos pais idosos, da própria saúde, da participação comunitária, do aprendizado e do descanso. Conceito de suficiência Mas o que isso tem a ver com o clima? A resposta está no conceito de suficiência. Em termos simples, uma economia que depende menos da expansão contínua da produção e do consumo tende a exigir menos extração de recursos, menos energia e menos emissões para sustentar o bem-estar da população. Durante décadas, as estratégias econômicas foram construídas em torno de uma lógica simples: crescer continuamente. O que significa: produzir mais, consumir mais, e extrair mais recursos. Expandir mais mercados. Essa lógica ajudou a gerar riqueza, mas também contribuiu para a crise climática, para a perda de biodiversidade e para o aumento das desigualdades. O Global Justice Report propõe outra pergunta: quanto é suficiente para garantir uma vida boa para todos? Por mais que a mudança de pergunta pareça pequena, ela altera profundamente a forma como entendemos desenvolvimento. Já que em vez de perseguir o crescimento material infinito, a proposta é garantir que todas as pessoas tenham acesso a condições dignas de vida dentro dos limites ecológicos do planeta. Nesse cenário, prosperidade deixa de ser sinônimo de acumulação permanente e passa a ser medida pela capacidade de viver bem. O relatório mostra que essa transição não depende apenas de energias renováveis ou tecnologias mais eficientes. Ela exige mudanças na forma como distribuímos renda, riqueza e também tempo. Carol Tomaz, Doutoranda em Novas Economias e Inovação Social, Universidade de Brasília (UnB) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Quando confiar vira risco: como amigos e familiares ajudam a espalhar notícias falsas nas redes sociais

Giuliana Isabella, Insper Você confiaria mais em uma informação porque foi enviada por alguém próximo? Se a resposta for “sim”, isso pode ser parte de um problema. A desinformação não se espalha apenas porque parece convincente, mas porque chega até nós por meio de pessoas em quem confiamos. Um estudo publicado em abril na Online Information Review investigou por que pessoas comuns compartilham desinformação em aplicativos de mensagens. O artigo, intitulado “My friend sent it, I fell for it: investigating misinformation and sender credibility” (Meu amigo mandou, e eu caí na armadilha: investigando a desinformação e a credibilidade do remetente), foi conduzido por Eduardo Mesquita, Evandro Luiz Lopes, Júlio Araújo Carneiro da Cunha e por mim. Essa é a principal conclusão do estudo, que analisa como mensagens falsas circulam em ambientes digitais, especialmente em espaços privados como WhatsApp. Diferentemente das redes sociais abertas, esses ambientes são marcados por relações próximas, amigos, familiares, colegas, o que muda a forma como avaliamos o que recebemos. O papel da confiança No dia a dia, ninguém tem tempo (ou disposição) para verificar tudo o que chega no celular. Diante do excesso de informação, o cérebro busca atalhos. Um dos mais comuns é confiar na fonte: “se foi essa pessoa que enviou, deve ser verdade”. O estudo mostra que esse atalho tem consequências importantes. Em três experimentos com mais de 900 participantes, os pesquisadores apresentaram mensagens falsas variando apenas um elemento: quem teria enviado a informação. O resultado foi direto. Quando a mensagem vinha de alguém considerado confiável, a intenção de compartilhamento aumentava significativamente, mesmo sendo falsa. Ou seja, não é só o conteúdo que importa. Quem envia pode ser ainda mais decisivo. Quando algo “parece” verdadeiro Por que isso acontece? Segundo o estudo, a credibilidade do emissor faz com que a mensagem pareça mais verdadeira. Em situações de atenção limitada, como ao rolar rapidamente o celular, as pessoas não analisam os detalhes da informação. Em vez disso, usam sinais rápidos para julgar o que é confiável. A identidade de quem envia a mensagem é um desses sinais. Isso explica por que conteúdos duvidosos continuam circulando mesmo quando há dúvidas sobre sua veracidade. A confiança no remetente acaba “substituindo” a verificação dos fatos. O fator social: compartilhar para