O festival que Ouro Preto criou e não pôde guardar

Ouro Preto criou o festival de inverno do Brasil; quando a UFMG saiu, a festa mudou de proporção
Foto de Jiljana Isidoro

Jiljana Isidoro

Em julho de 1965, uma pintora imigrante chamada Erna Antunes decidiu que Ouro Preto e Mariana precisavam de um festival de arte. Não havia patrocínio, não havia apoio das autoridades locais, não havia estrutura. Erna bancou o transporte de instrumentos, figurinos e equipamentos com recursos próprios, pediu o teatro e o cinema emprestados e convenceu moradores a hospedar e alimentar os artistas convidados. O que nasceu dali foi o primeiro festival de arte do Brasil.

A iniciativa era tão improvável quanto necessária. Erna Antunes havia nascido em 1926 na Macedônia, estudado belas artes em Viena e trazido para o interior de Minas a ideia de que arte e público podiam ocupar o mesmo espaço, durante dias seguidos, numa cidade histórica. O festival de 1965 era conjunto: de Ouro Preto e de Mariana, ao mesmo tempo, num único espírito.

Dois anos depois, a Universidade Federal de Minas Gerais chegou com uma proposta diferente. Em 1967, professores da Escola de Belas Artes da UFMG, entre eles Álvaro Apocalypse, Berenice Menegale, José Adolfo Moura e Júlio Varela, criaram o Festival de Inverno da UFMG, com sede em Ouro Preto e uma escala que Erna não poderia ter alcançado sozinha. A universidade trazia verba federal, apoio do Ministério da Educação e da Funarte. O festival durava um mês. Não era só música e teatro: eram oficinas, cursos, residências artísticas, formação de público. Era um projeto de extensão universitária que usava a cidade histórica como laboratório.

O modelo que a UFMG construiu

O Festival da UFMG em Ouro Preto foi, durante mais de uma década, uma das experiências culturais mais singulares do país. Em plena ditadura militar, artistas, estudantes e moradores conviviam por semanas numa cidade que já carregava o peso simbólico da Inconfidência. A programação não era passageira: ela transformava a rotina urbana. Bandas tocavam nas igrejas, atores ocupavam as ruas, professores abriam ateliês temporários. Ouro Preto não recebia o festival: ela se tornava o festival.

A UFMG ficou até 1979. Saiu, passou por Diamantina e São João del-Rei, voltou brevemente a Ouro Preto nos anos 1990 e terminou se estabelecendo em Belo Horizonte, onde realiza neste julho de 2026 a sua 58ª edição.

O que a universidade levou quando foi embora não foi só o nome do evento. Foi o orçamento que tornava aquele modelo possível. Uma prefeitura de cidade histórica e uma universidade federal de porte médio não têm, nem juntas, o caixa que a UFMG mobilizava com apoio federal para sustentar um mês inteiro de programação plural e gratuita. Não é uma questão de vontade. É uma questão de escala financeira.

O festival que ficou em Ouro Preto

O que existe hoje em Ouro Preto é resultado de um esforço real da Prefeitura, da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP) e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). A edição de 2026, realizada ao longo de julho, tem como tema “Annamélia de Ouro Preto e Ouro Preto de Annamélia” e homenageia uma das figuras mais importantes da formação artística da cidade: Anna Amélia Lopes Rangel, a Annamélia.

Nascida em Nova Lima em 1936, Annamélia chegou a Ouro Preto em 1965, o mesmo ano em que Erna Antunes realizava o primeiro festival. Gravurista, desenhista, pintora e educadora, ela foi uma das fundadoras da própria FAOP, criada em 1968. Seu ateliê, revitalizado e reaberto ao público neste ano no centro histórico, guarda obras, matrizes, objetos de trabalho e pertences pessoais. Annamélia morreu em 2024, aos 88 anos. A homenagem do festival a ela é também um gesto de reconhecimento à geração que construiu as instituições culturais que hoje tentam sustentar o evento.

O festival de Ouro Preto existe, tem qualidade e tem identidade. Mas é estruturalmente outro festival. Não tem a duração do original. Não tem a mesma capacidade de formação. Não transforma a rotina da cidade por um mês inteiro.

O festival que Mariana construiu

Enquanto Ouro Preto herdava o peso de uma tradição que não conseguia replicar em escala, Mariana foi construindo o seu festival de inverno com uma lógica diferente: a da raiz local, sem depender de uma estrutura universitária que pudesse ir embora.

O Festival de Inverno de Mariana de 2026 celebra dois centenários ao mesmo tempo: os 100 anos do nascimento de Erna Antunes e os 330 anos da cidade. O tema escolhido, “Primoridades. 100 anos de Erna, 330 de Mariana: Tradicionalmente modernas”, é um acerto de contas com a própria história. Mariana reivindica Erna como sua, porque o primeiro festival foi também seu. A programação vai de 9 de julho a 2 de agosto, é gratuita e inclui música, teatro, exposições, gastronomia, oficinas e eventos descentralizados nos distritos. A atração principal é a cantora Vanessa da Mata, que se apresenta na Praça Minas Gerais.

O festival de Mariana não é maior que o de Ouro Preto porque Mariana tem mais recursos. É diferente porque nunca precisou substituir algo que perdeu. Ele cresceu com o que tinha, construiu identidade própria e se tornou um evento com alcance regional sem precisar da chancela de uma grande universidade para existir.

O que os festivais revelam

Sessenta e um anos depois da primeira edição, os dois festivais existem em cidades vizinhas, em julho, com programação simultânea. Quem passa pelas duas cidades neste mês encontra públicos diferentes, atmosferas diferentes, escalas diferentes.

Em Ouro Preto, o festival carrega o peso de ser o lugar onde tudo começou, mas com os recursos de quem recomeçou. Em Mariana, o festival celebra a mesma origem sem o mesmo peso. A Vanessa da Mata vai tocar na Praça Minas Gerais no dia 18 de julho. Erna Antunes, que fez tudo acontecer na primeira vez sem um real de patrocínio, seria homenageada com a própria cidade onde plantou a semente.

A história dos festivais de inverno da região dos Inconfidentes é também a história de como uma ideia sobrevive quando o dinheiro que a sustentava vai embora: às vezes encolhendo, às vezes se reinventando em outro lugar, às vezes encontrando uma forma nova de existir que a versão original nunca imaginou.

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