Mariana, a primeira de Minas: 330 anos entre história, fé e política

No Dia de Minas, Mariana celebra 330 anos com governador, Jota Quest e Wilson Sideral
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Jiljana Isidoro

Foto: Flávio Tavares/O Tempo

Na Praça Minas Gerais, em Mariana, não há como escapar da sensação de que o tempo parou. De um lado, a Igreja de São Francisco de Assis. Do outro, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. No centro, o Pelourinho, testemunha muda de uma sociedade que ainda não acabou de processar o que foi. É nesse cenário que o estado de Minas Gerais escolheu celebrar seu aniversário todos os anos, no dia 16 de julho.

A data não é arbitrária. Em 16 de julho de 1696, bandeirantes chegaram à região do Ribeirão do Carmo em busca de ouro. O metal precioso trouxe mais gente, formou um arraial e deu origem ao que viria a ser não só uma cidade, mas o primeiro centro administrativo, eclesiástico e cultural de toda a capitania das Minas Gerais. Antes de Ouro Preto, antes de Belo Horizonte, havia Mariana.

Da vila à primeira cidade

O pequeno arraial cresceu rapidamente. Em 1711, foi elevado à categoria de vila, com o nome de Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, e passou a abrigar as primeiras estruturas administrativas da região. Em 1745, por determinação do rei Dom João V, o lugar foi elevado à condição de cidade e ganhou o nome de Mariana, em homenagem à rainha Maria Ana D’Áustria, sua esposa.

Naquele mesmo período, Mariana tornou-se sede do primeiro bispado de Minas Gerais, tendo como primeiro bispo Dom Frei Manuel da Cruz. Era a primeira cidade de Minas num sentido que ia além do título: o lugar onde o poder se organizava, onde a fé se institucionalizava, onde a cultura florescia.

Foi em Mariana que viveu e trabalhou Cláudio Manuel da Costa, advogado, poeta e um dos conspiradores da Inconfidência Mineira. Foi também desta terra que saiu Manuel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, cuja pintura transformou tetos de igrejas em obras-primas da arte colonial brasileira. A cidade não apenas abrigou a história de Minas: ajudou a criá-la.

Esse passado está inscrito na paisagem urbana de forma que poucas cidades brasileiras conseguem rivalizar. A Praça Minas Gerais reúne, num único espaço, igrejas do século XVIII, a antiga casa de câmara e cadeia e a Catedral Basílica da Sé. Há também a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, expressão da fé e da resistência da população negra na formação da cidade. O Dia de Minas, celebrado anualmente em 16 de julho, foi instituído pela Lei Estadual nº 7.561, de 1979, em reconhecimento a esse papel central. Nesta data, simbolicamente, a capital mineira é transferida para Mariana, que se torna sede das celebrações oficiais do estado. Por 16 anos consecutivos, a cidade ocupa o primeiro lugar no ICMS Cultural, a métrica que mede o investimento municipal em patrimônio e cultura.

“Aqui Minas começou”

Na cerimônia desta quinta-feira, o prefeito Juliano Duarte não deixou a data passar sem reivindicar esse peso histórico. Diante do governador Matheus Simões e de autoridades civis, militares e religiosas reunidas na Praça Minas Gerais, ele foi direto:

“Hoje, nessa praça histórica, celebramos não apenas o aniversário de um município, mas o nascimento de uma parte fundamental da história de Minas Gerais e do Brasil. Hoje Mariana volta a ocupar, simbolicamente, o lugar que sempre lhe pertenceu, o lugar de origem, de referência e de coração da nossa mineiridade.”

O prefeito fez questão de incluir na narrativa oficial aqueles que a história durante muito tempo ignorou:

“É preciso lembrar que essa história também foi construída pelo trabalho e pelo sofrimento de milhares de homens e mulheres africanas escravizadas, cujas mãos, conhecimentos, tradições e cultura tiveram participação decisiva na formação econômica, social e cultural da nossa cidade. Reconhecer a grandeza de Mariana também significa reconhecer todas as pessoas que participaram da sua construção.”

Duarte percorreu a história da cidade passo a passo, de Cláudio Manuel da Costa ao Mestre Ataíde, das igrejas da praça ao artesanato de pedra-sabão, do congado às guardas de banda de música. E usou o palco para enumerar investimentos: quatro novas unidades básicas de saúde em parceria com o governo do estado, um hospital universitário com cerca de 200 leitos em parceria com a UFOP e o governo federal, 600 novas vagas de creche abertas no primeiro ano de gestão e a construção do que descreveu como o maior quartel da Guarda Civil do estado, com investimento de cerca de R$ 9 milhões. Anunciou também a duplicação da BR-351 entre Mariana e Belo Horizonte.