ajudar Mas acreditar não é tudo. O estudo identificou um segundo fator que aumenta ainda mais o compartilhamento: a relevância social. Em termos simples, trata-se da sensação de que aquela informação pode ser útil para outras pessoas. Pode ser um alerta de saúde, uma mudança em regras públicas ou qualquer conteúdo que pareça importante para amigos e familiares. Quando uma mensagem é percebida como relevante para os outros, a chance de compartilhamento cresce, especialmente se ela vier de alguém confiável. Isso ajuda a entender um comportamento comum: compartilhar algo “por precaução”, mesmo sem ter certeza se é verdade. Nesse caso, a motivação não é enganar, mas ajudar. O efeito dos grupos privados O ambiente onde a mensagem circula também faz diferença. Em aplicativos como WhatsApp, as interações acontecem em grupos fechados, com pessoas conhecidas. Isso aumenta a confiança entre os participantes e reduz o nível de questionamento. Ao mesmo tempo, há menos exposição pública, o que diminui o risco de ser corrigido ou criticado por compartilhar algo errado. Resultado: decisões são tomadas mais rapidamente e com menos verificação. Por que isso importa Essas conclusões mudam a forma como pensamos a desinformação. O problema não está apenas em conteúdos falsos ou em quem os cria, mas também em como pessoas comuns os distribuem. Muitas vezes, o compartilhamento acontece de boa-fé. A pessoa acredita na mensagem e acha que está fazendo algo útil ao repassá-la. Isso torna o fenômeno mais difícil de combater. O que pode ser feito? Nós sugerimos que estratégias contra desinformação precisam ir além da checagem de fatos. É importante alertar as pessoas sobre o papel da confiança nas decisões de compartilhamento. Confiar em quem envia não garante que a informação seja verdadeira. Outro ponto importante é a relevância social. Quanto mais uma mensagem parece urgente ou importante para os outros, maior deveria ser o cuidado antes de compartilhá-la e não o contrário. Esse é um dos aspectos mais contraintuitivos do estudo. No fim das contas, o estudo traz uma conclusão desconfortável: qualquer pessoa pode contribuir para a disseminação de desinformação. Não é preciso intenção de enganar. Basta confiar demais, verificar de menos e querer ajudar. Em um ambiente digital baseado em conexões pessoais, a confiança é um dos principais motores da circulação de informação. E, como mostra a pesquisa, pode ser também um dos principais caminhos para que conteúdos falsos se espalhem. Giuliana Isabella, Professora e pesquisadora de marketing, Insper This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Entenda como a mineração ilegal de ouro na Amazônia é causa direta de surtos de malária entre indígenas

Daniela de Angeli Dutra, Bangor University e Riley Casagrande, Stanford University Os preços do ouro estão em níveis recordes e estamos muito preocupados. Como ecólogos de doenças, não é a instabilidade econômica que nos preocupa, mas sim o fato de que um aumento na mineração ilegal de ouro pode ter um impacto devastador na saúde humana. Nossa equipe de pesquisadores da Universidade Stanford, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estabeleceu e quantificou os efeitos da mineração ilegal de ouro no aumento recente de casos de malária no território Yanomami, na Amazônia brasileira. Esse surto de malária mergulhou essa população indígena isolada em uma devastadora crise de saúde no início da década de 2020. Governo em prol do garimpo Quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência em 2019, fez da desregulamentação ambiental um pilar central do seu governo, alegando que as proteções ambientais e de terras indígenas prejudicavam o desenvolvimento econômico do Brasil. Ele também transferiu a autoridade de demarcação de terras indígenas da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) para o Ministério da Agricultura. Além disso, o então presidente emitiu decretos com o objetivo de desregulamentar a mineração do ouro na região amazônica. Esses decretos não faziam distinção entre a mineração regulamentada (portanto, legal), fora do território indígena, e a mineração dentro de terras