Ouro Preto, quarta-feira, junho 10, 2026 06:52

Diagnóstico de autismo em adultos ainda é raro no Brasil: e isso começa a mudar

Milhões de pessoas vivem a vida inteira sem saber que são autistas. Uma mudança legislativa busca corrigir isso.
Foto de Jiljana Isidoro

Jiljana Isidoro

Quantas pessoas você conhece que descobriram ser autistas depois dos 30 anos? Provavelmente mais do que deveria. No Brasil, o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) em adultos e idosos permanece como lacuna estrutural na saúde pública — e a razão é menos misteriosidade do autismo em si e mais a invisibilidade histórica dessa população.

Durante décadas, autismo foi discutido e diagnosticado principalmente em crianças. Adultos e idosos autistas que não receberam diagnóstico na infância frequentemente passaram a vida tendo seus sintomas reinterpretados como ansiedade, depressão, esquizofrenia ou distúrbios de personalidade. Alguns procuraram ajuda psicológica durante anos sem nunca ouvir a palavra “autismo” como explicação para suas experiências.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA — número que experts concordam estar subestimado, especialmente entre adultos. A mudança legislativa recente que incluiu incentivo ao diagnóstico em adultos e idosos como diretriz da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista reconhece um fato simples mas negligenciado: diagnóstico tardio ainda é diagnóstico. E pode mudar vidas.

Acessar redes de apoio específicas, compreender padrões de comportamento próprios, ajustar estratégias de trabalho e relacionamento — essas possibilidades abrem portas apenas quando alguém finalmente sabe o que está acontecendo. É por isso que profissionais que trabalham com autismo defendem a expansão do diagnóstico além da infância. Não é sobre descobrir uma epidemia oculta. É sobre reconhecer que pessoas já estavam lá.

A implementação ainda dependerá de regulamentação, capacitação de profissionais e alocação de recursos — obstáculos conhecidos no sistema de saúde brasileiro. Mas o reconhecimento legislativo de que adultos e idosos autistas precisam e merecem diagnóstico marca mudança de perspectiva que, ao menos em papel, já começou.

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