O prefeito não deixou de mencionar a ferida ainda aberta. Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão destruiu Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e outras comunidades, deslocou famílias e deixou marcas que onze anos não apagaram:

“Mariana não esquece os seus atingidos. Mariana não abre mão de justiça e de reparação integral do direito de construir o nosso futuro. A história da cidade não é formada apenas por momentos de glória. Ela também é formada pela maneira como o povo reage aos momentos difíceis. E o povo de Mariana mostrou ao mundo a sua capacidade de levantar.”

O discurso encerrou com uma síntese que mistura passado e presente:

“Aqui nasceu a primeira capital, aqui floresce a fé, a arte, a cultura e as primeiras instituições de Minas Gerais. Aqui começou uma história que ajudou a transformar o Brasil. Mariana continuará ajudando a construir o futuro de Minas.”

Os homenageados

Entre os 50 agraciados com a Medalha do Dia de Minas nesta edição, figuram nomes das artes, da segurança pública, do judiciário, da saúde e da sociedade civil. Entre os mais conhecidos do grande público estão Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest, e Wilson Sideral, cantor e compositor radicado em Minas Gerais. O antropólogo Paulo Araújo, pesquisador da identidade e do modo de ser mineiro, também recebeu a comenda. Na política estadual, foram homenageados o secretário de Saúde Fábio Baccheretti e o ex-secretário de governo Marcelo Aro. E Luiza Rodrigues Duarte, filha do prefeito Juliano Duarte, tornou-se a primeira criança a receber a medalha na história da honraria.

Dois palcos, dois governadores

A cerimônia do Dia de Minas em Mariana acontece 87 dias depois de outra celebração cívica que sacudiu a Região dos Inconfidentes: a entrega da Medalha da Inconfidência, no 21 de abril, em Ouro Preto. Os dois eventos são os maiores rituais cívicos do calendário mineiro, e os dois acontecem nessa mesma faixa de território. Mas o mesmo governador foi um homem diferente em cada um deles.

Em Ouro Preto, Matheus Simões discursou em tom de confronto. O prefeito Angelo Oswaldo havia subido ao palco antes dele e criticado o modelo de escolas cívico-militares defendido pelo governo estadual, evocando os próprios inconfidentes:

“Uma escola cívico-militante, não militarista, como pregava a campanha civilista de Rui Barbosa. Se militarmos em favor de uma educação cívica, lúcida, transparente e democrática, seguiremos a lição de Rui Barbosa, que nas eleições de 1910 condenou o militarismo como um atentado aos princípios basilares da República.”

Simões respondeu na mesma cerimônia. Pediu que os militares presentes se levantassem, solicitou aplausos e disse:

“Se há quem tenha vergonha do militarismo, essa casa não o tem. Respeito, pelo menos, por quem é recebido como visitante é o mínimo que se espera em Minas Gerais por quem é o dono da casa. Meu respeito aos militares, à doutrina militar e ao que eles representam para o Brasil. Que não caiam nas palavras vazias e baratas daqueles que não respeitam as instituições brasileiras.”

O evento cívico virou embate político que ganhou o noticiário nacional. O prefeito respondeu nas redes sociais, chamando Simões de “grosseiro, deseducado e desrespeitoso”. O governador, depois, minimizou o conflito sem recuar: “A educação que eu tive da minha mãe não necessariamente foi que todo mundo teve.”

Em Mariana, o mesmo governador chegou diferente. O discurso foi filosófico e afetivo, sem adversário visível. Falou sobre comunidade, família, fé e cultura como pilares do que significa ser mineiro. Pediu desculpas ao público que ficou no sol e explicou por que havia mudado o local da entrega das comendas: queria que as pessoas conseguissem ver as igrejas.

Entre os homenageados, o governador destacou pelo nome aqueles que via como símbolos do que descrevia. Rogério Flausino e Wilson Sideral foram citados como expressões da música de Minas. Paulo Araújo, como alguém que ilumina o que torna o estado singular. E Luiza, filha do prefeito, como a primeira criança a receber a comenda, num gesto que misturou o simbólico e o pessoal numa cerimônia que o próprio governador quis tornar mais popular. Encerrou com uma sentença de tom quase poético:

“Mineiro não é quem nasceu em Minas. Mineiro não é quem mora em Minas. Mineiro é quem vive Minas Gerais.”

O contraste não é pequeno. Em Ouro Preto, a carga ideológica do 21 de abril serviu de combustível para um conflito que saiu das páginas locais para o noticiário nacional. Em Mariana, a primeira capital convidou à reflexão e ao gesto afetivo. Os dois palcos são históricos, mas cada cidade parece exigir algo diferente de quem ocupa o seu palanque.

Que Minas Gerais celebre seu aniversário em Mariana, e não em Belo Horizonte, já diz algo sobre como o estado entende sua própria origem. Que os dois maiores rituais cívicos do ano aconteçam na mesma região diz algo sobre o peso que essa faixa do território ainda carrega. E que um governador em ano eleitoral se comporte de formas tão distintas nas duas cerimônias diz algo, talvez, sobre o que ele leu em cada uma delas.

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