indígenas, que é universalmente ilegal. Assim, garimpeiros ilegais invadiram o território Yanomami. Em janeiro de 2023, quando Lula assumiu a presidência, o número de garimpeiros ilegais no território Yanomami, o maior território indígena da Amazônia, havia subido para 20 mil, aproximadamente dois terços da população Yanomami. Malária e a crise de saúde dos Yanomami Semanas após Lula assumir a presidência, o veículo de notícias independente Sumaúma divulgou uma reportagem citando números alarmantes de doenças e desnutrição entre os Yanomami. Repleta de imagens do sofrimento do povo indígena, a reportagem motivou o presidente a declarar estado de crise humanitária. André Siqueira, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro da equipe de médicos enviada ao território após a declaração da crise, relatou: “As condições da população eram devastadoras”. Quase todas as pessoas testadas apresentaram resultado positivo para malária. Pequeno aumento na atividade mineração, grande aumento nos casos de malária A publicação da Sumaúma e o relatório do Instituto Socioambiental relacionavam o influxo de garimpeiros ilegais durante o governo Bolsonaro à crise sanitária dos Yanomami e à proliferação da malária. Como pesquisadores que se dedicam a estudar como as modificações de uso do solo contribuem para a disseminação de parasitas, suspeitávamos que a mineração ilegal de ouro e a malária não eram fatores isolados que contribuíam para a mesma crise, mas sim parte de um sistema de causa e efeito que devastava o território e sua população. A mineração ilegal de ouro pode disseminar a malária de diversas maneiras. Primeiro, quando os garimpeiros derrubam florestas e abrem clareiras nas margens dos rios para acessar os depósitos de ouro, criam o ambiente ideal para a proliferação do mosquito transmissor da malária na Amazônia. Segundo, quando os garimpeiros viajam para o território, possivelmente vindos de áreas endêmicas de malária na América do Sul, podem transportar o parasita e aumentar sua transmissão. Por fim, garimpeiros ilegais frequentemente utilizam mercúrio para extrair partículas de ouro de forma barata e fácil. Esse mercúrio é despejado nos cursos d’água da região, envenenando as pessoas que dependem dos rios para obter água e peixes, enfraquecendo seus sistemas imunológicos e tornando-as mais suscetíveis à infecção por malária. Os dados detalhados sobre as condições de saúde e ambientais na Amazônia, coletados pelo Ministério da Saúde, permitiram não apenas estabelecer com segurança essa ligação entre garimpo e malária de que os povos indígenas suspeitavam há muito tempo, mas também quantificar essa relação, tornando-a concreta e passível de ação. Ficamos chocados com os resultados: a relação era muito mais forte do que suspeitávamos. Descobrimos que cada aumento de 0,03% na mineração levava a um aumento de 20 a 46% nos casos de malária um a dois anos depois, resultando em um aumento de 300% nos casos de malária no território Yanomami entre 2016 e 2023. Compreender a associação entre a mineração de ouro e a malária, que está na base da crise de saúde dos Yanomami, é apenas uma parte da solução. Queremos que nosso estudo seja uma ferramenta que permita que ativistas indígenas influenciem a intervenção e as políticas governamentais. Afinal, nossos resultados mostram que prevenir a mineração ilegal em áreas indígenas gera consequências importantes para a saúde dessa população vulnerabilizada. Ações em muitas frentes pela saúde global O governo Lula está empenhado em importantes esforços para expulsar os garimpeiros ilegais e estabelecer centros de saúde no território. Embora as hospitalizações por malária tenham diminuído ligeiramente desde 2023, a incidência de malária entre os Yanomami permanece alta, devido ao efeito retardado que identificamos em nossa pesquisa e à dificuldade de acesso a diagnósticos e tratamentos oportunos em regiões remotas. Pesquisadores estão avançando para reduzir essa lacuna de acesso. Uma equipe internacional desenvolveu os “malakits”, que capacitam membros da comunidade sem formação médica formal a diagnosticar e tratar a malária no local. Esses esforços são de importância crucial, visto que os efeitos tardios da mineração ilegal de ouro continuarão causando incidência elevada de malária, a menos que as comunidades tenham amplo acesso ao tratamento. Também é importante garantir os plenos direitos territoriais das populações indígenas e capacitá-las a defender suas terras. Essa é, comprovadamente, uma das maneiras mais eficazes de combater o desmatamento e proteger os ecossistemas. Para enfrentar os surtos de malária, é também necessário diversificar a economia rural da Amazônia com foco na sustentabilidade, de modo que as pessoas tenham opções além da mineração e da exploração madeireira. Consumidores informados também podem contribuir para a solução do problema, priorizando a compra de ouro reciclado ou abster-se de comprar ouro, enviando um sinal de que a extração de ouro não justifica o custo humano, a exemplo do que já foi feito com os diamantes nos anos 2000. Os apelos para

Mudanças climáticas estão tornando regime de chuvas na Amazônia mais sensível ao desmatamento

Chuvas na Amazônia: estudo om participação de pesquisadores de cinco países investigou como as mudanças climáticas globais e os padrões regionais de uso da terra interagem para influenciar os padrões de precipitação na região sul do bioma até o ano de 2050. Foto: Fapesp Pesquisa / Rogerio Assis, CC BY Britaldo Soares Filho, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) A comunidade científica investiga, há um tempo considerável, as ameaças da ação humana para a Floresta Amazônica e seus impactos no clima regional e local. Uma das grandes preocupações entre os cientistas é o quanto de desmatamento a floresta suporta até que seu sistema de regulação de chuvas entre em colapso. Estudos prévios mostram que o volume de precipitações cai drasticamente quando o desmatamento ultrapassa cerca de 30% a 40% regionalmente. Nos últimos 50 anos, estima-se que a Amazônia tenha perdido cerca de 20% de sua cobertura vegetal para lavouras e pastagens, e a expectativa é que o dano total atinja 44,9% até 2050. Essa perda, entretanto, não recai sobre o clima uniformemente, de modo que os impactos dependem da escala geográfica e do uso que se faz das áreas afetadas. E não é apenas o desmatamento que impacta o sensível equilíbrio local. De acordo com o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, a região sul da Amazônia deve sofrer com secas prolongadas e redução de chuvas em geral em decorrência das alterações climáticas globais. As consequências conjuntas de mudanças no clima e perda de cobertura vegetal nativa para ultrapassar o limiar de colapso amazônico, entretanto, ainda não haviam sido investigadas. Padrões regionais de uso da terra Diante dessa incógnita, o principal objetivo do nosso estudo, Climate Change Amplifies Rainfall Sensitivity to Deforestation in the Southern Amazon, publicado na Geophysical Research Letters, com participação de pesquisadores da China, Austrália, Coreia do Sul, Finlândia e do Brasil, foi investigar como as mudanças climáticas globais e os padrões regionais de uso da terra irão, em interação, influenciar os padrões de precipitação na região sul do bioma amazônico até o ano de 2050. Nossos principais questionamentos eram como os efeitos combinados das alterações no clima e do desmatamento modificariam padrões regionais de precipitação futuros e sua sensibilidade à perda progressiva da floresta, e se as mudanças climáticas alterariam o limiar de desmatamento necessário para causar reduções mensuráveis e persistentes das chuvas. Nas análises, foram combinados cenários de mudanças climáticas globais e mudanças no uso da terra regionais. Para o clima, foram usados contextos contrastantes, em que um representava um caminho de desenvolvimento sustentável, com baixas emissões de gases do efeito estufa, e outro, um caminho de desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis, com altas emissões. Para o uso da terra, foi utilizado o cenário “business‐as‐usual” (BAU) do modelo SimAmazonia, que considera as tendências de expansão agropecuária e infraestrutura sem grandes melhoramentos na legislação e sua implementação através da fiscalização ambiental. O sul da Amazônia é uma região sob forte pressão da fronteira agrícola, e o modelo usado no estudo projeta que a cobertura florestal na área deve diminuir de 49%, em 2020, para 39% até 2050. Ao mesmo tempo, a área cultivada deve crescer em 5% e as pastagens devem se expandir de 30%, em 2020, para 36% até 2050. Queda significativa na precipitação média até 20250 Em relação às chuvas, ao considerar apenas as mudanças no uso da terra de 2020 para 2050, a precipitação média por ano na região reduziria em 1,7%, variando 42,1 mm. Quando apenas as mudanças climáticas são consideradas, a precipitação média anual diminui em 12,3% ou 295,4 mm, no cenário de baixas emissões, e 9,4% ou 225,1 mm sob o contexto de altas emissões. Quando analisadas em conjunto, mudanças no uso da terra e climáticas provocam redução de 13,9%, ou 337.5 mm, no cenário de baixas emissões e 10,9%, ou 267.2 mm, no de altas. A menor taxa de redução no segundo cenário pode dar a falsa ideia de que esse contexto seria, então, melhor que o de baixas emissões. Porém, o estudo também mostra que a distribuição e intensidade das chuvas é afetada. Sob as condições do segundo cenário, altas emissões, o volume de precipitações é maior apenas em um ponto específico, enquanto é menor nas demais áreas, revelando um maior desequilíbrio regional. De modo geral, as análises revelam que as alterações no clima deixam o equilíbrio pluviométrico ainda mais vulnerável às mudanças no uso do solo. Isso significa que o desmatamento, diante das mudanças climáticas, se torna ainda mais prejudicial ao regime de chuvas, e impacta severamente o agronegócio na região. Os resultados desse estudo são, enfim, mais uma prova de que barrar o desmatamento é essencial e a melhor decisão quando se pensa no futuro, sobretudo do Brasil. Apenas desse modo será possível salvaguardar tanto os recursos hídricos, quanto a produtividade e competitividade da agricultura regional e nacional. Britaldo Soares Filho, Fundador e pesquisador do Centro de Sensoriamento Remoto, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Veja o resultado de simulações de computador para prever a seleção ganhadora da Copa do Mundo

O polvo Paul apostou na Espanha contra a Holanda em 2010, mas será que simulações baseadas em ciência de dados e aprendizado de máquina vão se sair melhor este ano? Roland Weihrauch/DPA/AFP via Getty Images Achim Zeileis, University of Innsbruck Antigamente, quando queríamos saber qual seleção venceria a Copa do Mundo, precisávamos recorrer a videntes com bolas de cristal, adivinhação com folhas de chá ou torcer para que Paul, o Polvo nos indicasse o que iria acontecer. Mas a ciência de dados moderna pode oferecer uma alternativa melhor. Como parte de uma equipe de estatísticos, ajudei a treinar um algoritmo de aprendizado de máquina para prever o desfecho mais provável do torneio. Previsões probabilísticas e dados viciados O algoritmo que criamos funciona em duas etapas. Na primeira, modelos estatísticos sofisticados e insights de especialistas em apostas e no mercado de transferências são combinados para determinar os pontos fortes de todas as seleções e de seus jogadores. Na segunda etapa, um algoritmo de aprendizado de máquina decide a melhor forma de combinar as estimativas de força com outras informações sobre as seleções. Isso gerou uma previsão probabilística para cada partida possível do torneio. Isso pode ser comparado a um par de dados viciados: em vez de terem os números de 1 a 6 com probabilidades iguais, esses dados viciados têm probabilidades diferentes para o número de gols de cada time. Por exemplo, de acordo com nossa previsão, o México tem uma média de 1,9 gols na partida de estreia, enquanto a África do Sul, seu adversário, tem uma média de apenas 0,7. Mas isso não significa que o México certamente vencerá. Em vez disso, uma vitória do México é o resultado mais provável, com 65% de probabilidade. Um empate é menos provável (21%), e uma vitória da África do Sul é o resultado menos provável (14%). ‘Vuelve a casa, el fútbol vuelve a casa!’ Usando diferentes pares de dados viciados, o resultado de cada partida da Copa do Mundo pode ser simulado. Levamos em consideração o sorteio oficial do torneio e todas as regras da Fifa, incluindo a possibilidade de prorrogação e pênaltis. Executamos a simulação 100.000 vezes para determinar o roteiro mais provável do torneio. Os resultados mostram que a Espanha é a favorita ao título, com uma probabilidade de vitória de 14,5%, seguida de perto pela Inglaterra e pela França, ambas com 12,4%, e pela Alemanha, com 11,2%. Devido à ampliação do torneio – esta Copa do Mundo conta com 48 seleções e cinco rodadas na fase eliminatória –, este grupo de favoritas está bastante disputado. Portugal e a Argentina também têm boas chances de conquistar o título, com 8,9% e 8,2%, respectivamente. Já o Brasil vem na sétima posição, com 4,7% Os Estados Unidos, por sua vez, têm boas chances de chegar às oitavas de final: 78%. Essa é a maior probabilidade do grupo, que conta com outras três seleções. Na fase eliminatória, no entanto, quando cada partida é decisiva, as chances da seleção americana “sobreviver” caem relativamente rápido. A probabilidade de uma vitória da seleção anfitriã na final no MetLife Stadium, em Nova Jersey, em 19 de julho, é de apenas 1%. Um olhar mais profundo na sala de máquinas Nosso algoritmo de aprendizado de máquina e as simulações subsequentes são alimentados por dados, conhecimento especializado e modelos estatísticos. Primeiro, todas as partidas internacionais dos últimos oito anos servem de base para uma estimativa “retrospectiva” da força das seleções. Em segundo lugar, uma estimativa “prospectiva” da força é obtida a partir das cotações de várias casas de apostas internacionais, refletindo suas opiniões especializadas sobre o torneio que se aproxima. Em terceiro lugar, as avaliações dos jogadores individuais são produzidas com base em suas contribuições para os gols nos níveis de clube e nacional. E, finalmente, a qualidade atual e o potencial futuro dos jogadores se refletem em seus esperados valores de mercado. Essas informações estão disponíveis no site Transfermarkt, que utiliza uma abordagem de sabedoria coletiva para estimar os valores reais de mercado ainda desconhecidos. Essas quatro variáveis são combinadas com uma ampla gama de outros dados relevantes que refletem a situação atual das diferentes seleções e dos países de origem dos jogadores. Isso inclui detalhes específicos das equipes, como sua classificação na Fifa e o número de jogadores nas semifinais da Liga dos Campeões deste ano. Também levamos em conta fatores socioeconômicos específicos de cada país, como o PIB per capita. Para determinar se e como essas características são relevantes para os resultados reais em uma Copa do Mundo, foi utilizado um algoritmo de aprendizado de máquina. Aqui, uma chamada floresta aleatória é treinada, consistindo em muitas árvores de decisão que capturam subconjuntos ligeiramente diferentes dos dados. O algoritmo foi treinado com todos os jogos disputados nos principais torneios de futebol desde a Copa do Mundo de 2006. Assim, ele relaciona a força de uma equipe, seu valor de mercado e outros fatores ao número de gols marcados nas partidas da Copa do Mundo. Essas são as informações que definem o resultado de nossas simulações. Saiba mais Esta não é a primeira vez que nossa equipe, composta por Andreas Groll e Rouven Michels e colegas da Universidade Técnica de Dortmund, na Alemanha, Lars Magnus Hvattum da Faculdade Universitária de Molde, na Noruega, Gunther Schauberger da Universidade Técnica de Munique e eu colaboramos para fazer uma previsão da Copa do Mundo. Na Copa do Mundo Feminina de 2019, previmos corretamente que os EUA seriam os vencedores. Na Copa do Mundo Feminina de 2023 e na Copa do Mundo Masculina de 2022, os vencedores – Espanha e Argentina, respectivamente – não eram nossos favoritos, embora tenhamos previsto que fossem sérios candidatos. O ponto principal é que previsões tratam de probabilidades. Nosso programa não vai prever o vencedor com 100% de certeza – mas pode se sair melhor do que um molusco de oito braços. Achim Zeileis, Professor of Statistics, University of Innsbruck This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original